Friday, December 25, 2009

O mais doloroso poema





Não há mais ninguém no bar
nem na varanda onde casais dançavam.

Todos foram tomar seu trago, seu banho,
e deslizar preguiçosa e espalhafatosamente
em sonhos de seda, de luxúrias não resolvidas,
de imagens borradas de tantos drinks.

Eu te amo.
E não há quem ouça, somente gatos nos muros
para testemunhar a falência dos imensos ideais
juvenis ao som de Chet Baker e flores brancas na janela.

Sou a criatura mais fascinante deste planeta
depois dos felinos e das libélulas.
E também imperceptível de tanta fineza.
A elegância em excesso faz a invisibilidade
transformar-se em grosseria.
Comecei a falar palavrões demais.

Eu te amo.
E só na madrugada posso imaginar
se seria certo ou errado te mandar este poema,
sem utilidade ou propósito claro,
porque não sei se te quero mais.
Mas o desejo continua... e minha ética se debate
para descobrir se o teu rosto
não substitui o de qualquer homem que servisse nesta noite.

Meu sonho se embrulhou de frio
num jornal antigo e se cobriu de fumaça de cigarro
dos pedestres que esperavam o ônibus no ponto.
Como um mendigo, maltrapilho e faminto,
após uma longa noite de delírios de febre solitária.

Tuesday, December 15, 2009

Lilás






Lilás - eis a cor
dos mais devastadores crepúsculos.
Na estrada e pela janela
a copa das árvores escondem
partidas e lamentos.

Lilás na corda do violoncelo
azul e vermelho na corda do violão
partidas e blues mancham
o fim de um dia sem ar.

Lilás é a cor
da inocência que se deita como feto
no riso do bêbado no canto do bar.
Ela que pensávamos ter navegado
para mares onde não exista dor.

Hiperbórea, casta, mas há vasta consciência.
Lilás é a cor da mente dos anjos.
Eles que seguram a espada
enquanto rogam a Deus por aqueles que sacrificam.

Lilás, cor da música em mi bemol menor.
Tinge de óleo e aroma a sujeira que deixaram
os exércitos usurpadores, os violentos.
Cor dos fins, das saídas, dos nobres passos atrás da porta.

Lilás que se ergue em frio cinza azulado
nas lágrimas da anciã sorrindo sobre a memória.
Cor da morte do grande amor,
cor da lembrança de grandes dias em ânsias por noites de paz.

Friday, November 20, 2009

Torrente




A beleza me arrasta
veja a folha na água da chuva.

Arrasta-me a torrente do mundo
e os ventos com olhos e mãos.
Não me condene por ser leviana.
Mas se condenar, tampouco me importa.
Já sou folha na água da chuva.

Não adianta que me aconselhem e me digam o óbvio
de muitas gerações, conselho aprovado por matronas
que beleza não é o mundo, que a realidade é faminta
de conteúdo e regras sujas de graxa e fedendo a secretarias.

Escolho a beleza.

Por clareza, por transparência de propósitos.
Querem minha honestidade? Meu sangue, vísceras?

Escolho a beleza.

Sigo a água da chuva.
Quando eu morrer, que diferença isto faz?
A água é soberana.

Wednesday, October 07, 2009

A Primavera




um imenso buquê
de sangrentas magnólias

só eu sei em meu silêncio
só eu as vejo, ninguém me disse

doloridas vitórias-régias
começam a se abrir no lago frio

eu sozinha pressinto a calamidade
vermelha de girassóis

um gigante balé circular
de serpentes pulsa sob o frio

só eu ouço o rodamoinho
e a tensão em seu olho imóvel

um coeso arranjo de orquídeas
no centro imenso do calafrio

só eu pressinto a calamidade
das folhas douradas de arrepio

o absurdo silêncio de cordas
afinadas no terror e no desvario

só eu pressinto, sozinha em silêncio
a chama hostil no copo vazio

Mais sonhos do Anjo




A liberdade é uma bicicleta vermelha
que derrapa na chuva.

A alegria é uma espada samurai
na parede de uma freira.

O silêncio é quando uma criança
ri na missa.

O medo é um lençol branco
que voa no trânsito.

A bondade é um bolo de fubá
que se acha no lixo.

A justiça é o Filho de Deus
morrer só e crucificado.

A igualdade é os pássaros poderem
fazer ninhos nas trombetas dos Anjos.

A perfeição é o Senhor desenhar o Universo
e com um corretivo apagar a Si mesmo.

A liberdade é uma bicicleta vermelha
que na chuva adentra a escuridão.

Ciclo Lucifer- Eu sou a Serpente


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E nada me impede
nada me impressiona

canta chuva canta chuva e cantarola
mata mosca mata mosca e mais marola

Eva dormiu sob a laranjeira
e sonhou com formigas vermelhas
que sonho estranho, Eva
que sonho estranho

não gosto de tablaturas
os gafanhotos só me oferecem hosanas
todo o tempo amanheço e troco escamas

cacatua krakatoa em lá menor
nasce o sol e morre o dia em amarelo
que diferença faz para quem come farelo?

dançam os dervixes e os curiós espreitam
é a dança lisérgica dos espaços que não existem
é a dança das marionetes brancas que nada dizem

dança do homem maluco
dança do homem faminto
dança do homem condenado

Querem teoremas? Eu os tenho todos!
Sou a relíquia dos governos arruinados!
Sou Alexandria viva, eternamente repartida
meu soro ofídico cuspo na gaita, de graça

Lua que se põe



Debaixo da árvore que ainda vive
no último vale do condado, sob chuva
deita-se um velho com um violão.
Ele carrega cartas de amantes separados
e relatos de rainhas depostas.

Se você ouvir bem no vento
que lhe chega com velocidade de anjos em guerra
vai sentir suas adagas libertando-se
e ferindo as palavras com muitos fff's e sss's
que proferem os fantasmas de oxigênio
criados pelas criaturas que mal respiram em suas agonias.

Ali estará a taça de tormento
que liberta o pássaro branco na beira da morte
Que fere o coração do moribundo
e dá o ar para o recém-nascido
Quando ainda fores nada
e quando já tiveres perecido no nada
ouvirá a entonação do cântico
que sempre esteve aqui entre zumbidos da cidade
entre ventres e nas nucas de crianças
com poderes sobrenaturais.

Thursday, September 24, 2009

Eu sei quem ela é



Um anjo caído.

Um capitão na marina em tormenta.

Um gato
no muro
de madrugada
observando.

Saturday, September 05, 2009

Sou um demônio




Encontrei num velho livro
um punhal de bronze escondido
e uma carta que relata
minha identidade antiga.

Deixo que o vento me leve
e fujo constante rumo ao norte.
Caminho na cidade como na relva.
Carrego uma pequena arma apenas.


Por isso sentia dor.


Havia me esquecido de quem eu era.
Monstros e canalhas deram-me de beber
uma poção envenenada... e esqueci-me.
Em oblívio, trabalhei e amei falsos deuses.


Sou uma caminhante com asas partidas.
Rastros de pedras dolorosas e flores brancas abandono
pequenas e virgens, nas trilhas, e canções longas
que duram dias, guardo na memória antiga.


Movimentos de luta e vôos desconhecidos
e símbolos ocultos que ninguém mais vê na terra.
Calças frouxas velhas e mantas desbotadas,
um chapéu, meu punhal e minha flauta.


Caí no rio e molhei minha armadura.
Desfaleci de fome e fadiga, e camponeses me acolheram.
Andei muito até chegar a esta vila
e agora vejo neste livro que posso finalmente recordar.


Por isso sentia dor.
Por isso chorava e escrevia poemas incompreensíveis.
Tocava lamentos de infâncias massacradas pelos monstros
e me lamentava de tempos perdidos que não conheci.


Ouço os conselhos da brisa de chuva,
saio com a luz da tarde semeando magnólias.
Levo este chapéu, um punhal e minha flauta
no eterno presente, a imortalidade do pássaro no tempo finito.

Wednesday, August 26, 2009

O Ataque das Vespas


Imagem de "V for Vendetta", hq criada por Alan Moore


Nuvens de poeira
em alto mar
e a brisa do jardim
torna-se lixo nuclear.

Cada dia é uma nova tormenta
e na terra de ninguém caem os traídos
atacados pelo enxame
de vespas malditas.

Sozinhas, não podem ferir.
As vespas só vêm em imensos bandos
e com milhares de pequenos ferrões
injetam todo o horror em nossas veias.

Com minha arrogância defendo-me.
Com minha impassividade ataco.
Na inexorável superioridade
ainda podem perecer barões.

Assim porto-me como guerreira
e de espada em punho, arco e flecha,
pistolas e golpes calculados
alerta todo o tempo, posto-me

à soleira do tempo, à beira da vida
na estalagem ignorada
à sombra do triste arbusto e na torre negra
velo meus tesouros sob o ataque das vespas.

Monday, August 17, 2009

Norwegian Scent


foto: Øyvind Heen



Norwegian scent
Norwegian chant
Ice and flowers
bloomed in Norway
take care of my love
you carry with you.

Norwegian bird
Norwegian chant
Bless my beloved one
you carry in your heart

Norwegian wind
Norwegian chant
Caress the hair of
my beloved one.
Bring its scent to me.

Sunday, August 16, 2009

Xilema, clareira, orelhas-de-pau





Sou mesmo um vegetal

uma samambaia espectral

derramando-se na amurada


Até o reino mineral

enredo-me e nado dissolvida

arabesco pulsante em água

que se desfaz em fria neblina

com o vento azul que dança na colina


A carne animal de sangue

traz-me arrepio adiposo

como um dente apodrecido

que se vê no escuro abismo


A dança de moluscos vermelhos

e o calor embaçado no espelho

trazem-me aos ouvidos cansados

o temor ao que está apartado


Sou mesmo uma gimnosperma

uma trepadeira nos troncos escuros

sob a sombra dos bambuzais

sacerdotisa de verdes catedrais.

Sunday, August 09, 2009

Alpes


A. Grothendieck



Não perco mais tempo
desfolhando os livros sagrados.
Os ímpios e a prole de ratos
que se acumula no mercado
não verão os versos, nem compreenderão.
Suas pequenezas cheias de grandiloquência
as impedem de sentir seus fedores.

Não perco mais tempo falando com o nada
e debatendo com as sombras e as formigas;
é infantil superestimar os ratos
e exibe falta de respeito ao Rito
o imiscuir-se entre jovens
para conversar sobre O Conhecido
- a eles tudo é estandarte de nobreza
tudo é preciosidade única, como rubis
do tamanho de maçãs, que apenas eles possuem.

Esquecer tudo isso, não perder tempo
exibindo aos pequenos seus tesouros
e abrindo os casulos do jardim, maculando borboletas bebês,
aos ladrões e usurpadores de poder.

Tudo o que querem é a adaga
para golpear, e obter as jóias e o Livro da Lei
que negam existir apenas por sede dele.

Tuesday, July 28, 2009

Felis




Não bebo água suja.

Durmo onde quiser e mantenho-me

impecável e elegante todo o tempo.

Não ando com multidões.


Não tenho medo de altura

nem da solidão. Durmo nos parapeitos

no alvorecer de dias brancos.

A noite é minha casa, busco o escuro

e os muros das ruas de madrugada.


Não gosto de todos. Observo-os

e reconheço as mãos dos ímpios

e dos brutos, e dos impuros.


Não me submeto.


Mantenho a fronte bem desenhada esquiva

e os olhos transparentes na espreita.

Mas tudo é calma e segurança

como os equilibristas de circo

e os silenciosos guerreiros zen.

Desperto do sono absoluto sem sonhos

para a ação imediata, corpo flexível,

olhos bem abertos e garras estendidas.


Antecipo-me ao medo e vôo na rapidez

do pensamento, antes que a presa corra,

antes que o impuro me lance água quente.

Entretanto, a sutileza do medo não subtrai meu prazer.


Estamos sóbrios e altivos na inteireza da vida,

mas elegantemente à parte,

sobre os muros e sacadas,

espreguiçando-nos nas camas,

e mantendo distância dos torpes.

Somos sempre belos e delicados.


Não bebo água suja.

Não tenho medo de altura.


Minha solidão é minha sombra.

Thursday, July 23, 2009

If I lived alone


picture by Clark Little



If I lived alone I would never drink any coffee
My life would be made up of rum and whiskey
Other intoxicating and addicting substances of course
'cause what is the funny thing about being sober at all?


Being sober is only a question of public health.


I need the rum and the whiskey - and a car
but they say cars and drinks are not made for each other...
Then I must resign (on account of the police) and withdraw with my bottle of rum - piece of shit actually
but sensitive to my pains and enchantments more than most of my so called friends


Tis is a poem made by a clown in pain - may there be anything funnier or more honourable?

The Unforgiven



music: "The Unfogiven", by Apocalyptica



It seems that all the sadness of this world has come
to visit me tonight - such a night, so cold but bright.


But I must hide, so that mother won't see me
and the cats will keep running, children, around the house.


All the tears came to see me, and all the memories,
all the pain dressed in delicate satin clothes, with samurai swords.
I can't be alone, 'cause mother will see me crying before them
memories dressed like nineteen century dandies


You see, I have this drink with me and these fake friends celebrating outside.
My brother rum, don't you let me down - my only hope, my light.
my fake light until sunshine, that's eternity trapped in a bottle
medicine of pirates, freedom and wind from the seas I could never see.


It seems all the dreadful, ridiculous, beautiful memories came to visit me
Hate is my bodyguard, like Cerberus the Dog, it prevents me from forgiving
the horrible Unforgiven, Unforgiveable People from Outside.

Saturday, July 18, 2009

Just like Dylan


Medusa, by Böcklin


Similar to a medusa I've been crowned by serpents
Yet I refuse to give way to demons like yourselves.
Pearls that cast a spell, they're angry but amused
I try to remember who is this she gave birth to.
Who shall be brave enough to give me a sword and a car?
So I will flee as soon as possible and nothing will be heard of me.


Bunch of hypocrites, an army of stinky caterpillars hiding.
You are always proud of your hidden faces - just for the record.
They say I must be patient... how long shall I wait? Like a cow
like a home lady, like an orphan child expecting future, like a fat sad cook?
Are you taking me for a peaceful nun, a dying dirty river, an old newsstand owner?
I'm on fire, a I'm a fire stone, I'm a star, a supernova. Tell a burning object to be patient.


Rain has come to embrace the earth and protect all animals inside love tents.
But I'm outside smoking dressed as burning medusa with a cold heart taken by revelation.
And my eyes are caught by the rainy butterflies which gather and spark
They're useless and I must listen to your mediocre and pathetic prayers.
That would turn me on, yes, castles made of mourning and chunks of human leftovers.


I finally end up on the walls of the city along with the urban cats
the feline silence fills my pride with looks of saints and eyebrows of Salomes.
I wish your eyes didn't notice me and your bat ears didn't hear my heartbeat,
I'm taking my leave, I'm carrying my instrument, I'm a cat on the edge of the road.

Predadores





Manhã. Eu dentro da tarde, e adentro a noite.

Você deveria ter vergonha, deveria se enxergar e crescer.
Qua diabo de amizade ridícula, que pensa que diz?
- Assim desperto no ninho de abutres, dando-lhes senhas.

De fato você só quer me observar os hábitos
como se observa um animal de pelagem estranha em seu habitat.
Você só quer notar os peculiares modos e os conhecimentos extraordinários
e depois repetirá a todos, e me exibirá neste teu zoológico,
com esgares e altas risadas, exibirá seu prêmio por agir como um rato
espiando na penumbra dos meus sorrisos e dos meus lamentos,
virá mostrar pornograficamente meus zelos a mim,
rindo por se achar tão esperto e ser capaz de finalmente me dar uma lição.


O que você aprendeu ontem eu sei desde nascida.
O que vem me mostrar com este discurso e palavrórios
não passa de brinquedos, de grandes descobertas e certezas de iniciantes.


Nada pode ser mais triste.
Você só vem a mim na minha paz para competir
e eu que havia esquecido da bela solidão,
da eternidade que repousa nela, viciei-me na companhia dos sórdidos.
Agora preciso sacar a espada constantemente
e não há mais lugar para a música e os passos de dança.
A todo momento minahs mãos estão sobre o cabo da espada.


Cansaço e desprezo são produtos da convivência.
Nunca houve um leito para a amizade e a irmandade emocionadas.
Vocês vêm a mim como ratos, tramando e falando, suas vozes e guinchos
perturbam o próprio equilíbrio dos sons e das notas.
Vêm a mim sempre competindo e esmiuçando e cavando buracos
e quebrando os vasos, sujando o chão, desfazendo a disposção dos véus.


Desapareçam, ou terei que disparar meu arco sobre seus ventres
para que jamais tenham a ousadia de caminhar sobre minha terra novamente.

Tuesday, July 14, 2009

Antonia


Quero que este seja um poema de flores
um poema de vaga-lumes, joaninhas e beija-flores.
Vaga-flores, beija-lumes, beijinhos.

O lótus nasce da lama.
Os anjos do artista nascem do barro.
Ela veio da terra, se escondendo nos galhos dos cajueiros,
ela veio brincando com as serpentes e comendo pedras.
Nas mãos, carrega armas feitas de flores.

Você não irá encontrá-la se for ao seu encontro
como um diabo malicioso e sedento,
ela tem olhos de águia e usa lanças de ar.
No alto da árvore, lhe observa em silêncio.

Ela é meu único lar neste mundo. Meu lar de flores,
meu lar de folhas e ventos no verão que acabou de chegar.
Que ela nunca parta, pois estarei na chuva.
Só me restará caminhar descalça nestas ruas sujas,
sem nome, nem camas macias, nem cartas que me escrevam.
Serei uma viajante muda nesta terra que os deuses abandonaram.
A andarilha sem beija-flores, nem luzes com cheiros de maçãs assadas.

Pássaros verdes cruzam a janela, e tenho que contar a ela.
Pela manhã, com o ouro da alvorada fria, nasce a sua voz na canção.
Pela madrugada, sua sombra está velando o sono das meninas.
O gato dorme aos seus pés reconhecendo asas de beija-flor.
Que ela nunca parta, que não me tomem os deuses
o vaga-lume, o beija-flor, e as cores de toda a sua arte.

Eu a amo. Amo suas folhas e flores,
sua copa e suas belas raízes, e os insetos que voejam seus frutos.

Da lama nasce o lótus,
do breu nasce a estrela, do barro nasce a árvore
mais frondosa que jamais pôde haver.

Monday, July 13, 2009

Prazer em conhecer


Você vem falar comigo com seu sinal de cabeça
e ser meu amigo e quem sabe um amante rápido,
vem com essa amizade com a qual nada posso fazer
- posso gastá-la? posso ter êxtases? posso rir? posso chorar sobre ela?
essa ligação fétida de mofo e hálitos de professoras reprimidas e morais.

Você não sabe onde está se metendo. Desligue as luzes e saia
pela escada à direita, dobre a rua e siga pela alameda, esqueça-me.

Sou uma adaga fabricada por um artesão de 127 anos
mergulhada em sangue e fumaça, e das chamas, veja o desenho
de anjos terríveis no cabo, de flores com caules longos e pétalas desgraçadas.
Sou uma dose de whiskey antigo que o pai escondeu mas as crianças acharam
- não vá abrir a garrafa, não vá tirar a pistola da gaveta, pode estar carregada.

Sou uma noite escura e fria na estrada quando você está perdido.
Você não sabe de nada, e vem me falar do tempo e dos costumes e da história.
Vem me ensinar sobre a Gênese e os gloriosos feitos da humanidade
e os valores das taxas e dos impostos e o impacto do novo pacote econômico.
Vem querendo ser inteligente - eu como sua cabeça em três segundos.
Sou uma serpente encravada de pedras, devoro seus olhos em três segundos.

Você é provavelmente muito fraco, não conseguirá me suportar - sou amarga
sou um copo de anis, sou uma performance de rock metálico satânico
Seus ouvidos vão doer, sua cabeça vai girar, sua boca vai arder, você vai chorar.
vai chorar, vai chorar, vai praguejar, e será tarde demais... irá dizer que não me entende
como se os absintos e as maldições de guerreiros moribundos
precisassem do seu entendimento medíocre de escolar que tira dez na prova.

Sou uma dose letal de força e vermelhos, sou os roxos das madrugadas desesperadas.
Sou o pentagrama de Aleister Crowley, sou o suicídio do poeta português,
sou o vento sobre o avião que perdeu o contato com a torre,
o poema do negro bluesman que chega em casa bêbado e cuja mulher o largou.
Sou o uivo dos cães na cidade onde está o motel
em que você se hospedou e nunca viu,
no mesmo quarto onde foi morta uma puta há três dias.

Sou a morte da borboleta e o nascimento de um grande felino
Sou uma alvorada insone mergulhada em vinho
Sou um lamento de um místico hindu e a mão do samurai sanguinário.

Vocês são muito fracos para mim, esqueçam-me.
Devoro-os todos em segundos, suas cabeças, seus olhos,
e uso o sangue para polir meus instrumentos musicais.

Thursday, July 09, 2009

Lanças


"A queda dos anjos rebeldes" - Bruegel, O Velho


Armas sacrossantas pela noite voaram.

Na manhã, corpos de ímpios estão banhados

pelo sol frágil do inverno e o ar é leve, de tristeza que se foi.

Apesar disso, há cheiro de sangue por toda a parte.

Anjos altos que são apenas asas postam-se nas esquinas

observando os restos de suas intervenções e o horror

escorrendo pelas faces dos hipócritas transeuntes

e dos jornaleiros apressados em espalhar as novas.



Os anjos postam-se imóveis e insensíveis aos prantos.

Seus finos olhos e suas gigantescas asas são vistas

por aqueles que ainda têm ousadia para olhar acima de suas sombras.



Lanças foram arremessadas com toda a força.

Vindas de todos os lados, aos furtivos, aos impuros,

aos falsos castos, aos donos do mundo que se protegiam

atrás de computadores e grandes estantes e mesas,

os anjos não quiseram compreender, saber e perdoar suas

infelizes humanidades escondidas nos copos de uísque e em cheques

falidos renegados pelo Banco Central, com herpes ou vícios sexuais.



Os anjos desferiram suas lanças no espaço

atravessaram carnes com espadas sibilantes. Não houve chamados.

Antes que estrelas pudessem intervir maternais

com suas piscadelas, frescores prateados,

um grande massacre incompreensível havia sido executado.



Os anjos não perdoam a humanidade.

A humanidade é o que recebe seus golpes laminados.



Os anjos estão nas ruas, brancos, gelados, sombrios

seus olhos enormes sem pupilas, suas asas, impassíveis,

impiedosos e insensíveis a orações, mas alertas.

Suas lanças e espadas descansam ao lado de suas presenças

para as quais nem as crianças ousam olhar.

Os homens sujos ou apenas indignos, líderes

de terríveis bandos de lobos, caíram numa noite.

Todos sucumbiram na lama pelas lanças dos anjos enormes.



As legiões vieram trazer suas justiças enlouquecedoras.

Monday, July 06, 2009

2. Oboé




mergulha na voluptuosidade
típica dos místicos, dos santos
voluptuosidade do espírito vidente
espiritualidade visionária
íntimo contorno do porvir

Instrumentos - 1. Trompa



um animal da floresta escura

cheio de saudade envenenado

arpão de caça enfeitiçado

metal num um coração abandonado

Tuesday, June 30, 2009

Ideia




Vi veri ueniversum vivus vici - Faust


Nada, nua, flutua na brisa
Nuvem, cirro, esguia no espaço
Apenas fecha os olhos e silencia
Do corpo nu e da palavra fria
nascerão finos pássaros para além.

O sol nasce e vê que nunca houve a noite.
O medo dança mais débil entre as folhas da moita.
Se no deserto se encontra, pensa.
E no vento apenas escreve a verdade.
Resoluções corajosas de levantes,
grandes poemas-canções, partituras exultantes
e teoremas serpenteantes, posturas, luzes às torturas.

Então as trevas são nada. Apenas
as vozes e as danças não estavam aqui.
Crianças ainda não haviam surgido.

Nada é preciso. Nu, pobre, só.
Esquece o presente, a fome e o frio,
esquece o sangue nas mãos, o medo, o desvario.
Os pensamentos são aqueles delfins que surgiram
na direção da lua, na direção de Aquário,
tecendo os fios que conectam as grandes histórias.
Nada é preciso, nem caneta ou lápis, nem lábios,
nem mãos, nem danças ou gestos rudes.
Apenas o silêncio e deste oceano fecundo nasce, como Vênus no quebra-mar,
o primeiro cintilar. E daí as madrepérolas. E daí o mundo.

Sunday, June 21, 2009

Magnificat





Passa o gavião
Aqui o escuro
A noite deixa suas pérolas
sobre a mesa da entrada.

Deita-se o gato
na soleira da porta
antes que as bruxas
entrem na casa.
E observa em silêncio
o gavião que sobrevoa
os telhados da cidade.

Não uiva o vento,
está adormecido.
As mães costuram
mantas brancas
proteger das tempestades
seus pequenos filhos queridos.

Passa o gavião
Deita-se o gato
Costuram em silêncio as mães
e deixa pérolas a noite.

Friday, June 19, 2009

Maremoto



"O Triunfo da Morte", de Bruegel O Velho


Cantar é difícil depois do que nos fizeram.
Viver é como prender a respiração num mergulho em alto mar
com tempestade no meio da madrugada que naufragou um beleeiro.
Parece-me que o tempo está suspenso, mas ele na verdade se traveste
de monge pedófilo, esconde suas mãos sob a capa e traz um punhal.
O tempo nos vigia a todos, tomem cuidado.

E depois do naurágio ainda não estou satisfeita.
Espero pelo grande maremoto que vai destruir esses corais
de mau gosto, essa série de praias mal desenhadas
que vai trazer ao espaço ventos nascidos neste minuto
ares que vêm de outra dimensão, do lugar do devir
a morada da inocência cruel e da brutalidade recém-saida da inexistência.

Vejo que você se ri, e pensa que já sabe do que falo
Mas não sabe. Porque todos vocês só querem uma grande onda
que no fundo arrume a floresta no seu lugar e que lave os corpos tão lindos.
Tudo besteira do velho Platão, dos egos, das satisfações... não existe tal beneficência
o maremoto só pode matar a todos nós - e alguém sabe o que é a morte?
Patavinas. Sabem o que é a tortura e as fotos de mortos.

Cantar o espaço. Será melhor calar porque os monstros escutam
e o mar está cheio... em breve um grande cachalote nos engolirá.
OU cairemos num maelstrom, ou entraremos num ciclo de vento.
Ninguém sabe de fato do que estou a falar, e vocês se riem...

Monday, June 15, 2009

Movo-me como vento






Pela janela do carro, respiro
Pelo vidro do ônibus, componho.

Nas ruas chuvosas na noite
caminho-mal-observo as pedras
e os lagartos que me vêem.
Observo o mundo me espreitando,
e quanto mais você me buscar,
mais longe irei, mais desvanecerei.

Minhas botas estão enlameadas
e danço na chuva no frio
a música do sangue nas têmporas.
Caminho na praia de inverno sozinha
com a capa cobrindo o cabelo curto
e o vento frio me leva para ruas inóspitas
onde sou feliz. Um poste reflete fantasmas na água
que umedeçe o asfalto logo adiante,
e na praia não há vivalma.

Vou adiante e retorno, e ouço o jazz
entro, bebo vinho, e retorno à rua
tomo o último ônibus, vou na madrugada.
Você não irá me encontrar,
você no máximo irá trocar palavras de cortesia
e quando mal perceber estarei no penúltimo vagão.
Lá estará você com minha foto nas mãos.
Pareço uma mulher meiga e simpática
e entendo que você pensou por um minuto
que uma história se iniciara finalmente.
Mas o vento me arrasta com a chuva.

Movo-me para além, movo-me para debaixo
de arbustos e escuridão e reapareço entre ondas
sempre com novos discursos e novos olhares
renascidos de noites febris e cheias de lágrimas
sob as mãos de bruxas de cabeleiras gigantes.
Sempre novas músicas e modas, após noites de breu.

Lá estou eu na beira daquela estrada que passa
Lá estou eu sentada falando com o rio na ponte
Lá estou eu no píer que avança enorme e alto na tempestade
Lá estou eu no bar escondida com uma dose de uísque.
Para lá me leva a chuva, para cá me traz o vento.

Friday, May 29, 2009

Fôlego




Despir-se das palavras de suor e agonias
e as ânsias carbônicas das ruas insalubres
para dar à luz...o vento.

Cortar os cabelos e mechas que cobrem a visão
que pesam e que têm que ser penteados
para dar passagem ao... ar.

Largar a mala no ponto de ônibus e
sentir os ombros ardendo pela lembrança do pesar
para dar lugar à... brisa.

Deixar as moedas e os papéis na praia
os fios e vestes, mantos de mau gosto
para caminhar até o farol no...céu.

Oratório





O cello deita-se de lado
A cadeira senta-se no entardecer
Pássaros que cantam chuva partem
nuvens que escondem estrelas.
O cello recostado ao solo
O arco pousado no colo
O gato aos pés do cello
Um pão assa no forno
Uma taça de vinho aguarda.

Pés nus roçam a madeira.
Mãos soltas sobre a mesa
fingem segurar a taça.
O cello espera mal adormecendo
Madeira e vinho e pão
sol e nuvem e chuva distante
pássaros e assobio dos ventos.

Olhos através da tarde
para além de estradas
e sob o véu de jovens estrelas
Olhos contra a lua que nasce
O cello sonha imóvel
com longas rapsódias e suspiros.
O gato estica os músculos
enquanto o pão perfuma a madeira
e vai pela janela um suspiro.

Sussurro dentro da noite que chega
de viagem ao redor do mundo.
Noite que beija o cello
noite que acaricia o gato
noite que entra no vinho
noite cobre de mantos anis
as cabeças de todos os seres,
taças, pães, gatos, mãos e instrumentos.

Sunday, May 24, 2009

Destino





Estradas, muitas de asfalto entre árvores
outras estradas, sob estrelas, entre morros e descampados.
Vejo com pálpebras fechadas carros, e aviões, e outros veículos de metal.
Escondem-se insetos azuis e verdes sob pedras nas margens
e no fim há um cais, e um grande rio.

No tempo futuro, imagens do passado feitas em cristal
flutuam alheias à aproximação do presente e ao medo.
No passado, líquidas, as flores e fantasmas sobrevoam caminhos
tornando-se um e outro e confundindo planos de grandeza
criando novas paisagens, gerando e aniquilando pânicos, tristezas,
e as alegrias parecem meras guloseimas e brinquedos de plástico.

Mas o que será o que serei não está aqui. Há muitas florestas e cerrados
e não se pode caminhar pelas calçadas torpes das esquinas de domingo
onde se deitam os embriagados mal-vestidos e mórbidos de calor
com suas canções antigas e seus jargões das décadas de ilusões passadas.
Nem posso sentar-me nos degraus dos templos do saber e desejar as louças
e jóias mais brilhantes nas cabeças dos sacerdotes
como fazem meus pares, desejando em silêncio, posando de monges
e ardendo em terríveis e infelizes ambições de glórias preditas.
Meu destino está no mapa que o deus com cabeça de gato engoliu enquanto se afogava
no pequeno mar atrás do cemitério de crianças depois da clareira.
Minha rota de viagem é conhecida apenas pelos deuses mortos, assim não posso consultá-los
e mais ninguém nesta terra poderá me contar que pertences posso levar, que barca tomar,
ou se vou chegar, onde, quando, e o que vou encontrar lá.

Mas todos os dias leio nos olhos do gato, e no último raio do crepúsculo
uma mensagem urgente, uma voz que agoniza e um braço que brande um metal
e clama em meu coração, sussurrando, que parta já, e não olhe para os lados.

Não posso contar a ninguém. Partirei de madrugada.
E quando todos despertarem, estarei conversando com o vento.

Thursday, May 21, 2009

Fantasmas





O amor é um espectro.
Por ele move-se o mundo
e o que é belo canta.
Mas para o amor não há esperança
de materialidade, de existir como flor
que se abre e recebe o sol com seu calor.
O amor só vive na penumbra da noite
e se vai quando a luz da alvorada desce.
O amor teme a luz, respira sofregamente entre sombras.

Para o amor há apenas gargalhadas ao meio-dia
hora em que cheiros vulgares e dentes podres governam.
Para o amor há apenas humilhações e hálitos fedidos
de bocas que soletram: vai pagar? Senão, dê o fora, pé-rapado.

Para o amor não há esperança de cores douradas e sonhos vermelhos
há apenas as lentas danças de véus negros e azuis, e brancos de lua
para o amor não há esperança de vida, há apenas a morte.
Quem acredita no amor, deve viver durante as noites
e reservar sua garrafa de vinho, e suas velas.
O amor respira entre as sombras apenas.

Saturday, May 16, 2009

Hoje escreverei o melhor poema da minha vida




Fui acoradada pelo lilás chuvoso da manhã
após uma noite afogada em nenúfares e ventos
Levantei-me decidida a retirar-me do pântano, levando minhas armas
deixado as pedras fumegantes, e cinzas fedidas
onde não tive, entretanto, direito ao pão.

Escreveram num muro do subúrbio:
"Vivos, somos presos, torturados, esquecidos
Mortos, só deixamos saudade."
Escreveram na esquina às 6 da manhã.

Hoje acordei decidida a calçar botas longas
e subir o rochedo, pois meus pés pisaram no cascalho
em em espinhos finíssimos brancos.
Encontrei arqueiros à distância,
ensinaram-me a arte da defesa.
Enquanto no fim da tarde de ontem
ouvi vozes de feiticeiras no crepúsculo que,
como os felinos, adormecem e banqueteiam-se sobre a solidão.
Suas vozes nos aconselham sobre a madrugada
e contra-feitiços que evitassem os gemidos
dos atropelados e mortos-vivos da estrada.

Levo minhas armas, carrego meu fumo,
minha garrafa azul, meu livro de memórias.
Com a espada, arranco páginas do livro.
Com a garrafa, adormeço e mancho páginas.
Com o fumo, escrevo novos poemas.
Fecho-o, e percebo que já é manhã,
entre mantras que a terra sussurra aos céus.

Hoje percebi que é chegado o dia
da noite em que escreverei meu melhor poema.
Poema sem adeuses, nem vãs esperanças
sem cantigas de roda, sem auspícios de cartas
sem grandes paixões nem lágrimas.
Será um poema sem vitórias de heróis
em campos abertos diante de muradas e passadiços.
Será um poema sem lamentos pelos perdedores.
Um poema sem carinhos e desejos de orquídeas negras,
sem alfazemas, sem vinho, sem estrelas.
O melhor poema, sem maldições, sem violações.

Será um poema que não foi jamais escrito.

Friday, May 15, 2009

Hora na rodovia





E na madrugada, entre pequenos morros
que parecem não pertencer a este mundo
Chega a hora em que nem os felinos estão à espreita
pois ainda é cedo, sombras de fantasmas
aterrorizam os mais sutis instintos.
É a hora em que a rodovia parece mais longa e sem acostamentos.
E parece que ouço uns gemidos de tristeza à beira dela
e uns vultos de atropelados que foram abandonados
parecem arrastar-se e tentar agarrar as rodas do carro.

A hora em que a água está escura, e não há ventos.
É a hora em que um drink numa espelunca seria um consolo
e quem sabe uma caneta e papel, pois conversas seriam fortuna
entre túmulos e esqueletos recostados nas capelas.

Hora em que o silêncio é asfixiante
como uma serpente que se enrosca à volta do tempo
e sentimos seu aperto em nossas nucas
Hora em que morremos, hora em que lutamos corajosos
contra o pueril adormecimento.

Poetas





Poetas gostam de sal
Poetas gostam de cigarro e álcool
gostam de flores e insetos que se escondem
entre rachaduras nas paredes
Será que poetas realmente amam?

Poetas têm cores favoritas?
Seguem seriados e novelas com ansiedade infantil deixando de atender o telefone?
Poetas jogam videogame e dançam ao som de heavy metal sacudindo os cabelos?
Poetas caminham pelo shopping contando dinheiro
e sonhando em gastar seu limite de crédito em roupas
para darem a impressão de serem elegantes pessoas
alheias blasés e cheias de sex-appeal pervertido?


Poetas gostam também de chuva e bancos de praças e gatos de rua.
Poetas dormem com as nuvens nos olhos e as luzes do subúrbio de madrugada.
No entando, aposto como também choram de coração partido contra a parede
ouvindo uma música com acordes previsíveis em tons menores
que surgem na hora exata do pensamento triste em alguma rádio decadente.

Poetas gostam de velas e luzes fracas, e ver seus reflexos
nos vidros das taças de vinho e copos de whiskey sem gelo.
Poetas gostam de ventos e carros na estrada, e também
de pin-ups dirigindo conversíveis e samurais com espadas em riste.

Poetas têm cores favoritas e travesseiros favoritos
Poetas cantam para todos desde que eles os abandonem
Desde que não os amemos, os poetas abrem asas e tomam céus vazios.

Wednesday, May 13, 2009

Perguntaram-me desde quando sou outsider






Desde que eu tinha uns 5 anos e entrei no jardim... tudo o que eu fazia era diferente. Além de ser nerd e tímida, o que já me jogava numa ingrata posição entre a garotada. Cresci assim. Aos 16, descobri certas perspectivas que mudaram a minha maneira de escrever poesia. Isolei-me ainda mais. Enveredei para a matemática, mas sempre apaixonada por música diferente, gostos diferentes para tudo. Nomeu primeiro ano de graduação, eu andava pelo campus da Universidade com uma calça super larga de tecido que parecia linho e bolsos atrás... era do meu pai. Um dia, uma menina super "prafrentex" que se dizia alternativa pensou que eu tb tava querendo me exibir pra mostrar o quanto eu era alternativa e me falou: pô, amei essa sua calça... tem bolso atrás, muito diferente! Eu falei que era do meu pai e eu usava porque tava sem grana e a calça era maneira. Ela deve ter pensado que eu era lésbica ou algo assim...:P
Hoje sou vegetariana, curto Joni Mitchell, leio Thoreau e estou começando a estudar o cello... tudo me joga pro escanteio social. Mas eu gosto assim.

Monday, May 11, 2009

Canção ao Cigano








Deliram as carnívoras urtigas
E zune no corpo o sopro do vento
- Errante, dedica-me uma oração,
que ciciando na pele ausente
vibra o vermelho cobre do amor.

E essa chuva, que traz ao mundo
Um sonho de ovo afogado,
Essa chuva que nina os demônios
Atormentadores sem pudor
- Viajante, recita meu nome
uma só vez em teus estribilhos.

Sou uma corda muito esticada
Ao frio do inverno exposta.
Malditas cravelhas impiedosas.
- Belo cigano, toca-me uma romanza
Que te dou estas romãs
Na chuva recém-colhidas.
Bem aventurados os que
Se sentam na chuva, esperando.

Friday, April 17, 2009

Felinos





É madrugada e está frio - o gato na janela
e outro gato na rua entre portões, e salta entre muros
Silêncio do rio no portão, silêncio da mata adiante
Silêncio na noite fria de inverno que se esgueira
O gato ausculta a madrugada na janela.
O gato caminha entre ervas na rua e entre dejetos
caminha digno e silencioso.
Os felinos tramam em silêncio a Queda.

Na noite de sexta-feira, raiar de sábado
ainda incerto, em que o sol ainda nem se lembra
de que despontará e suas luzes adormecerão os animais
caçadores, os noturnos que enxergam infravermelhos.
Os felinos erguem espadas esguias de dentro dos olhos claros
na madrugada acendem chamas fluorescentes.

O rio canta, a margem espanta insetos
As torrentes espargem sinfonias brutais
e pequenos seres viventes morrem antes da alvorada.
Os felinos lutam batalhas em silêncio entre si na noite
Os felinos saltam por entre muradas e grades
mudos, suaves, finos, cheios de si.
Não sentem fome nem sede, sentem somente
a noite que se mostra infinita sem estrelas.

Saturday, April 11, 2009

O nome





Só sei dizer em poesia
porque sou covarde - só sei dizer em verso.
Mas virou a madrugada do dia
em que te reconheci, mar que quero ver todo dia
Sol que desejo toda noite, estrela que está velada
Falei com o escuro, e ele me disse teu nome

Disse o que disse a cabala e o que cantou o tarot
no meio da sujeira dos dias, nos arbustos das noites.
Disse encarnado em deus bêbado, em pitonisa por entre vapores
Disse-me que adormecesse, e aguardasse, e respirasse
E disse-me teu nome, disse por entre livros mofados.

Meu ventre contém névoas e luas que não conheço.
Somente agora vejo e ouço o que a sacerdotisa escondida,
por trás de todas as resoluções e chuvas, tem sussurrado.
Porque deuses sussurram sempre.

Desta vez ouvi o escuro e as estrelas de Aquário
soprarem suavemente e as chamas nas montanhas
e as aranhas urdirem em teias, e os melros anunciarem
O que o escuro disse, no frio e pleno entre pedras e o mar do Arpoador
Disse teu nome, o nome que quero para toda a vida.

Thursday, April 09, 2009

Toada para a noite



cena de "O Rosto", de Ingmar Bergman




Somente eu ouço o teu coração
à distância entre o palco e a platéia
Somente eu estou dentro dos teus olhos fechados
vendo as notas e as lágrimas... sou tua irmã
Estamos viajando em mares que se ligam por rios
Estamos juntos na chuva que encharca a estrada
de lama negra, que enevoa o horizonte
que entristece as manhãs difíceis de despertar.

Estamos de mãos dadas no escuro, na poeira
e cada um numa gruta, num passadiço sobre riachos
profundos, riachos perdidos de estrelas vazias
Estamos de mãos dadas nas noites envelhecidas.

Eu te amo. E no silêncio, uma oração te componho
para que leves na estrada de terra apinhada
de faces rudes, de carantonhas grotescas,
de vilões bêbados armados, de mulheres lascivas
por entre a estupidez e a perversidade
vais caminhar ileso, a salvo, no ninho da minha canção.

Canta, que eu te seguirei.

Friday, March 27, 2009

Canção dos Escorpiões






O corpo no tempo, o corpo no espaço
pede mais, e pede flores e música.
No vento, no alento, seus cabelos pretos de madrugada
nas minhas mãos febris. Ferrão sim,
mas preciso sempre dele pro meu canto.
Se você mora na música, eu moro na sua letra.

Eu sou sua, você é meu. Não pode ver?

Orvalho e veneno se espalham no verde escuro
por trás do azul laminado da Lagoa.
Meu coração pulando desde o entardecer.
Sua respiração sobre a minha, campo uníssono.

Eu sou sua, você é meu. Não pode ver?

Na corda de metal eu caminho em cada noite
desde a primeira ferroada. Veneno que não se foi
com o tempo, com os eventos, com rostos e asas no ar.

Mas sou bravia, como mares calmos à noite
que levantam tempestades nos amanheceres.
Estou armada, estou a postos.

Eu sou sua, você é meu. Quem não pode ver?

Tuesday, March 17, 2009

Amanhã



"Chronos devorando um de seus filhos", Goya

Amanhã é dia de matadouro
Amanhã é dia de sacrifício
Criança que vai ao encontro
do demônio que lhe sopra
nos ouvidos as cantigas macabras
de todas as negras noites.
Amanhã vai ao cemitério
Amanhã vai à estrada que dá muito longe.
Amanhã, amanhã, amanhã
amanhã tenho medo
amanhã vem essa luz de felicidade
à qual meus olhos negam boas-vindas.
Por que será? Têm sexto sentido
Têm visão de cego
no matadouro vêem no escuro.

Wednesday, March 11, 2009

Jazz... afinal



Brad Mehldau Trio.

Sem mais, na noite, na dispersão, no calor das estrelas, no desvario... o gato dorme na janela, e sonhamos sob as folhas das trepadeiras. Dias mais claros, noites mais escuras.

Saturday, February 28, 2009

IX






Idéias na alvorada.
Tocar um instrumento
Ouvir os passarinhos.

VIII






Um longo caminho
para a simplicidade -
Ninho no galho da amoreira.

VII




A lamparina no escuro
Noite fria sem vento
Folha seca toca o solo.

Friday, February 27, 2009

VI




O gato se deita
na beirada da janela.
O rio entra na noite.

Tuesday, February 24, 2009

V




O diapasão de pé
sobre a madeira lisa
O vento é alto.

Monday, February 23, 2009

IV

foto: John Tsui


A noite começa
alívio no verão
e as cigarras meditam.

III




Uma flauta no escuro
Não vejo ninguém
Eis o som do mar.

Sunday, February 22, 2009

II




Sozinha na multidão
A folha seca
na floresta.

Saturday, February 21, 2009

I




O artesão não trabalha pensando no repouso
e nem repousa com o trabalho nos sonhos.
Acorde, capitão.

Sequência Zen



Está assim inaugurada, em tempos de Carnaval nas ruas, a temporada Zen no Jazz e Suco de Limão.



"Tudo o que restou
dos sonhos dos guerreiros —
Capim de verão"


Bashô

Friday, February 13, 2009

O que não tem nome




Rua abaixo há uma estrela.
Rua abaixo há um gato na esquina.
No céu nuvens cor de cinza sobre o azul escuro.
Mais à frente o mar medonho e sereno. E anões fazem silêncio.
Depois da janela há pedras e fantasmas que descem pálpebras
e os pássaros fazem malabarismos de felicidade.
E são a prova de que o inominável está presente, nu.
O sol aquece minha pele e meu corpo já disse sim.
Meus olhos lêem cantos no verde das árvores.
Ainda que eu fosse a balconista daquela padaria
e só passasse as horas longas a servir pães quentes
saberia que o inominável está no entorno.
Em cima dos muros, entre os carros, no ar com cheiro de grama.

Seita mística é nada mais que ter sentidos, olhos grandes,
e principalmente ouvidos. Ouvidos na nuca.
Que a percepção maior da alegria e do silêncio
por trás das coisas sussurra e murmura na nuca,
debaixo dos pés, no couro cabeludo.

O gato saltou para a janela acima do precipício.
O piano começou uma peça em tom menor.
O rio desce a rua para o mar, para a baía.

Durmo já. E meu sorriso se abre no sonho
como as asas de uma borboleta quando nasce o sol,
e sobre o som do rio ali adiante com nenúfares e grilos mortos
na manhã criança, que nunca se esquece de nada.

Sunday, February 08, 2009

Um dia vou sumir dessas bandas



"Ode on Solitude", de Alexander Pope

Perdi minha paciência.
Esses racionalistas estúpidos de olhos enormes,
esses mesquinhos de grandes bocas, esses bobocas
essas dondocas, os cheios de si com suas panças
os que invejam outros e jogam pedras.

Por que diabos tenho que dividir o mundo com essas gentes?
Mas me digam... dou uma garrafa de chateaux-margaux a quem me convencer.
Se eu tivesse uma.

Achar o centro e ouvir a música no escuro
Isso eu quero ver quem me ensinará a fazer.
Está para nascer quem tenha coragem
de encarar essas carantonhas e ser puro,
e ao mesmo tempo sorria e continue cantando.

Precisaria ser novamente um pássaro
com a consciência plena de um buda,
ser uma árvore disponível e plena
mas com a clareza de perceção de um Mahavira.

Por isso vou pegar meus instrumentos musicais,
meu gatinho, vou gastar o cartão de crédito com bebidas
e ficar com o nome sujo na praça, embriagada.
Vou doar o resto dessas porcarias
e ir procurá-lo nas florestas,
nos vales rochosos, nas praias, nas ilhas
Vou sumir daqui em busca dele
e ninguém nunca mais vai saber de mim.

Tuesday, February 03, 2009

Corvo




inspirado após audição de "Black Crow", de Joni Mitchell

Desce do céu em rasante
Desce a rua radiante
Sobe num arranco de alegria
ao céu, a rua, em solidão brilhante.

Anda entre cogumelos
com a cabeça abaixada
para evitar os olhares - ah!
estes olhares tétricos amarelos
dos transeuntes, das donas de casa
que exigem seus direitos no mercado.
Sobe e desce presentindo os corpos
suas presenças vazias ou coloridas
- tanto faz. O olho do céu lhe guia.

Desenhando música e perpetrando ventanias
mesmo suaves, é de rapina, mas rebelde.
Recusa seu destino de bruto, de caçador
recusa-se a participar das touradas e dos jogos
esses sanguinolentos jogos de cartas - vejam como suam
e se incham seus papos de orgulho na disputa.
- O céu nublado lhe basta, rapina desgarrada.

Serpenteia, desce, empoleira-se nas árvores
nos jardins, nas praias - e vai-se
em busca daquilo outro, deste e daquela.
De sonhos verdes e pesadelos mascarados.

Ave calma, faz silêncio em sua gritaria.
Ave solitária, prevê destinos nas nuvens.
Ave à qual Deus, velho safado, negou o canto
mas ela se vinga tocando nos varais e nas cercas
a música do anseio no meio da noite,
palpitando de morte na vertigem plana do dia.

Thursday, January 29, 2009

Como ser um grande líder




Ocorre que temos de ser muito otimistas.
Sempre dizendo aos outros como vencer
e ser líderes e grandes chefes.
Ora, se todos forem chefes,
não sobrará quem se comande.
E assim começa a interminável demanda.

Deviam esses desocupados mandantes
irem aos cais verem crepúsculos
e andar descalços e esquecerem os outros.
Tomem um drinque - sei fazer um ótimo martini.

Eles se debatem em mal gosto,
em muitas horas de café, em muitos ofícios.
Também sei preparar uma divina caipivodka
e uma cuba libre de se tirar o chapéu.

Desocupados.