Sunday, January 06, 2008

Lamento

mundo dos machos da espécie
mundo de jogos e argumentos
mundo de juízes e homens sérios
mundo cão

mundo onde pisam nas putas depois do abuso
mundo de papéis vulgares e frases feitas
mundo dos machos
mundo político, mundo dos gráficos
mundo das tabelas, mundo do mercado

mundo cheio de olheiras
mundo que não dormiu
mundo que não amou
mundo que bebeu café demais
mundo que se entupiu de leis e cárceres

e vozes imponentes violando a verdade
verdade quase nua com fino véu
verdade de pudor de menina
verdade com voz sussurrada no vento
verdade com útero e sem baionetas

mundo de misérias e berros
mundo de mijos contra os muros pichados
mundo de desejos reprimidos
em favor da maior potência
e do inchaço da pança da intelligentsia

jogos de videogames de meninos
jogos de cartas, contratos sociais
mundo de fumo e dentes amarelos
mundo funcional dos machos reprimidos
mundo cão, mundo-pistola, mundo fálico

Wednesday, January 02, 2008

Afinal

Meus poemas são todos iguais
Tem os grilos, as flores e os rios
o vento e a floresta, a montanha e tudo mais
Já cansei deles, não dos seres que habitam lá
mas das odes que escrevo, das quais eles não precisam.
Também não vou ser útil e começar a escrever
sobre os sérios infortúnios do mundo
os atentados, os assassínios, as fomes e os canalhas
Porque eu não sei escrevê-los, só odiá-los.
No final não sei mais o que escrever.
Meu cansaço me dá dá uma dor na cervical.
Não obstante, ouço um som na noite, um som de breu.

Monday, December 31, 2007

Jardim secreto

É ano novo, ano que vem
vem com o vento ventando estrelas
ventando dissabores, cores, solidões
Ano que vem, dia que vai
o mar vai cantando seu samba-canção
o sol vai tecendo flores nos corpos
o chão vai fermentando o verão.

Ano novo, borbulham na taça
meus poemas pra te dar
minhas flores de Iemanjá.

Caminhando mundo adentro, dezembro!

Tuesday, December 25, 2007

Poema de W.H. Auden

The More Loving One
by W. H. Auden

Looking up at the stars, I know quite well

That, for all they care, I can go to hell,

But on earth indifference is the least

We have to dread from man or beast.



How should we like it were stars to burn

With a passion for us we could not return?

If equal affection cannot be,

Let the more loving one be me.



Admirer as I think I am

Of stars that do not give a damn,

I cannot, now I see them, say

I missed one terribly all day.



Were all stars to disappear or die,

I should learn to look at an empty sky

And feel its total dark sublime,

Though this might take me a little time.

Friday, December 14, 2007

La casada infiel, de Garcia Lorca - magnânimo

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
-

Fue la noche de Santiago
y casi por compromiso.
Se apagaron los faroles
y se encendieron los grillos.
-

En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
-

El almidón de su enagua
me sonaba en el oído,
como una pieza de seda
rasgada por diez cuchillos.
-

Sin luz de plata en sus copas
los árboles han crecido,
y un horizonte de perros
ladra muy lejos del río.
-

Pasadas las zarzamoras,
los juncos y los espinos,
bajo su mata de pelo
hice un hoyo sobre el limo.
-

Yo me quite la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
-

Ni nardos ni caracolas
tienen el cutis tan fino,
ni los cristales con luna
relumbran con ese brillo.
-

Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre,
la mitad llenos de frío.
-

Aquella noche corrí
el mejor de los caminos,
montando en potra de nácar
sin bridas y sin estribos.
-

No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
-

Sucia de besos y arena,
yo me la llevé del río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.
-

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
Le regalé un costurero
grande, de raso pajizo,
-

y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

Monday, November 19, 2007

O poema é para os sem vez

Pudor

O canto da poesia não foi designado
aos belos deuses das esferas antiquadas
Nem aos belos corpos anacrônicos
dos ricos entediados, nem aos poderosos
armados, amargos, brutais, portentosos
que caminham sobre o mundo com
suas naves de mil janelas, grandes aves
Brutas aves gordas prontas para o abate.

O canto geral da poesia é para as joaninhas e os gatos
É para os sem voz, os condenados, os moribundos
A poesia é feita para os marginais sem mães,
as putas com seus filhos famintos, seus amores partidos,
é para os cegos, os esquizofrênicos
O canto geral é para os trabalhadores
ignorantes das marinas, das estivas.

O canto foi feito não para enaltecer
os egos de vaidosos spallas ou
arrogantes diretores de orquestra
Ou de políticos risonhos com suas mulheres
de vestidos longos, soirées cheirando a vinho
Nem para adornar o ventre
de princesas de cílios movediços

O canto foi feito para os pés rachados
dos sem-terra que aram e bradam e caminham
por essas sangrentas terras de meu Deus.
O canto foi feito para os pequenos artistas
mestres com seus jardins interiores
sem um centavo no bolso e amores perdidos
O canto foi feito para quem está nu.

O poema foi feito para os enjeitados,
as crianças de cinco anos
os suicidas que morrem de amor
Os rebeldes que já não têm nada a perder.
O canto não foi feito para vocês.

Sunday, November 18, 2007

Sshhhh...

"Não se pode machucar o silêncio, que é sagrado."
João Gilberto

Saturday, November 17, 2007

Hardy, o dândi da Matemática

The mathematician's patterns, like the painter's or the poet's must be beautiful; the ideas, like the colors or the words must fit together in a harmonious way. Beauty is the first test: there is no permanent place in this world for ugly mathematics.
A Mathematician's Apology, London, Cambridge University Press, 1941.

A Pureza de Ideais de Hilbert

Mathematics knows no races or geographic boundaries; for mathematics, the cultural world is one country.
In H. Eves Mathematical Circles Squared, Boston: Prindle, Weber and Schmidt, 1972.

O Humor de Leonard Euler

[upon losing the use of his right eye]
Now I will have less distraction.
In H. Eves In Mathematical Circles, Boston: Prindle, Weber and Schmidt, 1969.

Monday, November 12, 2007

Les Amants d'Un Jour, chanson de Piaf

Moi j'essuie les verres
Au fond du café
J'ai bien trop à faire
Pour pouvoir rêver
Mais dans ce décor
Banal à pleurer
Il me semble encore
Les voir arriver...

Ils sont arrivés
Se tenant par la main
L'air émerveillé
De deux chérubins
Portant le soleil
Ils ont demandé
D'une voix tranquille
Un toit pour s'aimer
Au coeur de la ville
Et je me rappelle
Qu'ils ont regardé
D'un air attendri
La chambre d'hôtel
Au papier jauni
Et quand j'ai fermé
La porte sur eux
Y'avait tant de soleil
Au fond de leurs yeux
Que ça m'a fait mal,
Que ça m'a fait mal...

Moi, j'essuie les verres
Au fond du café
J'ai bien trop à faire
Pour pouvoir rêver
Mais dans ce décor
Banal à pleurer
C'est corps contre corps
Qu'on les a trouvés...

On les a trouvés
Se tenant par la main
Les yeux fermés
Vers d'autres matins
Remplis de soleil
On les a couchés
Unis et tranquilles
Dans un lit creusé
Au coeur de la ville
Et je me rappelle
Avoir refermé
Dans le petit jour
La chambre d'hôtel
Des amants d'un jour
Mais ils m'ont planté
Tout au fond du cour
Un goût de leur soleil
Et tant de couleurs
Que ça m'a fait mal,
Que ça m'a fait mal...

Moi j'essuie les verres
Au fond du café
J'ai bien trop à faire
Pour pouvoir rêver
Mais dans ce décor
Banal à pleurer
Y'a toujours dehors...
... La chambre à louer...

Sunday, November 11, 2007

Khalil Gibran

“When you work you are a flute through whose heart the whispering of the hours turns to music. Which of you would be a reed, dumb and silent, when all else sings together in unison?”

Thursday, November 01, 2007

Laranjeiras na Chuva

As Luzes de Laranjeiras Quando Chove


Deus lacrimeja suas pratas entorpecidas.

Sinto o perfume da rua das Laranjeiras
e as árvores que murmurejam cores e um verde-claro
que é pizzicato que é de semifusas infantis
crianças perfumadas de pérolas que brincam na fresca noite
de chuva e lua na rua que vai dar no Cosme Velho.

Crianças com asas brilhantes
com seus brancos peitos arfantes
e seus olhos errantes
negros do escuro e preenchidos de estrelas
Crianças pálidas, azuis, douradas, prata
que flutuam fadas trites na rua de carros anis

Crianças atrás dos véus que são as folhas das paineiras
Sob a condescendência do Cristo e minhas lágrimas
de mulher apaixonada e criança que a infância tardou

chuva de Laranjeiras
Ouro entre as folhas escuras
Prata em intervalos diminutos e tons maiores
entre as copas principescas das árvores altas.

Quando chove em Laranjeiras
Sinos pequeninos que giram no ar são ouvidos
com o ouvido dos sonhos
com o silenciar dos desejos
com o desprendimento da alma
dado pela leve tristeza sábia
conferida pelos anos de delicadeza
e uma idade avançada.

Quando chove em Laranjeiras
ouço o repicar, o tilintar, o fecundar das luzes verdes
que em árias soltas e frias soltam suas vozinhas.
Veja seus cabelos de Órion, e Betelgeuse casta
no solitário suave céu de Laranjeiras
Cosme Velho, onde minhas estrelas adormecem frias e amorosas.

Feliz Dia de Finados