Friday, December 02, 2011
O retorno
Na chuva, todo pedestre é desamparado.
Na noite, todos os felinos são abandonados.
Mas eis que se postam altivos sobre os muros.
Quem será o homem que irei abraçar nas trevas
não importa o que haja no mundo?
Que mão será esta que segurarei no gelo?
Isto come meu coração com a rapidez da lacraia no chão
e com a voracidade do touro faminto e abusado na arena cruel.
Um desastre ao som de farfalhar de asas de morcegos.
Uma lua triste e mórbida como uma velha puta fumante.
Em noites como esta, aqueles que não têm amor cometem crimes hediondos.
Em noites como esta, os que amam e não são amados deitam-se nos rios.
Hoje as crianças sensíveis choram sob lençóis e temem a ventania.
Hoje bêbados escrevem cartas e dormem abraçados às suas garrafas de gim.
Hoje mães angustiadas fazem promessas e ninam bonecos nos quartos de seus filhos desaparecidos.
A calçada está molhada e vejo olhos negros nas copas das árvores.
O fim comparece nas cartas, nos búzios, nas linhas magras de nossas mãos assustadas.
Thursday, December 01, 2011
Reencontro com Felipe
Vai-me devorando a serpente
Vai varrendo a tempestade de gerações
o dragão silencioso do destino.
Como se uma barca apressada
carregasse o vento aterrador da beleza.
E então naufragamos.
Não temo a morte.
Faço do luxo meu berçário antigo
e da memória um estábulo onde corre a ventania.
Uma música nasce na alta noite
uma luz nasce no fundo do brejo
fogo-fátuo e estrela, e seu pai é o inevitável oceano.
Beijarei tua boca para sempre.
E sonharei no leito do teu corpo durante a noite
da existência triste e dura, do abandono ao qual Deus nos condenou.
Vai varrendo a tempestade de gerações
o dragão silencioso do destino.
Como se uma barca apressada
carregasse o vento aterrador da beleza.
E então naufragamos.
Não temo a morte.
Faço do luxo meu berçário antigo
e da memória um estábulo onde corre a ventania.
Uma música nasce na alta noite
uma luz nasce no fundo do brejo
fogo-fátuo e estrela, e seu pai é o inevitável oceano.
Beijarei tua boca para sempre.
E sonharei no leito do teu corpo durante a noite
da existência triste e dura, do abandono ao qual Deus nos condenou.
Tuesday, November 29, 2011
Cançoneta vampiresca
Devora-me de dentro para fora
a Esfinge do Eterno Retorno.
Pica-me a pele descamada de sol
o lastro do escorpião.
Agora sei que não há mais caminhos no escuro
acabou-se o atalho, findaram as bifurcações.
O amor é a morte antecipada e vestida de cetim e champanha.
Não há máscara ou perfume, mas o abismo e o céu diante de si.
O amor, longe do que pensam, é racional.
é frio, é ardente, inócuo, vermelho e transparente.
É a chama viva despedaçando a carne do pecador.
É eterno, é vampiresco: não morrerá
mesmo com punhal, talvez uma estaca no coração.
Devora-me eternamente o fogo infernal de cem eras.
Devora-me o luxo de morrer de amores.
Sunday, November 20, 2011
Memória reencontrada
Antes da palavra a respiração represada
Antes do encontro o coração queimando o corpo em
refluxos de fogo desconhecidos e imprevistos
O corpo solto e retesado
é dança
A alma alheada e espantada
é teatro
O toque ardente e sem intenção
é amor
Canto entre eras, após cataclismas
Entre memórias de batalhas em campos áridos
entre poemas em cemitérios, escritos na poeira
com os dedos frios sobre as lápides.
Jogos de azar, jogos de reis e políticos
isto é o amor, e nada mais há que ser contado
em canções doces, em tons maiores, em fontes de água e mármore.
O amor é uma rede trançada por encantamentos
de bruxas vestidas de vento, nuas e enlouquecidas de luto.
Sunday, July 31, 2011
Canção I
No teu coração e no teu verso, um desejo.
Nos teus passos de guerreiro, uma memória triste.
Na tua lâmina, uma desesperança e uma canção.
O amanhecer coleta notas extras e flores desperdiçadas.
A noite recebe corpos mutilados pela Deusa da Vingança.
Um pequeno piano, teclas de metal enferrujado
e cantos de anjos infantes mortos e gatos desaparecidos,
pedras que amantes deixaram na praia durante a madrugada.
Sorte que desenho, caminho escrito nas cartas
de videntes de olhos deformados, música de pedintes
que pagamos com moedas de um real em potes de sorvetes,
o amor é um luxo como uma cantora de voz negra e
olhos claros, uma volúpia como a visão de Diana nua no rio.
Monday, July 04, 2011
Melancholia
O êxtase nos teus olhos verdes
encontraram o oceano e do píer
meu corpo se lançou às águas geladas do desejo
insatisfeito, da saudade, no inverno sem música.
Nos teus cabelos louros meus dedos desenharam
uma canção de rua, uma noite numa praia, um drink exótico,
e o vazio do terceiro dia em que pisaste nas minhas partituras.
Como ar necessito de noite embalada em ragtimes cubanos,
de paixão travestida em mantos negros de cocotas macabras,
do êxtase de um beijo na escuridão de uma harmonia entre contralto e piano.
Mas o mar é implacável e o inverno juiz demoníaco na terra negra da morte.
A luz dança na manhã em que esperei na rua por uma resposta
e a chuva hesitou em cair, tentando responder às suas próprias perguntas.
De repente a Natureza tomou consciência de si e revoltou-se
na saudade, na ausência, no espanto, na excessiva claridade.
O amor tornou-se uma fantasia de crianças, matrioshkas coloridas.
Levamos como suvenires na mala e colocamos na janela,
mas o silêncio continua após o afogamento, após o prazer extremo,
após a fuga atonal e a noite fria entre garrafas de vodka na calçada.
Não se retorna à ingenuidade, como uma virgem roubada
na floresta por um deus egoísta.
Mas a música permanece companheira, de bar, de manhãs, de madrugadas tristes.
de tardes sonolentas, a perda do argumento, o estupor da ignorância,
antes do parto e após o último suspiro, os olhos cegos, o corpo no mar.
Saturday, June 18, 2011
Vocês, os larápios

Cuspiram em minha porta
e escarraram nas minhas pegadas.
Depois de sorrirem como policiais na esquina,
entraram em meus aposentos pela janela
e macularam meus lençóis e toalhas de mesa.
Surrupiaram meus livros e copiaram meus poemas,
roubaram minha capa de chuva.
Falaram mal de minha ascendência nas tabernas imundas
e caçoaram de minhas mãos finas e botas de salto.
Chacoalharam a jaula com meu gato dentro.
Puseram-no exposto ao frio à beira do rio.
Elevaram a voz para que minha voz não fosse ouvida,
tal como João Batista proferindo verdades sujas no poço escuro.
Ofenderam meus ancestrais e duvidaram de minha nobreza,
viraram-me as costas e, quando virei a minha, vieram à minha caça.
Vocês não são benvindos mais,
nunca nem em qualquer tempo futuro ou passado.
Meu desprezo é retroativo,
minha armadura é justa, cega e imbatível.
Nada há que possam fazer. Nenhum perdão aos ímpios,
vocês não são mais benvindos.
Sunday, June 12, 2011
Da natureza e das constituições

Questionei-me sobre a injustiça e caos em tudo o que há
e uma música, e seu silencioso instrumentista
ensinaram-me uma lição sobre a justiça que permeia
toda a existência, e sua calma sabedoria.
A rocha tem a constituição cega dos minerais
e o brilho contido em cada minúscula partícula de cristal.
O minério é a reunião bruta das essências brilhantes,
e o mistério de sua força é a delicadeza de bilhões de espíritos.
As folhas das árvores vivem na mesma natureza
das asas de borboleta e caudas de libélula, em suas vidas magras e coloridas
de puro espírito e movimento, formando letras e equações no ar.
Por isso não nos encontramos, nos desejamos, lutamos, matamos.
As naturezas devem ser respeitadas, levemente separadas
na grande república da matéria e das vontades,
sob o cetro da dinastia do tempo.
Para alcançar o outro, há espaço e silêncio.
Para estender as mãos, há uma estrada vazia e chuva.
Para haver calor e sorriso de contentamento, a natureza vive a fome.
Em cada constituição há uma lição e uma epopéia.
Nas pedras e ventanias em cada pêlo de animal caído,
em gotas de sangue dos que morrem nas ruas e clareiras,
nas lágrimas das mães que choram por seus filhos.
Há a natureza das pedras, há a natureza do mar, há a natureza do fogo,
a natureza das frutas, dos corpos opulentos de reis e almas esticadas de poetas,
a natureza do pão, dos mestres e dos pedintes, há a fome e a exuberância,
existe a natureza da dor constante e sua interrupção,
da morte em vida e da esperança na morte, no alívio do além.
Há que silenciar e entender para viver neste mundo, entre sereias e abutres.
Friday, April 08, 2011
Do perigo e seus humores

Diziam os antigos românticos
que os poetas eram nascidos das tempestades.
Sei por que flerto com o perigo.
Sei como prefiro o oceano noturno às flores do campo.
Não devo me lamentar se algum desses homens com quem ando
se mostrarem piratas desumanos ou anjos caídos carregando foices infernais.
Andei com Jesse James e seu bando, jantei com Lampião e seus devotos.
Flerto com as estrelas refletidas no esgoto e com a música do violinista mendicante.
Liberdade, amada mão, mas insidiosa bruxa que cozinha vapores intoxicantes
Sem enganos, sem política e sem moral, apenas uma canção e uma palheta.
Flerto com o erro, com o abismo, com o silêncio dos becos,
e assisto a danças macabras enquanto o amor se contorce sob a lua.
Sunday, April 03, 2011
Cântico MCXXV

Num espaço de água e ar
está a alma enclausurada.
Quando olho para a rua suja
vejo o tempo que se deitou nela
e esqueceu-se da morte.
Agora é tarde para recuperar-se
da velhice do próprio tempo.
Mas nesta mesma rua escura e triste
tenho a visita breve de um desconhecido.
O coração revolve-se dentro da poeira dos dias,
e lava-se da lama das noites em pântanos de pesadelo.
Eu que nunca soube dizer sim.
Eu, que nunca soube desfazer-me do medo e
do medo da tristeza, mesmo entre lírios e lilases.
Agora corro para estar na hora exata em que chegas
e olhar-te de soslaio a olhar-me como quem também teme.
Nem respiro, para que o momento não se vá.
Pois é sabido que o tempo é o fôlego
que inspiramos e que deixamos escapar.
O tempo futuro é o ar da tua boca que beijarei,
e o passado é o estertor do gozo que teremos
numa noite sem lua numa clareira abandonada pelo próprio Deus.
Monday, March 07, 2011
Cântico MCXXIII

Calo para que não me roubem pequenezas.
Bruxas e larápios sodomizados
perturbaram-me a vista
e surrupiaram pequenas jóias.
Criam eles terem
tomado grandes fortunas
e desejavam matar-me à míngua.
Mas são fracos e tolos,
pois sou protegida por deuses cruéis.
Pequenas pérolas distribuo
às aves enjauladas nos mercados,
e troco por artigos de confeitaria
durante o chá da tarde.
Minhas grandes fortunas,
os sonhos envidraçados e esculpidos
por longos anos de sofrimento nas masmorras
no tempo e pelas intempéries,
escondo em elegantes caixas de mármore
guardadas no profundo Oceano
e quando algum pequeno bandido a ataca
é repelido por um enorme tsunami e ventos
que recitam versos bíblicos cheios de ira pentateuca.
Nada abrirá os cofres à sombra dos olímpicos marinhos.
Sou protegida por deuses cruéis.
Wednesday, January 12, 2011
Persas

Poeira e mesmo assim armadura
poema e ainda assim lança e espada
Quando canto não carrego penas e tintas
Não verão meus versos os homens na feira
mas sentirão os rastros do vento de minha cavalaria.
E quando despertarem, terão suas camas inundadas
e suas crianças desaparecidas na névoa,
suas pitonisas fumando nas alcovas
com os olhos prostrados nos cantos de aranhas e livros.
Quando despertarem seus governos serão interinos
e suas moedas desfeitas em cinzas.
Seu fogo será feito de vaga-lumes
e contarão apenas com a lua, mãe de todos os sonâmbulos
e irmã dos anoréxicos e lívidos de medo.
Meus braços são de anêmonas
minhas pernas de areia
meus cabelos de lâminas de neve
e meus olhos de palavras do livro sagrado.
Saturday, December 04, 2010
Cântico MCXXII

Como na era do deus-sol
lembranças de um piano descendente de tempos
em que desertos circundavam estas terras.
Palavras vestiam mantos de ministros
e coroas de princesas aladas na escuridão do tempo
o tempo da juventude sem futuro e sem passado. Pois
o jovem não tem planos, apenas moedas estrangeiras
para adoração de formas esverdeadas nas cédulas caducas
mas devera modernas, que escondem em suas
calças largas roubadas de seus pais de bigodes.
A mente nunca esteve tão clara e decidiu tão grandes pensamentos
quanto quando tínhamos 16 anos. E as folhas que esconderas nos livros
ainda as guardo, e não lamento nada, nenhum poema,
nenhuma lágrima, nenhuma noite sóbria de medos e ternuras entre selos.
Assim fecho o livro de cantigas e berceuses, entre cravos e amarílis
sem ainda saber o fim do livro e sem protagonistas.
Mas entre acordes menores e blue notes
nas estrelas mal nascidas através da janela
numa enorme caixa de papelão, canto a luz
e a cor que podemos ver, sempre e sempre, e que não envelhecerá.
Thursday, December 02, 2010
Cântico MCXXI

Que chova toda a noite
e que jasmins brotem nas copas de manhã.
Amanhece como uma nuvem entre jazidas de prata.
A serpente em meu corpo revolta-se entre pesadelos
e canta com voz de anjo na cavalgada branca.
Noites de vigília triste, guerras previstas
pela anciã que lê em cartas de tarô, e serpentes choram.
Que chova e que o sol não apareça,
majestade tirânica, sépia desejaria.
Em contrário tenho o manto deslumbrante
dos saques ao povo do leste.
Que chova.
Amanhã que seja um dia noturno
de sonhos de um outro dia,
de delírios semifebris de outras eras
à espera de um messias de calças curtas
negrinho com uma guitarra às costas.
Que chova.
Friday, November 05, 2010
Cântico MCXX

Seguem meus passos na lama da chuva,
mas não me vêem na neblina.
Repetem o eco de minha voz no vale noturno
mas não encontram o tom menor da canção.
Bebem minhas lágrimas e desejam minha pele,
mas não convencem com suas políticas e palavras alheias.
Rastejam atrás de meus doze véus escuros
mas não encontram em suas sombras a luz.
Os inimigos são muitos,
a poeira é densa, a noite é longa e a água é pouca.
Mas seguem meus passos ainda,
no areal, na neve e nos campos, mas não me vêem.
Thursday, October 28, 2010
Cântico MCXIX
na foto: Johnny CashTentaram os homens do bar
tomar minha garrafa de gim
e meus últimos trocados.
Mas não temi seus punhos
nem seus olhos escuros.
Cuspiram em meu nome
e arranharam minha guitarra.
Tentaram quebrar suas cordas,
e jogaram água quente sobre ela.
Caminhei entre a horda de assassinos,
e a porta dos juízes sem misericórdia.
Sem sapatos e sem agasalho
andei na noite sem lua e sem uma espada.
Fizeram vudus e entoaram canções ruins
e sacrificando doces ovelhas,
ensanguentaram meu nome.
Espalharam asas de borboletas
negras em meu telhado de palha.
Mas é que nasci da água azul
sob uma lua branca como a Morte.
Sobre pedras e entre lótus,
continuei a cantar com minha guitarra
e a caminhar sóbria e descalça.
Sobre o limo e galhos verdes,
entre vento perfumado de verão
e chuva de prata, meus pés erguem-se
no ritmo da eterna canção,
como anjo caído, sigo livre de feitiços.
Com a consciência da cor dos riachos
que dormem iluminados sob as grutas.
Friday, October 15, 2010
Jardim de rosas

Uma noite no deserto das gardênias
Um dia numa legião de jasmins.
Uma hora no ninho de orquídeas,
um minuto na casa das magnólias.
Um ano na estrada das hortênsias,
um segundo na rua das rosas vermelhas.
Uma noite entre copos-de-leite e estrelas
um dia nas montanhas de cerejeiras.
Estive caminhando entre espinhos e cercas
mas meus pés se cortaram demais, e tarde, encontrei as papoulas suaves.
Não mais perderei um dia na lama e fumaça,
não gastarei mais um segundo entre pulgas e labirintos.
Cada dia, um dia, uma vida, uma encarnação.
Entre lírios, violetas e estrelítzias.
O corpo na poeira, na água, na nuvem,
o corpo no amor das lilases.
Sunday, October 10, 2010
Os abutres

Como Candida Erendira corri com o vento
e os abutres continuaram sentados à mesa de costas para mim.
Acendi uma vela no meio da clareira da floresta
e orei aos meus pais, que são deuses, me livrassem do Mal.
As aves terríveis se odiavam e partilhavam o mesmo pão e a taça de vinho.
O rei dos abutres erguia o pescoço retorcido com uma altivez autista.
E contava os contos e miçangas de suas caças às carcaças
e cantava com sua voz profunda e rouca as monstruosidades de sua vida rapina.
Corri contra água e vento deixando entre eles apenas minhas pegadas de criança.
Anjo pequeno e medroso que teme as sombras da noite
e por isso pediu a Deus que voasse somente durante os dias.
Anjo do tamanho de uma flor de jasmim, que não olha nos olhos das gentes.
E voei, com asas de casca de ovo de martim-pescador, e vestido de seda que os bichos fizeram.
Voei e as águas não me arrastaram, nem me levarão. Pois os deuses me escolheram
e me cobrem com escudos e maças de guerra, e afastam os abutres,
comedores da podridão, do lixo espalhado pelo chão, os covardes devoradores de vermes.
Cantei no escuro e desenhei encantos nas paredes da caverna que dá para o mar.
Fugi e escondi as chaves, e somente meus herdeiros distantes as encontrarão.
Os abutres secarão no deserto de suas memórias escuras
e morrerão de inanição no jardim de seus odiosos pensamentos
enquanto me erguerei à sombra dos deuses que me estendem seus pomos secretos.
Monday, September 06, 2010
Sacra

Há anos não vejo o mundo exterior.
Fora deste salão contam histórias e lavam as casas.
Não atrevo-me a expôr minha cabeça à foice do sol.
As raposas andam à caça de aves pequenas nos ninhos.
Falcões foram tomados por corvos, pois na cidade
não restam mais do que corpos inertes e espectros
que contam histórias, que bebem anis e lavam casas.
Se o arrependimento é um carrasco,
vi sua carantonha por baixo do capuz.
Pois assisti às horríveis orgias dos deuses,
vi deusas nuas e descobri que eram cadáveres podres.
Nunca foram belas nem há titãs protetores.
Apenas bêbados em templos comendo pernis
e bebendo sangue de perdizes inocentes.
Não mais permitirei que devassem a sala de orações.
Não mais permitirei que adentrem os banhos dos infantes.
Não deixarei escapar mais uma palavra
para que os inimigos não adivinhem nossos pensamentos e ações.
Não nos trairemos novamente.
Não daremos as mãos aos homens imundos
que abrem suas bocarras em bares e perseguem
com olhares de abutres as mulheres.
Não mais conhecerão nossa política, nossos livros,
nossas canções, nossa bebida e nossas fogueiras de festa.
As raposas chamuscadas conhecerão apenas as costas de nossos mantos
e os véus que guardam orações, escuros, negros por falsa fumaça,
esta que disfarçará as cristalinas lágrimas de pura alegria de nossas fontes antigas.
Tuesday, June 08, 2010
A virada da maré
Se não possuíssem bocas para descrever
e julgar as cores dos céus com tanta veemência
teriam mais tempo para perceber a virada da maré,
as ondas se levantando mais alto, as gaivotas se apressando
antes da noite com seu véu de negrura e frio.
O frio da madrugada e seu silêncio que embalam a ante-sala do fim.
Não percebem, não ouvem os homens tolos,
não vêem as mulheres fúteis, as crianças barulhentas.
A grande tragédia que se abate sobre o povoado,
a enorme onda que avança, a chuva que antecipa a escuridão
e a tempestade que caçará pássaros, crianças e vagalumes.
Mas a virada da maré é planejada pelos deuses,
e eles não podem duvidar do que fazem.
Deuses não hesitam nem agem por capricho.
Amanhã o sol cantará sobre nuvens brancas
vestindo o manto de lágrimas derramadas em noites de terror
e será belo, será alto, será real.
Haverá festa e champanhe, pessoas e vestidos finos,
luvas e cigarrilhas, enquanto crianças riem do lado de fora
atrás de um cão que persegue uma bola.
E estrelas marinhas repousarão sobre as copas de jasmineiras
e mangueiras, trazidas pelo mar furioso.
Reluzindo por sobre as cabeças dos bebês
e dos violoncelistas que farão música para reis.
Não ouvem que precisam reparar na virada da maré
o ponto onde tudo se perde, amigos, falsos amores,
tristes lembranças, risadas e desejos brutos,
fazem troça e posam de grandes enquanto a maré se transforma
enquanto revira os olhos, num delírio quase funéreo
de nuvens que anunciam um certo apocalipse, e pássaros partem.
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