Sunday, August 21, 2016
Vento, domingo
Amanheceu um dia de prata.
A chuva cantou, então se ausentou para descansar.
O sol desceu dentre as nuvens,
elegante, tímido, sonhador
e tingiu os prédios de uma luz envelhecida.
Manhã que debutou como se já fosse crepúsculo,
poesia que marejou meus olhos,
uma noite de verão beijou um dia de inverno.
E as nuvens roubaram, grávidas de água e vento,
a prata quase dourada da luz nos muros,
luz que se torna vítrea e azulada.
Uma tarde que é promessa de uma viagem, um amor,
um passado que faz as pazes com o futuro
cheio de folhas esvoaçantes, livros, caminhos, céus multicolores.
Delicadas são as forças do devir que agem no vento
Trôpegas como crianças são as palavras que a eternidade canta.
O mar aqui ressoa, oração, espelho, calmaria,
enquanto a ventania traz uma hora cheia de rebeliões do tempo.
Entardece e converge o dia para o abraço silencioso,
e, como uma harmônica de vidro,
um deus sentado nas pedras desenha um mistério.
Friday, May 13, 2016
Altocumulus
Que triste é o verão;
que triste é a canção efusiva e repetitiva de um céu azul
e a extenuante umidade calorenta
Quão doloroso é o olhar sobre uma estrada
perfeitamente pavimentada,
em que há mortes durante a madrugada;
para uma lagoa calma azulada
que, ao entardecer, solta fogos-fátuos
e outros elementos podres e silenciosos.
A totalidade da cor e a falsa permanência
são veneno para a mente,
são o sufoco da alma escrava dos sorrisos e oprimida pelos afetos
são a anestesia para um coração já embolorado
e embalado em açúcar de amores, requisitos e bom-dias.
O céu sempre azul - efusividade autoritária
O calor pleno e o ar imutável - a angústia de Prometeus
eternamente bicado pela ave de rapina.
Chegam as hostes de nuvens - chuva
vento e revolução
água no rosto, cabelos ao vento
O tempo se liberta,
o corpo se torna fogo e ar
-Respiro! Algo vai acontecer
Algo acontecerá, anuncia o Sacerdote Altocumulus,
pois tive um sonho que trouxe presságios,
algo acontecerá.
Tuesday, September 01, 2015
Hoje é dia de poema
Porque hoje está chovendo
Hoje é dia de se perder e temer.
Hoje é dia da coroação da Senhora Liberdade
e seus duendes alados beberão sangue em taças de ferro,
fadas tirarão a virgindade
de secos e inférteis intelectuais no meio da madrugada.
A noite será longa, mas curta demais para poetas.
Os músicos tocarão seus alaúdes e suas alabardas
e sangue humano será derramado.
Pássaros silenciarão, mas haverá pardais
e pombos famintos de manhã
e crianças sujas dissonando da música com urros de leite.
Morreremos em breve, mas lobos serão nossos cavaleiros
libélulas nossas daminhas de honra e
gatas, nossas madrinhas excêntricas.
Despeço-me da vida com a chuva que envolve a lua
nua, com seu véu de seda aquático
E renasço amanhã com a memória macia
da música e do vago terror
de ser livre, puro e não ambíguo.
Sunday, July 12, 2015
Dança de vento e sal
Meus movimentos de asas se alimentam
de seus olhares de despeito vermelho
e de suas bocas inchadas de maledicência.
Minha pele é armadura como exoesqueleto de libélula
e meus olhos são os dos felinos à noite.
Conjure feitiços, e eu os cortarei
tal como a chuva dissipa a fumaça negra da morte.
Danço cada vez mais alto, e sobranceira
despeço-me de toda a gente ignóbil, as lagartas,
as comadres na janela e vadios de taverna
que um dia serviram ao meu lado, aos mesmos capitães.
A cada maldição, meu sopro de arte.
A cada flecha envenenada, meu passo de fanfarra.
A cada sussurro negro, minha canção em letras douradas.
Tal como Ariel, danço nas areias, no sal do tempo,
na luxúria do vento, no caminho da floresta imaculada.
Tuesday, April 14, 2015
O ogro na biblioteca
O ogro senta-se majestoso
sobre uma pilha de livros modernos,
descomunal, triunfal, grandiosa é sua pança de ar.
Flui em seu sangue fogo-fátuo
e seu suor expele pequenas águas-vivas.
O ogro sonha em ser um príncipe. Crê ser um diplomata.
Suas enormes mãos derrubam comida sobre os livros,
ele diz que não precisa mais deles para conjurar fórmulas e feitiços.
O ogro afasta as borboletas com seu hálito nauseante.
Esbraveja ao mundo que são as borboletas as débeis
doentias, vulneráveis, um gasto ineficiente da Natureza.
O ogro urra longos discursos intercalados
com sons de gases e frases estrangeiras.
"Whatever, dude", "ah bon? Mais oui."
O ogro reúne um séquito de bajuladores,
lagartas mal formadas e sapos coaxadores.
De volta à Planolândia
Encharcada até os ossos
do pálido drinque industrializado
comprado em módicas garrafas
no mercado da esquina.
Fadiga de gente que diz "bom dia".
Fadiga de gente que aceita qualquer almoço,
qualquer cama para dormir, e se crêem barões.
Multidão que adora clichês como deuses em frascos,
e se crêem poetas cegos e pitonisas.
Fadiga de gente que é bastarda na alma,
e farta nos talões de cheque.
Cansada de gente que gosta de qualquer livro,
que adora qualquer música,
que se empolga com qualquer filme,
e toda expressão congelada é uma obra de arte.
Pequena elite pequeno-burguesa, sem senso crítico.
Farta desses olhos amarelados
dentro de carros parados no engarrafamento.
Gente que ostenta o copo de café do Starbucks
ou a viagem à praia no fim de semana
como o banquete no Olimpo.
Farta de mediocridade das fanfictions,
da pobreza vocabular e de suas trivialidades grosseiras.
Hipsters que se tomam por trágicos dândis
e adolescentes que brincam de sarcasmo.
Farta de homenzinhos mentirosos e
falsos sedutores fedendo a artifícios,
nauseada de falsos amigos que sempre têm uma carta na manga.
Fadiga dos burguesinhos bastardos na alma
e obesos nos cartões de crédito.
Classe purulenta a da gente que aceita e aprecia tudo sem questionar
e se crê bem-sucedida em seus início-meio-fins.
Saturday, December 06, 2014
Lucidez
Há mil dias enclausurada num cúmulo-nimbo
Há mil dias acreditava ser a nuvem o calabouço de um rico navio
onde o amor reinava incólume.
Naquele reino, mesmo claustrofóbico,
eu deveria viver e morrer.
Vi harpias e lutei contra medusas insones.
Adorei anões de gesso como se fossem Adônis de mármore.
Em meus olhos, um filme de fadiga preta e branca,
e não havia espelhos para ver minha própria face dourada.
Num gesto desesperado cortei a escura fumaça
Num estertor acordei nua na praia e o sol brilhava.
A Terra inteira canta num clamor de êxtase
E sem drama, sem lágrimas, sem orações,
monges se transformam em fadas.
Canto a música do fim de mil dias perdidos.
Monday, March 03, 2014
Segunda-feira
E tenho você aqui.
Os pássaros vão acordar daqui a pouco
e tenho o amor nos braços,
por pouco, por nada, por milagre, mas fácil.
Como um recém-nascido.
Uma canção e uma garrafa de vinho barato,
e estamos abrigados do horror da noite,
da chuva e dos entes terríveis no mundo
que nos levam a vida, que nos arrastam em pesadelos,
que nos levam em delírios, desesperos e destruição.
Aqui em nosso amor estamos a salvo.
Canta comigo, querido.
Ou cala-te e olha nos meus olhos,
enquanto colho água da chuva e asso o pão.
E em nosso leito de delírios turvos
nos encontramos nus e lúcidos,
mas embriagados de estarmos a sós,
solenes de fogo e inocente escuridão.
Sunday, December 15, 2013
Dezembro
Dê aqui a sua mão.
Abrace-me quente.
Quente como sua boca,
quente néctar vivo.
O desejo na noite,
boca de um proteu perdido numa gruta.
Uma estalactite se parte
e na água pura do escuro
o proteu se arrepia.
Perguntam o significado da vida.
Nunca entendi a questão,
já que a vida não é palavra ou signo
para ter significado.
Vida é como um mar escuro
povoado de holotúrias e algas vermelhas
onde se é lançado impiedosamente
para existir, como um poema ou uma canção.
Pedimos significado para símbolos matemáticos,
e frases em afegão e russo, ou alemão.
A pantera apenas anda em círculos, tensa, com saudade,
não tem significado, apenas existe entre grades,
cheia de desejo e solidão.
Agarra minha mão que sua frio.
Respiro o calor do seu peito firme e quente,
e vivo, ansiosa de alegria e consciente de espírito,
uma hora como o proteu na água escura,
outra, como uma nuvem dourada no céu de dezembro.
Wednesday, October 30, 2013
Canção da farsa de amor II

The Lovers, 1987 - Jan Saudek
Agora nossa canção é una,
agora o hino em nossos corpos
alçou vôo no hiperespaço do amor,
além do espaço das palavras, do tempo dos sons,
da geografia do pensamento.
Quero-te antes de qualquer pergunta.
Quero-te antes de qualquer fantasia.
O pássaro enjaulado do desejo
metamorfoseou-se em mil jaguares famintos.
Corre no fundo azul do sonho
meu cavaleiro embriagado,
meu guerreiro de cabelos longos,
o mensageiro nu na madrugada.
E deito-me em seu peito qual felina,
derramando-me em ti como vinho na mesa,
e adormecemos no fim das eras,
sem destino, sem passado, e crescemos,
e renascemos cem vezes em cem estações,
duais, unidos, nuvem e vento no mar,
fogo e fumaça num vulcão.
Wednesday, August 21, 2013
Days of wine and roses
Céu quente, mas azul, que me desperta
Lua, espelho dos sonhos e delírios
que criança ainda, desenhei na contracapa
de "Alice no País das Maravilhas",
lua fresca, lagoa, shots de licor e um quarto fechado.
Tempo que se passa na rua, exceto aqui,
onde somos dois anjos nus e enlouquecidos,
onde somos apenas duas crianças ensandecidas.
É o que esse amor impõe
sobre nossas mentes e corpos tal como rugas,
em nossos dias, apontamentos.
Não quero, meu amor, uma fanfarra e multidão
cobrindo nossos abraços de olhares e felicitações, mas sim
a selvageria de nossa intimidade solitária e infantil.
Uma torre, meia-luz, água fresca,
e nossos cabelos flutuando entre flores divinas,
lilases, azaleias, livros, calor.
Come live with me and be my Love.
Não tenho medo do escuro, não temo a poeira,
não me curvo diante do Mal, da mesquinha invejosa,
dos mercadores cheios de veneno e das serpentes em cestos.
Somos dois poetas da nudez e do riso,
somos duas aves num céu amanhecendo.
Come live with me, and be my Love.
*Este poema contém citação do famoso poema de Christopher Marlowe.
Monday, July 22, 2013
O vento frio
O vento traz cheiros da chuva,
o vento traz amor, o vento traz seus olhos escuros,
e vento traz a ausência.
Como um mordomo sarcástico,
refinado torturador nas horas vagas,
o vento traz, silencioso, a lembrança da distância.
E o mesmo vento traz o perfume do futuro de amanhã,
pois nos encontraremos novamente encarcerados um no outro,
na torre abastada de vidro e madeira,
no quarto cercado de verde escuro, cercado pelo vento,
e pelo som de um pequeno rio.
A tensão cresce na alma e no desejo do corpo,
e somente o vinho pode anestesiar o espírito,
enfraquecer a mente infame, ilógica,
apavorante, tomada das chamas violentas do coração.
Lá longe vão cavalos de prata,
lá longe está a grama cobrindo jardins, e túmulos.
A calmaria se espreguiça sobre o campo de crianças mortas
e essa lua malfazeja que nos observa.
Mas eis que vem meu amor passear na nuvem dos meus versos.
O vento traz a música da sua boca,
e traz o calor perfumado de sua nuca de homem altivo,
o suor do guerreiro, a capa do poeta, o livro nas mãos de jovem cavaleiro.
O vento traz o silêncio do seu coração lúcido de sofrimentos,
e traz a cantiga de nossos futuros cantos de delícia.
E assim afloramos bêbados,
pálidos de fadiga, embaraçados de tanta vida,
perdidos em nosso imenso terror de amor.
Tuesday, April 16, 2013
Sol e estrelas
O licor da tua boca
que bebo insone
diluo em meu desejo
enquanto a lua,
branca alma penada,
assiste nosso embate de mil cores.
Corpo que anoitece explodindo
em tempestades magnéticas,
e guarda em seu calor
o dia eterno do amor.
Tua lua queima sonâmbula na madrugada,
enquanto meu sol, O Capitão, domina
a paisagem do poema,
do pensamento, da respiração,
do sensual e espiritual neste mundo.
E esse amor, como um belo organismo
na selva chuvosa, qual tronco de árvore de mil anos,
se espalha entre nossos estertores na noite
iluminada por estrelas vadias.
Sunday, March 24, 2013
Oracibernação
Oremos no escuro.
Oremos à luz de velas que queimam
sozinhas e espalham fogo no claustro.
Oremos pelos corredores
e nos parapeitos das janelas.
Oremos aos deuses
que nos iluminam os dias.
Oremos ao Frade italiano
que nos inebria com sua bênção.
Oremos sob os olhos de Pablo
redondos na madrugada estrelada.
Oremos à ilha de cânticos,
oremos pela água benta do Senhor.
Oremos através das palavras
e também por nossos olhos.
Oremos à Lua
oremos à chuva
oremos à santidade
de Heitor e de Johann.
E do alimento de nossa fé
e do sono de crianças
renovamos nossos votos,
oracibernando incólumes,
virgens, lúcidos,
embriagados.
Sunday, March 10, 2013
Refúgio
Não tenhas medo, amor
de atravessar a soleira da porta.
Não tenhas medo do desamor ou do cansaço,
não temas a solidão repentina ou o descaso.
Não tenhas receio de entrar em meu quarto,
de deitar seu corpo em minha cama humilde.
Meu calor, a clausura escura, velas e vinho
te receberão fatigado e triste,
como a um rei persa derrotado.
E também te receberão forte e palpitante,
quando a alegria te invadir a casa do espírito.
Quando a libertação chegar,
terás, como sempre, o doce café, o beijo, a suave luz verde.
Cantarei uma toada singela de borboletas,
tal qual uma frase mágica, e de repente,
como uma criança num guarda-roupa,
adentrarás em meu mundo de cores vivas,
e música para cello e piano.
Adormecerás liberto, leve, seguro,
como uma lagarta que ignora a noite sinistra lá fora,
para despertar viva e com asas vermelhas,
aquecendo-se sobre folha de capim.
E serás ainda mais vivo,
e nosso Nirvana estará próximo,
e nossas manhãs serão de cânticos doces rosa-chá,
e música para cello e violino soará pelos nossos dias.
Monday, February 18, 2013
Catarina e Pablo ouvem Chopin
Olhinhos fechados
no silêncio,
nas pausas de uma Berceuse,
num Noturno de flores,
nas ondas da Polonaise,
patinhas para cima,
continhas de areia,
estrelinhas do mar.
Luzinhas que caçam,
vagalumes de pensamento
pairam livres sobre as cabeças
adormecidas de Pablo e Catarina,
que em sonho perseguem moscas verdes,
e caçam gafanhotos cor-de-rosa.
Calor entorpecente em 3/4
acordes que se alternam entre
grama fresca e lágrimas quentes.
Pablo e catarina ressonam
com as patinhas para cima.
Alheios a si,
alheios ao Mal
deste imenso mundo,
pequenos deuses indiferentes
ao ódio humano,
à luta egocêntrica, à sujeira das máquinas
e da burocracia de papel.
Pablo e Catarina sonham
com fadinhas-vagalume para serem caçadas
na invenção de um triste senhor polonês.
no silêncio,
nas pausas de uma Berceuse,
num Noturno de flores,
nas ondas da Polonaise,
patinhas para cima,
continhas de areia,
estrelinhas do mar.
Luzinhas que caçam,
vagalumes de pensamento
pairam livres sobre as cabeças
adormecidas de Pablo e Catarina,
que em sonho perseguem moscas verdes,
e caçam gafanhotos cor-de-rosa.
Calor entorpecente em 3/4
acordes que se alternam entre
grama fresca e lágrimas quentes.
Pablo e catarina ressonam
com as patinhas para cima.
Alheios a si,
alheios ao Mal
deste imenso mundo,
pequenos deuses indiferentes
ao ódio humano,
à luta egocêntrica, à sujeira das máquinas
e da burocracia de papel.
Pablo e Catarina sonham
com fadinhas-vagalume para serem caçadas
na invenção de um triste senhor polonês.
Tuesday, February 12, 2013
O pistoleiro
Fotografia de Jan Saudek
Encontra-me à janela numa tarde de flores vermelhas,
janela de madeira comida pelo tempo e outros pássaros vorazes.
Caminha tranquilo, em paz com suas armas, na calçada de escorpiões.
De camisa branca vem o meu amor,
com rosas na mão direita,
e uma adaga na cintura. Seus olhos vermelhos
de sangue derramado de patrões exploradores,
pois ele é o justiceiro dos humildes, dos camponeses,
dos índios, das escravas negras abusadas pelos senhores brancos.
Ele é dançarino, jogador, príncipe dos sem lei esquecidos nas tavernas.
Um anjo de olhos negros que vem me visitar,
íncubo de sonhos de ninfas virgens sequestradas,
protetor de pássaros, companheiro de lobos,
amante que abre minha alma como uma flor de lis na manhã de outono,
irmão que estende seus braços para aninhar-me em seu peito,
onde sinto bater seu coração constante,
amor de séculos passados enclausurados no escuro,
de chuva do futuro que pende na montanha,
da música de um violino adormecido no presente.
Encontra-me à janela numa tarde de flores vermelhas,
janela de madeira comida pelo tempo e outros pássaros vorazes.
Caminha tranquilo, em paz com suas armas, na calçada de escorpiões.
De camisa branca vem o meu amor,
com rosas na mão direita,
e uma adaga na cintura. Seus olhos vermelhos
de sangue derramado de patrões exploradores,
pois ele é o justiceiro dos humildes, dos camponeses,
dos índios, das escravas negras abusadas pelos senhores brancos.
Ele é dançarino, jogador, príncipe dos sem lei esquecidos nas tavernas.
Um anjo de olhos negros que vem me visitar,
íncubo de sonhos de ninfas virgens sequestradas,
protetor de pássaros, companheiro de lobos,
amante que abre minha alma como uma flor de lis na manhã de outono,
irmão que estende seus braços para aninhar-me em seu peito,
onde sinto bater seu coração constante,
amor de séculos passados enclausurados no escuro,
de chuva do futuro que pende na montanha,
da música de um violino adormecido no presente.
Monday, February 11, 2013
A hora do lobo
Na hora do espanto e do terror
na hora da chuva fria, da humana solidão
da qual não me arremedo, da qual não fujo,
pois sou filha da escuridão, sou filha do frio,
sou filha da tempestade que traz ressaca no mar,
e filha da lama na ruela onde
traficantes vendem seus sonhos sujos.
Na hora triste em que doentes morrem de abandono,
e que cachorros cheios de amor uivam por seus donos mortos,
na hora em que gatos, os divinos, emitem suas palavras de amor,
e se esquivam errando no vazio estrelado,
estou bem acordada e à espreita.
Estou, felina, alucinada, escrivã, musicista,
estou, madrugada, inteira.
Sem café, sem estimulantes moleculares,
sem diapasões, sem luminárias,
estou inteira, à espreita, na chuva,
com uma lança mortal
na esquina.
Sunday, February 10, 2013
Amor e outras fantasias
Ei-nos no laboratório,
vidros, venenos, ácidos azuis
e outros brinquedos de adultos.
Nossa vida, nossos silêncios,
nossas histórias de pin ups
e lentes vermelhas,
nossos cânticos e drinks evangelizadores.
Descobrimos todo dia na grama verde
insetos transparentes, vaga-lumes que são estrelas.
Momentum e posição indefinidos,
álgebra não-comutativa sobre esquemas
parametrizados por dois loucos.
Amor, vestes-me como fantasia real,
e te visto durante o dia, à noite, pela madrugada
como se fosses a luva constante
que uso em meu trabalho diário
e minucioso de redescoberta
da fauna e da flora da existência.
Nossa vida, nosso jardim,
nosso laboratório de pensamentos, risos,
carícias e viagens, de toques e animais marinhos,
o parapeito das janelas, os gatos à espreita,
as velas, as taças, a água que escorre,
a nossa música.
O primeiro pensamento na alvorada,
a última lembrança ao adormecer.
Sunday, February 03, 2013
Vampiro II
Dark angel rising, de Neil A. Pike
Escuro dia que sucede
uma noite cintilante,
um corpo pulsante,
uma flor arfante.
Febre vermelha desata,
capa de seda negra.
Letras num manto de ardor anil
literatura do desejo preso num covil.
Arca de vontades,
bondes de crueldades de amor
lustres e meias rendadas,
taças a ponto se serem quebradas.
Amor que pulsa numa gruta,
sem ser visto e, de repente,
explode enlouquecido,
mas imenso e divino, luta
para ser visto e bendito,
por seu amado, precisa de sangue
e se espalha eterno e real,
frágil e em movimento, como o espaço sideral.
Luz vermelha na rua suja,
e vejo morcegos e gatos no breu.
Esta que se equilibra de corpete sou eu,
sob a lamparina de querosene.
No meio do Destino atlântico,
no caos da tempestade de deuses hindus,
fúria e vazio de nossos teares de vida,
meu amor surge tecido, vestido, painel, mural,
e desejo universal.
Escuro dia que sucede
uma noite cintilante,
um corpo pulsante,
uma flor arfante.
Febre vermelha desata,
capa de seda negra.
Letras num manto de ardor anil
literatura do desejo preso num covil.
Arca de vontades,
bondes de crueldades de amor
lustres e meias rendadas,
taças a ponto se serem quebradas.
Amor que pulsa numa gruta,
sem ser visto e, de repente,
explode enlouquecido,
mas imenso e divino, luta
para ser visto e bendito,
por seu amado, precisa de sangue
e se espalha eterno e real,
frágil e em movimento, como o espaço sideral.
Luz vermelha na rua suja,
e vejo morcegos e gatos no breu.
Esta que se equilibra de corpete sou eu,
sob a lamparina de querosene.
No meio do Destino atlântico,
no caos da tempestade de deuses hindus,
fúria e vazio de nossos teares de vida,
meu amor surge tecido, vestido, painel, mural,
e desejo universal.
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