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Friday, November 14, 2008

Bourgogne



para vocês-sabem-quem

Somente no bojo largo
da taça da noite
é que explode
o seu delgado buquê

Nem grande tanino,
nem minerais nem terra.
Você é alternadamente
ácido e tânico
e só no largo útero da noite
é que revela seus reflexos
rubi-alaranjados
e suas tonalidades harmônicas
mas também as dissonâncias
que espreitam tímidas
nos olhos negros nos cabelos
no seu corpo e no corpo da noite.

A noite é seu trono de ambrosias
e pães ricos, águas azuis, grãos macios
E é seu reinado de venenos anidros
A noite é o bojo largo
em que explodem os seus aromas

Minhas sensações enlouquecidas
esperam impacientes a total libertação
das novas flores, dos frutos amargos,
dos doces escondidos
por trás da tua ampla presença
na boca, no olfato, nos ouvidos
do meu corpo ensandecido
de rica e floral degustação
No grande seio da taça da noite
é que mostras o teu leque
de um definido e jovem buquê.

Friday, November 07, 2008

Eu te amo

Na Floresta da Tijuca.


Acho que estou doente. Algo dos pulmões.
E no coração só uma sensação de abrasamento
como se estivessem a marcar com ferro quente
por toda a extensão do miocárdio.
É preciso toda a memória para resolver em palavras
as querelas quando se bebeu meia garrafa de vinho.
Amor é tão lugar comum, diz uma canção
e sento-me de madrugada entre morcegos
para chorar pesadelos e lamentar ânsias de vazios futuros.
Nada se sabe e ninguém sabe, os ouvidos e as narinas entupidos.
Mas os perfumes e as echarpes que uso são divinos
e isso basta para receber olhares de admiração.
Ao fim da noite entretanto, soluço, e asfixio, poções de bruxas.
Sinto teus cabelos entre minhas mãos, e lembro-me de campos
de ervas suaves, e crianças e gatos, e penso em mim chorando.
E choro. Atriz, ou pitonisa.
Mas será isto amor, ou teatro, ou auto-compadecimento?
Inteligente e refinada demais para o lamento público
mas sensível e ultra-romântica, patética, para a urbe que assoma
pelas letras e elétrons através da janela.
Canto e sou triste em minha alegria, e prefiro
dez ferrões de abelhas e dentes de serpentes inesperadas
que sobrevêm ao teu beijo, à morbidez do engano,
da subcultura e do mal-gosto que suportei antes de ontem.
Prefiro a guilhotina, dou-me o pescoço, os seios e a mente
à lâmina última e altiva, mas recuso a nuvem de calor do meio-dia.
Confesso, e sofro, mas não peço esmolas.

En passant

Noite de novembro. O Cosme Velho cheira a rosas e não há água na torneira. Bebo vinho e ouço Don Giovanni seduzindo Zerlina, a mais enxerida das personagens operísticas.

Thursday, November 06, 2008

Felipe

Reproduzido da graphic novel "V for Vendetta", de A. Moore.


Um Éden sem Deus
é a casa em que habita
o Adão sem maçã nem pecado
nem história, nem anjo Gabriel.
Não adianta – ainda tens um poema
um poema a mais
após a eclosão do fim.
O vinho sobre a mesa
harmoniza-se sob a luz
lunar espalhada pelos cantos.
Mesmo triste, o vinho
é harmonia com teu corpo.
Outros tentarão tirá-lo de ti
Outros tentarão imitá-lo.
És música – perfume afora
verde-escuro, e rosa, floresta.
O Jardim do Éden sem Deus
e os cantos do outono à capela.
És, Felipe, o anjo sem oração,
sem asas, sem perdão.

Sunday, November 02, 2008

Cantilena de Amor no Escuro


"Maria Madalena", Georges De La Tour



Acabou-se a luz
Da lâmpada elétrica
Escrevi patética
Uma ilha de luz.

Compondo no escuro
Cegueira e grafite
Desenhei no sulfite
Teus olhos de escuro.

Envolvida em breu
Núcleo quente da vela
Cultivo com ela
Teus cabelos de breu.

No espaço sem fim
A ilha dourada
Ampara a esplanada
De saudade sem fim.

De dentro do escuro
Palpita o pardal quente
Do desejo urgente
De vôo no escuro.

Thursday, October 30, 2008

Matadouro







P. Picasso, "Minotauro"




Ando displicente.
Estas minhas cantigas estão decadentes
mas dos teus braços tomo o manto
do torpor e quedo entre orquídeas.

Anjos malignos sopraram em meus ouvidos
uma solução bruta mas conveniente:

com esta caneta te imolo sem compaixão
despejo tua beleza repartida a faca
em meu poema, e te ofereço a
deuses exigentes.

No altar destes versos te sacrifico
e rezo sobre o sonho dos teus olhos escuros.

Monday, October 27, 2008

Batalha de Escorpiões



"Orchid", de R. Mapplethorpe



Já não sei o que fazer

com este pavor

Não sei o que fazer

deste calor

Onde pôr

estas flores vermelhas

Não sei como ouvir

essa música de bruxas

que desperta leões

na madrugada.

E o demônio que dança

às gargalhadas

Que fazer deste estupor?

Como calar estes tons

que perpetram asas escuras

nos lençóis que balançam

nos varais virgens?

O anjo me tortura

dia e noite

com olhos escurecidos

de taninos e aladas

foices de prata.

O anjo me retém

sob o escudo sangrento

de seu terror

de rosas e cantos.

Está declarada

a batalha no deserto

e em alto-mar.

Estou a postos.

Friday, October 24, 2008

Sphinx

"A Virgem", Gustav Klimt

Para FP

Houve a noite da esfinge.

A esfinge reina soberana
e meu coração impaciente
voa aflito com aflições
de pombo desértico
Eu, criança, diante da porta
Do corpo da esfinge soberana.

Na boca da esfinge
O lagarto colheu dardos
De doces intumescências
No repentino verão
De noturnas florescências.

A esfinge sorri na areia.

Tempestades estrangeiras
Trouxeram os olores
Transparentes ervas úmidas
Com a bela silhueta escura
Da esfinge marinha.

Na noite da esfinge
Eu, nômade, bebi de anis
Em cálice tomado de dores
Risonhas e chuvas frescas.
A esfinge, bela na noite,
Reina soberana na areia.

O instrumento do demônio
Canta na garganta de cerejas amargas.

A esfinge reina soberana.

Sunday, October 19, 2008

Ars Erotica

"Ophelia", de Millais



“Amo a floresta. Ruim é a vida nas cidades: há ali demasiados libidinosos.”
Nietzsche

I.Ciganos e suas rabecas

O amor expande violeta
a íris da consciência.
É o que dizem.

Cada um é só
com o corpo embargado de espírito.
Cada um é sozinho.

A imensa ânsia
para o que não habita em si
O eterno andarilho

Adormeço sob As Três Marias
Adormeço um pouco em ti.


II.Ressona a Grande Explosão

Sorrio de graça e em minha taça
descansa a roxa solidão de meu amor

Acredito na música que ressoa ao fundo
do mundo e desta poeira
Acredito na sinfonia que reverbera
por trás da dança das varejeiras

Quando acabar-se o mundo
Após uma explosão fraternal
Ranger de gritos apavorados
será possível ouvir gigante
um concerto para piano
mozartiano


III.Lascívia

Canto com as cigarras
Canto um pouco em ti.

Acariciar asas violetas se possível;
cantar o que não está perto.

Na brisa gélida que treme as últimas folhas
das mortas árvores de abril
dança uma valsa a bela Incerteza

Nenhuma flor marca meu jazigo
Meu espectro é dignamente pobre, e vive exonerado
exilado nos píncaros brancos
do desejo que lhe estica a alma
como a um manto de linho antigo.

O amor é uma libélula infernal
Asas; e que deixam rastros na água.


IV.Divertimento

Os deuses banham-se
em jardins de begônias
e, vê, as serpentes dependuradas
nas amoreiras emaranhadas
traçam na tepidez da primavera
mórbidas grades de galhos
cálidas ao olhar das feras

os deuses banham-se
em jardins de begônias

Num compasso crescendo
águas azuis no momento
em que um satírico vento
revolve as lupercais
dos teus olhos abissais.

Preenchem o escuro Vale das Máquinas
patéticas eletrificadas, gás, carvão e hulha
sublime kyrie disperso na poeira
flutuante espaço tenso em ostinato
doura os céus dos acontecimentos
um minuto antes de um divertimento

que ressoa para teus verdes sorrisos na rua
os quais contêm todos os sorrisos da lua

Tuesday, October 14, 2008

Poema do Escuro




Cheguei a pensar que não iria mais te escrever poemas nem coisas afins belas.
Porque pensava-me velha, pensava-me finda no círculo da hora na barca que dança,
fechada numa decisão de guirlandas carnívoras, e bastava-me a escravidão
da idéia, da mesma frase, da mesma ofensa, da mesma nagação da liberdade
mas agora na noite a erva e lua, a estrela a água se fazem senhoras
e nenhuma circunstância roubará teu corpo e a amálgama da essência de você.
Porque em nenhures estarei e não sinto a solidão, pois moro com a Lua
e durmo com o deus mais altivo e tenso de todos, o Sol
e o céu inteiro é minha casa, e você, música, minha porteira
E tua boca, topázio marinho no portão de entrada para o mundo
e neles habito... habito nos ares com as gaivotas e falcões
intimamente em grandes envergaduras.
Busco a estrela, e bebo a alvorada, e lá está, esse homem que se senta esguio
na última laje, no ducentésimo galho de jasmineiras -- alías orquídeas
Que te adoro rico em cores, que te quero desenhado em rosas e vermelhos e azuis
que te quero selvagem da masculinidade típica dos céus de outubro
e das peças magníficas para sopros e metal... com entradas particulares para as cordas.
Homem, nascemos para isso, para isso crescemos, para o cântico... alvoradas
luzes turvas da madrugada, e vinhos escuros, tons anis, desejos fulvos.
E caio num ninho de suaves lilases, que são lembranças de lábios e noites unidas em mi bemol.

Sunday, June 08, 2008

Os Pássaros e Truffaut






Abrimos as janelas e os azuis revoam.

A cidade está agora embriagada em calmo frio
Num abraço sinto teu coração sobressaltado
de névoa cintilante qua as gaivotas deixam para trás.
Sonho que toco tuas mãos e as penas das aves
entre folhas de árvores espargem luzes ao Tempo.
E o Sol num instante acorda e toma seu cetro,
e desperta teu olhar que em tímido verde-escuro
passeia e percebe o silencioso movimento
de cenas e nossos amores desenhados em nanquim
Estes caminham pela sala, sentam-se e põem flores
nos vasos.

A cidade está imersa em seus desdéns.
Nós nos perdemos do Tempo, e isso nos dá direito
ao canto
como aos poetas cegos de outrora
era dada uma nova e profunda visão.
O céu nos responde com uma cantiga ao piano
que ingenuamente reverbera no azul, pálido
e este mar é somente meu e teu, os tolos se
esconderam.

As cenas, a corrida na ponte, o chalé no vale,
o turbilhão da vida, diante deles nos rimos
mas temo o Tempo por um instante, que temeroso
de nossa displiscência, nos tome e nos devore
como seus legítimos filhos, que ameaçam seu trono.
O tempo detesta as crianças, o Bastardo.

Eu te abraço e teu calor me conta
a história de um filme e bicicletas
e de crianças que também reinventam
seus amores e libertam pássaros
nas manhãs sem sol debruçados sobre o mar.

Sunday, April 27, 2008

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade)

Friday, March 28, 2008

Convento

Nestes dias monásticos
de acalentar orações e cânticos
bebo licores de uva escondida
da Madre Superiora.

Nesta pobreza eremita
na pedra esquecida
aqueço na pequena bolsa de pano
os sons daquele que, escondida, amo.

Nos jardins noturnos
atrás do muro exterior
me posto em febre a ouvir
escondida, as cadenzas e grilos sob a lua.

Durante os rosários de mil dias
teço suspiros, escondida, em agonia
aos teus cabelos e olhos cheios de luz
mas a Madre pensa que é para o Menino Jesus.

Saturday, March 01, 2008

Pássaro que Fica ou Vai




Pássaro que fica ou vai
A dança permanece
Nos teus braços imaginários adormeço
sob asas delgadas eu esqueço

Você eu amarei sempre. A cada manhã
que as lâmpadas dos postes se apagarem
a cada entardecer em que as cigarras cantem
Não fujo, minha sina é ouvir teu solitário lamento

O som do riacho é a eternidade.
Sonhar teus cabelos minha canção.
A ave levanta seu vôo na verde escuridão
e deixa ilesas as nuvens apaixonadas.

Antes a morte levará minhas lembranças
e a velhice tomará do meu corpo a tensão do amor
mas isso nada leva embora, a poesia e a música
que tuas finas mãos lançaram a mim
como um falso casto véu púrpura perfumado de estupor.

Tuesday, August 21, 2007

Love love love

choro inteira
sofro por toda a humanidade
transparente, um copo d'água
transbordo e na chuva ninguém vê
a transparência sufocada de amor
a película túrgida e límpida de dor

sofro sem esforço
gratuita e livremente
com a fronte coroada de estrelas tristonhas
como uma rainha derrotada

uma flor azul desabrocho no frio
oferecendo aos transeuntes
e ao vento minha florescência dolorida
meu desabrochar de lágrimas fáceis
como oferece ao mundo graciosamente
a roseira suas ainda macias pétalas moribundas
e a paineira no outono suas folhas ressequidas

ofereço a vocês todos
minha tristeza em taças
e minha paixão insólita
ofereço meu pranto
como uma espada
que o vencido
estende ao vencedor
leve menear de cabeça
e um sorriso de muitas eras
ofereço a todos
e adormeço possuída
amorosamente
por um desqualificado vinho.

Wednesday, January 03, 2007

Ipanema

Afinal, sou uma feiticeira
que produz poções fatais.
Mas duendes e flores brancas
que já não passam de espuma.

Tua presença nas folhas
de alegre deus no vento
não era mais do que
minha própria divindade
espraiada no mundo.
Eu mesma era quem dançava
nas gotas frescas de chuva.

Espuma, luz de crepúsculo,
cascas de nozes e taças vazias.
Pobre musa, que envelhece
e vira bruma...
Agora de teu corpo
quero apenas os de outros,
e outros frutos,
e sementes roxas
de romãs tensas de água.
Quero as tardes alheias.

Sou o perigo do Deus criador.
Sou Brahma que explode cogumelos
tingidos no meio do vale
e Shiva que pisa no vinho mortal.
Sou a dança destruidora.

Musa, te deixo na estrada.
Encontrarás quem te ame
os pés inchados e o ventre infame.
Só amo os belos.
Só amo os imortais.
Musa, da onda da minha paixão
és agora inerte e fria espuma.

Wednesday, October 11, 2006

Diabólica

Diabólica

Para FP

O demônio desenha
Sonhos de pássaros azuis.
Por que prendes meu canto
Com fitas brancas, e minhas
mãos não alcançam a lâmina?
O demônio canta em português.

Gaivotas sanguinárias
Abrem meu corpo
E de dentro, mas
Elas não fogem.

Por que sorris e sonhas
Com olhos de flores,
Devorador de rins?

O diabo sopra nos ouvidos perfurados
Dos amantes que definham.