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Saturday, April 11, 2009

O nome





Só sei dizer em poesia
porque sou covarde - só sei dizer em verso.
Mas virou a madrugada do dia
em que te reconheci, mar que quero ver todo dia
Sol que desejo toda noite, estrela que está velada
Falei com o escuro, e ele me disse teu nome

Disse o que disse a cabala e o que cantou o tarot
no meio da sujeira dos dias, nos arbustos das noites.
Disse encarnado em deus bêbado, em pitonisa por entre vapores
Disse-me que adormecesse, e aguardasse, e respirasse
E disse-me teu nome, disse por entre livros mofados.

Meu ventre contém névoas e luas que não conheço.
Somente agora vejo e ouço o que a sacerdotisa escondida,
por trás de todas as resoluções e chuvas, tem sussurrado.
Porque deuses sussurram sempre.

Desta vez ouvi o escuro e as estrelas de Aquário
soprarem suavemente e as chamas nas montanhas
e as aranhas urdirem em teias, e os melros anunciarem
O que o escuro disse, no frio e pleno entre pedras e o mar do Arpoador
Disse teu nome, o nome que quero para toda a vida.

Friday, February 13, 2009

O que não tem nome




Rua abaixo há uma estrela.
Rua abaixo há um gato na esquina.
No céu nuvens cor de cinza sobre o azul escuro.
Mais à frente o mar medonho e sereno. E anões fazem silêncio.
Depois da janela há pedras e fantasmas que descem pálpebras
e os pássaros fazem malabarismos de felicidade.
E são a prova de que o inominável está presente, nu.
O sol aquece minha pele e meu corpo já disse sim.
Meus olhos lêem cantos no verde das árvores.
Ainda que eu fosse a balconista daquela padaria
e só passasse as horas longas a servir pães quentes
saberia que o inominável está no entorno.
Em cima dos muros, entre os carros, no ar com cheiro de grama.

Seita mística é nada mais que ter sentidos, olhos grandes,
e principalmente ouvidos. Ouvidos na nuca.
Que a percepção maior da alegria e do silêncio
por trás das coisas sussurra e murmura na nuca,
debaixo dos pés, no couro cabeludo.

O gato saltou para a janela acima do precipício.
O piano começou uma peça em tom menor.
O rio desce a rua para o mar, para a baía.

Durmo já. E meu sorriso se abre no sonho
como as asas de uma borboleta quando nasce o sol,
e sobre o som do rio ali adiante com nenúfares e grilos mortos
na manhã criança, que nunca se esquece de nada.