Friday, October 24, 2008

Sphinx

"A Virgem", Gustav Klimt

Para FP

Houve a noite da esfinge.

A esfinge reina soberana
e meu coração impaciente
voa aflito com aflições
de pombo desértico
Eu, criança, diante da porta
Do corpo da esfinge soberana.

Na boca da esfinge
O lagarto colheu dardos
De doces intumescências
No repentino verão
De noturnas florescências.

A esfinge sorri na areia.

Tempestades estrangeiras
Trouxeram os olores
Transparentes ervas úmidas
Com a bela silhueta escura
Da esfinge marinha.

Na noite da esfinge
Eu, nômade, bebi de anis
Em cálice tomado de dores
Risonhas e chuvas frescas.
A esfinge, bela na noite,
Reina soberana na areia.

O instrumento do demônio
Canta na garganta de cerejas amargas.

A esfinge reina soberana.

Sunday, October 19, 2008

Ars Erotica

"Ophelia", de Millais



“Amo a floresta. Ruim é a vida nas cidades: há ali demasiados libidinosos.”
Nietzsche

I.Ciganos e suas rabecas

O amor expande violeta
a íris da consciência.
É o que dizem.

Cada um é só
com o corpo embargado de espírito.
Cada um é sozinho.

A imensa ânsia
para o que não habita em si
O eterno andarilho

Adormeço sob As Três Marias
Adormeço um pouco em ti.


II.Ressona a Grande Explosão

Sorrio de graça e em minha taça
descansa a roxa solidão de meu amor

Acredito na música que ressoa ao fundo
do mundo e desta poeira
Acredito na sinfonia que reverbera
por trás da dança das varejeiras

Quando acabar-se o mundo
Após uma explosão fraternal
Ranger de gritos apavorados
será possível ouvir gigante
um concerto para piano
mozartiano


III.Lascívia

Canto com as cigarras
Canto um pouco em ti.

Acariciar asas violetas se possível;
cantar o que não está perto.

Na brisa gélida que treme as últimas folhas
das mortas árvores de abril
dança uma valsa a bela Incerteza

Nenhuma flor marca meu jazigo
Meu espectro é dignamente pobre, e vive exonerado
exilado nos píncaros brancos
do desejo que lhe estica a alma
como a um manto de linho antigo.

O amor é uma libélula infernal
Asas; e que deixam rastros na água.


IV.Divertimento

Os deuses banham-se
em jardins de begônias
e, vê, as serpentes dependuradas
nas amoreiras emaranhadas
traçam na tepidez da primavera
mórbidas grades de galhos
cálidas ao olhar das feras

os deuses banham-se
em jardins de begônias

Num compasso crescendo
águas azuis no momento
em que um satírico vento
revolve as lupercais
dos teus olhos abissais.

Preenchem o escuro Vale das Máquinas
patéticas eletrificadas, gás, carvão e hulha
sublime kyrie disperso na poeira
flutuante espaço tenso em ostinato
doura os céus dos acontecimentos
um minuto antes de um divertimento

que ressoa para teus verdes sorrisos na rua
os quais contêm todos os sorrisos da lua

Tuesday, October 14, 2008

Poema do Escuro




Cheguei a pensar que não iria mais te escrever poemas nem coisas afins belas.
Porque pensava-me velha, pensava-me finda no círculo da hora na barca que dança,
fechada numa decisão de guirlandas carnívoras, e bastava-me a escravidão
da idéia, da mesma frase, da mesma ofensa, da mesma nagação da liberdade
mas agora na noite a erva e lua, a estrela a água se fazem senhoras
e nenhuma circunstância roubará teu corpo e a amálgama da essência de você.
Porque em nenhures estarei e não sinto a solidão, pois moro com a Lua
e durmo com o deus mais altivo e tenso de todos, o Sol
e o céu inteiro é minha casa, e você, música, minha porteira
E tua boca, topázio marinho no portão de entrada para o mundo
e neles habito... habito nos ares com as gaivotas e falcões
intimamente em grandes envergaduras.
Busco a estrela, e bebo a alvorada, e lá está, esse homem que se senta esguio
na última laje, no ducentésimo galho de jasmineiras -- alías orquídeas
Que te adoro rico em cores, que te quero desenhado em rosas e vermelhos e azuis
que te quero selvagem da masculinidade típica dos céus de outubro
e das peças magníficas para sopros e metal... com entradas particulares para as cordas.
Homem, nascemos para isso, para isso crescemos, para o cântico... alvoradas
luzes turvas da madrugada, e vinhos escuros, tons anis, desejos fulvos.
E caio num ninho de suaves lilases, que são lembranças de lábios e noites unidas em mi bemol.

Friday, October 10, 2008

Quote

Céu de Ouro Preto depois de chuva.

"Freedom lies in being bold."

Robert Frost


Sunday, October 05, 2008

Gosto de vinho.


Vinho e chama de vela
Vinho e jazz que se parte
entre os suspiros e silêncio - mais
um coração aturdido.

Vinho e cantiga das horas
Vinho e lembrança de amoras
Vinho e um libertário estertor
Vinho, de fino amoroso horror.

Saturday, October 04, 2008

Gosto de... continuação.



Para não dizerem que não falei de flores....

E não somente siciliano. Não sou assim tão fã de
trocadilhos óbvios, é que veio a calhar...

O perfume é único. Mas o tahiti é melhor, mais azedo, mais profundo, mais ácido, mais intenso.

Só falta o jazz.

Friday, October 03, 2008

Uma daquelas listas de coisas de que gostamos.

Ao contrário do que muitos pensarão, não foi inspirada em Amélie Poulain, mas sim num blog português muito belo que visitei recentemente (se vocês clicarem no título da postagem, que está em highlight, irão parar nesse dito endereço lusitano). Relembrei com ele um velho hábito de infância e adolescência, o de listar coisas de que gosto. Pode ser uma tentativa de poesia. Uma nova forma, a poesia-lista? Calma, é só uma piada.

Só para começar, as coisas mais óbvias. Muitas são clichês, mas fazer o quê? É que nem sexo, universalmente apreciado. Clichê dos bons.

Prometo escrever coisas mais sutis da próxima vez... sim, essa listinha continua.

Gosto de:

1. A letra csi do alfabeto grego. Tenho numa postagem antiga deste blog uma série de fotos de csis, para quem não lembra ou não sabe qual é. Aliás, especializei-me em desenhá-la. Merecia já um vale-doutorado só por ter aprendido a escrever direito, quando nos institutos de matemática há essa legião de professores e bons matemáticos quase que totalmente incapazes de escrevê-la, mesmo sendo tão requisitada.

2. Taças de vinho atrás de velas acesas, com bojo largo, de forma que possam refletir sutilmente, na sua convexidade elegante, a luz da chama.

3. Gatos.

4. Cheiro de livros bem novos e de livros bem velhos.

5. Tardes em que o vento é intenso porque choverá em breve.

6. Pedras redondas submersas em água cristalina.

7. A hora 11:11.

8. A poesia de Gabriela Mistral.

9. O cheiro de pão quente e a voz da mãe cantando de manhã enquanto faz café.

10. A sensação de pés descalços sobre a grama molhada de manhã cedo.

11. Ficar silenciosa numa mesa em que todas as pessoas conversam e fazem balbúrdia alegremente, deixando fluir através do corpo, como se não estivesse ali, como se já tivesse morrido, a enervação dos pensamentos e o calor da vida humana.

12. A cor lilás.

13. Árvores jasmineiras quando chove.

14. Caminhos, estradas, principalmente de madrugada. Olhar para o céu de dentro da janela do carro, ônibus, o que for, e ver o escuro salpicado da Via Láctea cedendo gentilmente a vez para uma ainda ingênua luz debutante.

15. Beijar a boca daquele por quem se está apaixonada tendo bebido água, e ele, vinho.

16. Lençóis e véus.

17. Mãos de pessoas idosas.

18. O espaço vazio e silencioso entre as estantes de alguma grande e rica biblioteca. fechar os olhos e respirar nesse momento, parada entre os livros.

19. Barcos.

20. Janelas.

Wednesday, October 01, 2008

The Lark Ascending - Again

"He rises and begins to round,
He drops the silver chain of sound,
Of many links without a break,
In chirrup, whistle, slur and shake.
For singing 'til his heaven fills,
'Tis love of earth that he instils,
And ever winging up and up,
Our valley is his golden cup,
And he the wine which overflows
To lift us with him as he goes
'Til lost on his aerial rings
In light, and then the fancy sings."

Excerto do poema de George Meredith que V. Williams ressaltou no início da partitura da belíssima peça homônima, sem o "again".

DICA: ouvir a gravação de Nigel Kennedy com a Royal Philarmonic Orchestra, sob regência de Simon Rattle.

Monday, September 29, 2008

Joni fala e eu falo



"I am on a lonely road and I am traveling
looking for the key to set me free
Oh the jealousy, the greed is the unraveling
It's the unraveling
and it undoes all the joy that could be..." - J. Mitchell, "All I Want"


Thursday, September 18, 2008

Eterno Retorno



para FP
E lá vem de novo o pássaro cambaleante
Nos meus pesadelos eróticos sublimes anímicos
Matemáticos sangüíneos marinhos perdidos
Música pra meus pulmões, lá vem você
Para me arrepiar na noite das bruxas entre árvores
Para me lembrar de que mentir é arma de crianças

Lá vem o marinheiro, lá vem a canção
Lá vem o barco nas sombras, lá vem o lobo da madrugada
Lá vem o desejo que me diz à nuca: "nunca -
- Mas aqui estou, e me amas.

E tens o mal gosto de mal citar o pobre Nietzsche,
enquanto me expões teus seios em sofrimento."

Sunday, August 24, 2008

A Noite - Ciranda

Se é silêncio, sonhamos com chuvas.
Se é de tormento, encolhemos no leito
e imploramos pelo licor do amor.
Se é insone, estamos alertas e vive o pesadelo.
Se é silêncio novamente, desce o fluxo do rio
fresco sob as flores noite adentro.

Friday, July 11, 2008

The Most Valuable Thing




Sozan, a Chinese Zen master, was asked by a student: "What is the most valuable thing in the world?"

The master replied: "The head of a dead cat."

"Why is the head of a dead cat the most valuable thing in the world?" inquired the student.

Sozan replied: "Because no one can name its price."

Sunday, June 08, 2008

Os Pássaros e Truffaut






Abrimos as janelas e os azuis revoam.

A cidade está agora embriagada em calmo frio
Num abraço sinto teu coração sobressaltado
de névoa cintilante qua as gaivotas deixam para trás.
Sonho que toco tuas mãos e as penas das aves
entre folhas de árvores espargem luzes ao Tempo.
E o Sol num instante acorda e toma seu cetro,
e desperta teu olhar que em tímido verde-escuro
passeia e percebe o silencioso movimento
de cenas e nossos amores desenhados em nanquim
Estes caminham pela sala, sentam-se e põem flores
nos vasos.

A cidade está imersa em seus desdéns.
Nós nos perdemos do Tempo, e isso nos dá direito
ao canto
como aos poetas cegos de outrora
era dada uma nova e profunda visão.
O céu nos responde com uma cantiga ao piano
que ingenuamente reverbera no azul, pálido
e este mar é somente meu e teu, os tolos se
esconderam.

As cenas, a corrida na ponte, o chalé no vale,
o turbilhão da vida, diante deles nos rimos
mas temo o Tempo por um instante, que temeroso
de nossa displiscência, nos tome e nos devore
como seus legítimos filhos, que ameaçam seu trono.
O tempo detesta as crianças, o Bastardo.

Eu te abraço e teu calor me conta
a história de um filme e bicicletas
e de crianças que também reinventam
seus amores e libertam pássaros
nas manhãs sem sol debruçados sobre o mar.

Lullaby, by W. H. Auden






Lay your sleeping head, my love,

Human on my faithless arm;

Time and fevers burn away

Individual beauty from

Thoughtful children, and the grave

Proves the child ephemeral:

But in my arms till break of day

Let the living creature lie,

Mortal, guilty, but to me

The entirely beautiful.



Soul and body have no bounds:

To lovers as they lie upon

Her tolerant enchanted slope

In their ordinary swoon,

Grave the vision Venus sends

Of supernatural sympathy,

Universal love and hope;

While an abstract insight wakes

Among the glaciers and the rocks

The hermit's carnal ecstasy.



Certainty, fidelity

On the stroke of midnight pass

Like vibrations of a bell

And fashionable madmen raise

Their pedantic boring cry:

Every farthing of the cost,

All the dreaded cards foretell,

Shall be paid, but from this night

Not a whisper, not a thought,

Not a kiss nor look be lost.



Beauty, midnight, vision dies:

Let the winds of dawn that blow

Softly round your dreaming head

Such a day of welcome show

Eye and knocking heart may bless,

Find our mortal world enough;

Noons of dryness find you fed

By the involuntary powers,

Nights of insult let you pass

Watched by every human love.

Thursday, May 08, 2008

Poema circunstancial

para N

Olhei em meus papéis em baús e guardados
sem importância, sem cuidados especiais,
e percebi que tenho negligenciado os símbolos
das coisas que passam como fantasmas suaves
entre árvores, com claras vestes e mantas,
com olhos semicerrados e sorrisos contidos.
Mas hoje não, hoje cuidarei deles
porque você me inspira, estendendo às minhas mãos
a taça com água límpida e pedras verdes no fundo do vidro.

Nos olhos uma ternura que sempre esteve na roda de ciranda
que estava na janela semi-aberta, no vaso de crisântemos
na lâmpada queimada, na xícara de cerâmica, no algodão da roupa.

Aquieto-me e olho teu rosto na meia-luz. Não estranho o verde
nem o perfil de quem me esperava no cais, desde que parti
não lembro mais quando. Há muitos anos, parece-me.

Nesse silêncio não procuro os caminhos mais complicados
como era de se esperar de alguém cujo coração
teme sua própria crosta vermelha e seus músculos brutos.

Fica aqui em meu colo o arranjo de plantas amorosas.
Fica também o adormecimento que sorri nos barcos de quem pesca
numa tarde como essa, num lago entre montes verdes, e dormita
e pesca e dormita e cantarola, e aspira e vê libélulas
que põem seus ovos sobre a face limpa da água violeta, e que se vão
antes que eu tenha tempo de edificar um pensamento sóbrio
para ordenar não no tempo, mas num espaço próprio, olhos, boca,
perfume, palavras, presença, sonhos instantâneos.

A lagoa e as libélulas, o perfume e o pequenos cantos entre lábios.
É esta a voz que me traz um sonho que tive em menina
e do qual lembro-me agora que as libélulas dançam no espelho.



Tuesday, April 29, 2008

H.D. Thoreau

"I once had a sparrow alight upon my shoulder for a moment, while I was hoeing in a village garden, and I felt that I was more distinguished by that circumstance that I should have been by any epaulet I could have worn."

Joni Mitchell - Woodstock

Sunday, April 27, 2008

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade)

Monday, April 14, 2008

Exit Music - Brad Mehldau Trio



Poema para o Fim de Um Filme

No breu enquadrado dizem adeus
o amor, os cantos, os carros,
Passamos e adormeceremos.
Desperta estarei para ver todos
os que acenam do cais para mim
E eu lhes acenarei
Até que a morte nos separe.

Thursday, April 10, 2008

Coeur qui soupire n'a pas ce qu'il désire


É, é ele mesmo.

As Ninfas



Mas entrar por um momento no reino que me é destinado
por natureza e adequação, o feminino branco e rosado
Atender à graciosa sinuosidade, à reservada afetação
ao gesto nu e musical que perfuma o espaço
com véus e cores suaves, e vozes moduladas

Queria pisar com os pés finos na relva fresca
do eterno desapego e dos sorrisos infantis
levemente tocado por uma divina sensualidade altiva
e livre, cantando os poemas mais arredios e colhendo flores
mal falando, apenas para libertar a verdade
de nossos corpos com canções inauditas.

Como as dançarinas de art-nouveau
e a bela Salomé, apaixonada e lancinante
ter razão sem precisar inclinar-me à vulgar
e masculina argumentação, ao palavrório
sem recorrer à Lei, à Lógica adolescente
à Ordem dos Sacerdotes descrentes, os homens
e seu eterno reino de sons bárbaros e gargalhadas atrozes
e negociatas e certezas de segunda classe
Um mundo emprestado de nós mesmos.

A fonte é fina e fria
O regato nos espera
As flores recurvam-se ao vento
Os sorrisos silenciosos no vento
O pão da eternidade sob
as cores e sabores das teias
de arte, volúpia e oração.

Wednesday, April 02, 2008

Musgo

O líquen cresce no tempo
Tempo que adormeceu nas pedras no alto da montanha
que olha para baixo anuviada, cheia de tédio
como se houvesse bebido Martini seco
O tempo é uma harmonia fundamental que se soergue
somente vez por outra quando as aves despertam
e as cigarras anunciam a vinda do calor sobre o rio.
O tempo não tem ganas
O tempo lê, compõe a canta.
As pedras em seus leitos amanhecem e morrem
O silêncio das gargantas e dos córregos dentro das grutas
As flores inevitáveis pelos caminhos
Aos sobreviventes, à sinfonia dos entes nos bosques úmidos
que espalham seus ramos e as praias que cedem femininas
às súplicas do eterno oceano
Uma cantiga de ninar.


Aristocracia legítima a dos salgueiros, ipês, mangueiras
a dos insetos, dos seres brutos que nascem e soçobram
na antiga morada, o deserto tomado por reis
famintos, reis inocentes
O deserto, a terra inteira de flores, amarílis, rosas, petúnias
e malignas orquídeas, bruxas inertes, e seus príncipes
acorrentados, os beija-flores furta-cor.
O gato se deita onde é barão
O pássaro perscruta onde é delfim
O rio avança onde é soberano.

A Visão

Como um gato
deitei-me e olhei para a escada
No nível da terra
é que se enxerga o mundo
o mundaréu como ele é
Como uma ave migratória
flutuei bem alto, e alto
nos céus das andorinhas doidas
é que enxerguei o mundaréu de doidos
e fogo, água e fumaça


De pé no chão não se enxerga
coisa alguma que valha pois
a vista fica embaçada pela névoa suja


Como um gato espreitei
a verde grama tão perfumada
Como abutre contemplei
de cima os cemitérios humanos


Só os sons guardei comigo
nas alturas fechei os sons da terra
no meu coração que entorna saudade


Grudada ao chão pus o ouvido
no seio do mundo e auscultei os trabalhos
no ventre do esquecimento.

Sunday, March 30, 2008

Pôr-do-sol eterno

Clique no título.
O sol de fato nunca se põe. Pode-se viver constantemente sob crepúsculos. Ah, bela vida a do crepúsculo. Assim deve ser a vida após a morte. Ela existe, e é um constante viver arrebóis.

Friday, March 28, 2008

Silence




(Thomas Hood)

There is a silence where hath been no sound,
There is a silence where no sound may be,
In the cold grave--under the deep, deep, sea,
Or in wide desert where no life is found,
Which hath been mute, and still must sleep profound;
No voice is hushed--no life treads silently,
But clouds and cloudy shadows wander free,
That never spoke, over the idle ground:
But in green ruins, in the desolate walls
Of antique palaces, where Man hath been,
Though the dun fox, or wild hyena, calls,
And owls, that flit continually between,
Shriek to the echo, and the low winds moan,
There the true Silence is, self-conscious and alone.

Convento

Nestes dias monásticos
de acalentar orações e cânticos
bebo licores de uva escondida
da Madre Superiora.

Nesta pobreza eremita
na pedra esquecida
aqueço na pequena bolsa de pano
os sons daquele que, escondida, amo.

Nos jardins noturnos
atrás do muro exterior
me posto em febre a ouvir
escondida, as cadenzas e grilos sob a lua.

Durante os rosários de mil dias
teço suspiros, escondida, em agonia
aos teus cabelos e olhos cheios de luz
mas a Madre pensa que é para o Menino Jesus.

Sunday, March 16, 2008

Mario Quintana - O Tempo

O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós,
[para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho
[paralítico a tocar a campainha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!


Porque elas, simplesmente, o ignoram...

Saturday, March 01, 2008

Pássaro que Fica ou Vai




Pássaro que fica ou vai
A dança permanece
Nos teus braços imaginários adormeço
sob asas delgadas eu esqueço

Você eu amarei sempre. A cada manhã
que as lâmpadas dos postes se apagarem
a cada entardecer em que as cigarras cantem
Não fujo, minha sina é ouvir teu solitário lamento

O som do riacho é a eternidade.
Sonhar teus cabelos minha canção.
A ave levanta seu vôo na verde escuridão
e deixa ilesas as nuvens apaixonadas.

Antes a morte levará minhas lembranças
e a velhice tomará do meu corpo a tensão do amor
mas isso nada leva embora, a poesia e a música
que tuas finas mãos lançaram a mim
como um falso casto véu púrpura perfumado de estupor.

Friday, February 29, 2008

Poema do Entendimento



Para se fazer musicista
precisa-se de grande intimidade
com o silêncio, a vasta tundra
o morno campo à beira-rio

Para se compreender as formas
e comerciar com as profusões
é indispensável estarmos atentos
à envoltória de silêncio
que veste qual cetim todo o entendimento

Uma placenta de miríades perfumadas
Uma galáxia de curvas e fenômenos
Um coquetel nauseante de sons e partituras
Para serem maternalmente contidos
no seio da silenciosa atitude
que curva levemente a espinha dorsal
japonesa, fina e lúcida como estudos
com lápis e um piano na noite embargada de anis.

Sunday, February 24, 2008

Poema de Cecilia Meireles

CÂNTICOS - Canto XII

"Não fales as palavras dos homens.
Palavras com vida humana.
Que nascem, que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas.
Vive em todos os tempos
Pela tua voz.
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-te para sempre.
Em todos os corações.
em todos os mundos."

Sunday, February 17, 2008

O Balão Amarelo

Veio flutuando lindo
no ar rosado do verão cansado
veio da grande mansão ao lado
onde os ricos abrem seus vinhos
borbulhantes rosés frescos
de tanta maravilha de vida
cheios de luz liberada nas bolhinhas
veio um balão dourado
caindo do céu pálido
na tarde antiga veio


Veio como um dom perdido
Do excesso que engorda os ricos
Os tesouros e alegrias aprisionadas
na muralha da mansão, as alegrias
incham o corpo, infelicidades
Os pobres canonizam a canção
e o ar que preenche o balão
O desejo é um esqueleto
que dança vago na sombra da plenitude


Veio um balão amarelo queimado
por sobre o grande muro da mansão rosé
Veio chateado da vida, enfarado da alegria
Veio sem desejo, indiferente à morte
Veio e caiu no pátio vermelho
Não há criança negrinha para tocá-lo
Quanta infelicidade entediada
infla o balão cheio de gás etílico

Friday, February 15, 2008

Vôo



E por este tempo
canta água no tormento
lilás momento
azul movimento
Dança de amor
vazio olor
espírito chama
o fogo proclama

Núcleo



Há a obscenidade no mundo
Que todos vêem, mas ninguém aponta
pois todos temem o Grande Desejo
O Grande Amor que destruirá todos os telhados
Ninguém grita à polícia, ninguém chama a Defesa Civil
para conter os braços da grande obscenidade
estrelada, escarlate, carnívora de almas pueris
A obscenidade tão inocente que deve-se esconder a face
diante dela, para que ela não se envergonhe e não core.
A obscenidade que deu à luz ao céu e canta inúmera.

Sunday, February 10, 2008

Poema para Chet




Embala-me lindo cantor
Que já perdi-me no pôr-do-sol
Já danei-me na escuridão
Vamos nos perder mais
entre estrelas
onde acordarei talvez
no paraíso dos danados
onde os demônios
colhem lírios.

De uma série: Madrugada

IV

Não durmo.
Não lamento.
Estou só e vou morrer.
Estou nua a correr
na neve, na chuva
na lama, no breu.

Não durmo,
não vigio as entradas
entram insetos que gritam
entrevoam luzes de pássaros
que já morreram.

Também vêm com o vento
da janela generosa
flores e perfumes
e gemidos de amor
e cantigas de mães.

Não durmo
e não falo
pois há que ser religioso
com as coisas da madrugada.

Thursday, February 07, 2008

Lou Salomé e Rilke




"Ouse, ouse... ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!"
Lou Salomé

"Vem!
Vamos profanar os templos
Onde se venera o medo
Para esculpir em nós
O monumento do amor
E uma escada ao Paraíso

Vamos voar nos sonhos
E zombar dos terrores
E delirar no deleite
Da unidade"
Rainer Maria Rilke

Thursday, January 31, 2008

Nuvem

Queria tornar-me frio de nuvens
Não o frio que olha através do cais triste para o horizonte
Não o frio do farol na ponta do rio contra o oceano
Mas sim o frio do frescor de quem chega e não parte mais
O vento que traz água de mares solitários
Para abrandar a violência de muitos calores preocupantes


Desejaria ter esta chance, e não ter que agradar a ninguém
Não precisar dizer as horas nem fazer provas para que professores
me recompensem com sorrisos de confiança
-- pois não quero que confiem em mim
Esqueçam-me, deixem-me entregue ao vinho e à guitarra
que alguém toca em outro apartamento



Para que tantas posições, tantos cargos, tantos números
Não há diferença entre dez e um bilhão
Uma estrela em si é esplendor suficiente para encantar
almas na eternidade aos pés de Deus
que está cansado de tanta fanfarrice,
se é que ele não é ateu.



Desejo tornar-me aquele rastro de nuvem azul-escura
Para roçar no telhado dos meninos lindos de cabelos pretos
que sonham com carros e grandes caçadas
e um dia escreverão poemas de amor tolos
Quero ser a nuvem que chega, não a que se vai para o horizonte
Como um desejo mal compreendido que não se satisfez.

Tuesday, January 29, 2008

A peça de jazz mais bela do mundo

'Round Midnight
(Thelonious Monk)

It begins to tell,
'round midnight, midnight.
I do pretty well, till after sundown,
Suppertime I'm feelin' sad;
But it really gets bad,
'round midnight.

Memories always start 'round midnight
Haven't got the heart to stand those memories,
When my heart is still with you,
And ol' midnight knows it, too.
When a quarrel we had needs mending,
Does it mean that our love is ending.
Darlin' I need you, lately I find
You're out of my heart,
And I'm out of my mind.

Let our hearts take wings'
'round midnight, midnight
Let the angels sing,
for your returning.
Till our love is safe and sound.
And old midnight comes around.
Feelin' sad,
really gets bad
Round, Round, Round Midnight

'Round Midnight - Wes Montgomery

Mais 'Round Midnight - Cassandra Wilson

Obsessão por 'Round Midnight - Miles e cia

Monday, January 28, 2008

Proparoxítonos

Secos álamos
Ermos plátanos
Turvos cálamos
Vivos ábacos


Canto úmido
Choro túrgido
Grito híbrido
Sono cúpido


Música bêbada
Bêbada tórrida
Tórridos ímpetos
Ímpetos ácidos

Secos álamos

Aos Infiéis

aos infiéis
a espada
aos ímpios
a maldição

aos que derramam
o óleo sagrado
no chão da rua
e não tiram os sapatos
no templo branco
a espada

aos infiéis
a danação eterna
aos que se despejam
lentos sedentos obscenos
sobre a urna
a espada casta
sem misericórdia

aos infiéis
a noite sem lua

Flores - Meet the Flowers

Meet my daffodil
Eat that daisy for breakfast
Breathe those heathers
in thru your dandelions

Observe minhas acácias
Beba meus licores de rosas
Lute com suas tulipas
Por melhores papoulas

Vista vitórias-régias estendidas
Como lençóis bordados de marias-sem-vergonha
Estude azaléias
E gradue-se copos-de-leite
Deite-se jacintos e desperte estrelítzia.

Earn some carnations
Kiss your lily
Bring back your poppy home
Smile your buttercup to me

Morra seus amarílis
Viva seus girassóis

Work your magnolia
Turn your orchid off

Reze lírios a Deus
Pague jasmins ao Demônio
Meet the Flowers on the subway train.

Inspirado em V. Williams

And So Leaves The Bird

wild, wild and high
so high it is

become adult
precisely
and the wind
plays in the woods
lonesome flies

wild and tight
in the limit of fire
in the circle of fire
hungry tiger wild
among the trees
nonstop, falls
with the leaves

wild, and wild comes
the strengthening absence

cool, no remembrances
in the night that is wild
for the day will not be mild
any longer, my friends

wild, cool and far
the city from the star
bright and wild
and colorless mild

due to “The Lark Ascending”, poem by G. Meredith and music by V. Williams

Saturday, January 26, 2008

Poema para um carioca

A beleza me afeta profundamente solene
Como a brisa que tange as cordas de uma guitarra
Quente e fria, aterradora e lânguida
Traz um perfume no silêncio da noite e desperta-me

A beleza que traz consigo o ardor de não saber
A beleza pérfida ou menina que corre na chuva
Beleza densa na praia, que caminha inconsciente
Como música de roda que as meninas vão entoando

Beleza, afasta-te de mim, deixa-me
Nada fiz contra ti, ao contrário, eu te canto,
Eu que sou namoradeira e vítima da beleza
Façamos um pacto: deixa os meninos a sós nas praias
Abandone-os, senão terei que apelar para a bruxaria.

Thursday, January 24, 2008

Ventando

Como vento rápido, brisa matinal
Veio e desalinhou meus cabelos
Veio e foi-se a brisa, brincando ainda
Com meu vestido de moça triste


Como ventania que se acerca matreiro
das flores mal nascidas de pequeninas corolas
Veio e foi-se lançando ainda um olhar de saudade
Foi-se a brincar no meio do mundo com as folhas do pensamento


Valsando vestidos azuis e cartas voando
ao cemitério de anjinhos prematuros
Vai-se o diabólico vento alçando cantorias
Como veio semeando desejos antigos numa nave de não-sei-quê.

Doçura natimorta pela bruta poeira do dia.

Tuesday, January 22, 2008

Introducing the famous Mr. Escher

"I don't use drugs, my dreams are frightening enough."

Saturday, January 12, 2008

Poema curto

Quero um poema curto
para meus amigos cantarem
num luau, beira-mar, no leito
quero um poema curto
como uma canção de ninar
para o meu amor do futuro
lembar-se de mim
na rua, no mercado, no ônibus

Poema curto, nao me atraiçoes
Canta para mim, acaricia
meus cabelos molhados
beija meus olhos fechados
Poema curto, adormece no seio
poema curto, assobia no escuro da mata.

Friday, January 11, 2008

Última Hora

Silenciemos, amigos.
Nus, estamos sob o julgamento
da fria grande lua.
Nus, somos prisioneiros
apenas do deus-sol.
Sejamos serenos
à hora da execução
Que me deram direito
a uns goles de vinho
e estou entregue
à paz dos videntes cegos
dos amantes sem consolo
dos criminosos sem perdão.

Cecília Meireles, vidente, artista

Canção de alta noite


Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

Autor: Cecília Meireles

Tuesday, January 08, 2008

Poema de Adélia Prado

O amor no éter

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Chet em arte - mais em http://www.chetbaker.net/

Sunday, January 06, 2008

Lamento

mundo dos machos da espécie
mundo de jogos e argumentos
mundo de juízes e homens sérios
mundo cão

mundo onde pisam nas putas depois do abuso
mundo de papéis vulgares e frases feitas
mundo dos machos
mundo político, mundo dos gráficos
mundo das tabelas, mundo do mercado

mundo cheio de olheiras
mundo que não dormiu
mundo que não amou
mundo que bebeu café demais
mundo que se entupiu de leis e cárceres

e vozes imponentes violando a verdade
verdade quase nua com fino véu
verdade de pudor de menina
verdade com voz sussurrada no vento
verdade com útero e sem baionetas

mundo de misérias e berros
mundo de mijos contra os muros pichados
mundo de desejos reprimidos
em favor da maior potência
e do inchaço da pança da intelligentsia

jogos de videogames de meninos
jogos de cartas, contratos sociais
mundo de fumo e dentes amarelos
mundo funcional dos machos reprimidos
mundo cão, mundo-pistola, mundo fálico

Wednesday, January 02, 2008

Afinal

Meus poemas são todos iguais
Tem os grilos, as flores e os rios
o vento e a floresta, a montanha e tudo mais
Já cansei deles, não dos seres que habitam lá
mas das odes que escrevo, das quais eles não precisam.
Também não vou ser útil e começar a escrever
sobre os sérios infortúnios do mundo
os atentados, os assassínios, as fomes e os canalhas
Porque eu não sei escrevê-los, só odiá-los.
No final não sei mais o que escrever.
Meu cansaço me dá dá uma dor na cervical.
Não obstante, ouço um som na noite, um som de breu.

Monday, December 31, 2007

Jardim secreto

É ano novo, ano que vem
vem com o vento ventando estrelas
ventando dissabores, cores, solidões
Ano que vem, dia que vai
o mar vai cantando seu samba-canção
o sol vai tecendo flores nos corpos
o chão vai fermentando o verão.

Ano novo, borbulham na taça
meus poemas pra te dar
minhas flores de Iemanjá.

Caminhando mundo adentro, dezembro!

Tuesday, December 25, 2007

Poema de W.H. Auden

The More Loving One
by W. H. Auden

Looking up at the stars, I know quite well

That, for all they care, I can go to hell,

But on earth indifference is the least

We have to dread from man or beast.



How should we like it were stars to burn

With a passion for us we could not return?

If equal affection cannot be,

Let the more loving one be me.



Admirer as I think I am

Of stars that do not give a damn,

I cannot, now I see them, say

I missed one terribly all day.



Were all stars to disappear or die,

I should learn to look at an empty sky

And feel its total dark sublime,

Though this might take me a little time.

Friday, December 14, 2007

La casada infiel, de Garcia Lorca - magnânimo

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
-

Fue la noche de Santiago
y casi por compromiso.
Se apagaron los faroles
y se encendieron los grillos.
-

En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
-

El almidón de su enagua
me sonaba en el oído,
como una pieza de seda
rasgada por diez cuchillos.
-

Sin luz de plata en sus copas
los árboles han crecido,
y un horizonte de perros
ladra muy lejos del río.
-

Pasadas las zarzamoras,
los juncos y los espinos,
bajo su mata de pelo
hice un hoyo sobre el limo.
-

Yo me quite la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
-

Ni nardos ni caracolas
tienen el cutis tan fino,
ni los cristales con luna
relumbran con ese brillo.
-

Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre,
la mitad llenos de frío.
-

Aquella noche corrí
el mejor de los caminos,
montando en potra de nácar
sin bridas y sin estribos.
-

No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
-

Sucia de besos y arena,
yo me la llevé del río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.
-

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
Le regalé un costurero
grande, de raso pajizo,
-

y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

Monday, November 19, 2007

O poema é para os sem vez

Pudor

O canto da poesia não foi designado
aos belos deuses das esferas antiquadas
Nem aos belos corpos anacrônicos
dos ricos entediados, nem aos poderosos
armados, amargos, brutais, portentosos
que caminham sobre o mundo com
suas naves de mil janelas, grandes aves
Brutas aves gordas prontas para o abate.

O canto geral da poesia é para as joaninhas e os gatos
É para os sem voz, os condenados, os moribundos
A poesia é feita para os marginais sem mães,
as putas com seus filhos famintos, seus amores partidos,
é para os cegos, os esquizofrênicos
O canto geral é para os trabalhadores
ignorantes das marinas, das estivas.

O canto foi feito não para enaltecer
os egos de vaidosos spallas ou
arrogantes diretores de orquestra
Ou de políticos risonhos com suas mulheres
de vestidos longos, soirées cheirando a vinho
Nem para adornar o ventre
de princesas de cílios movediços

O canto foi feito para os pés rachados
dos sem-terra que aram e bradam e caminham
por essas sangrentas terras de meu Deus.
O canto foi feito para os pequenos artistas
mestres com seus jardins interiores
sem um centavo no bolso e amores perdidos
O canto foi feito para quem está nu.

O poema foi feito para os enjeitados,
as crianças de cinco anos
os suicidas que morrem de amor
Os rebeldes que já não têm nada a perder.
O canto não foi feito para vocês.

Sunday, November 18, 2007

Sshhhh...

"Não se pode machucar o silêncio, que é sagrado."
João Gilberto

Saturday, November 17, 2007

Hardy, o dândi da Matemática

The mathematician's patterns, like the painter's or the poet's must be beautiful; the ideas, like the colors or the words must fit together in a harmonious way. Beauty is the first test: there is no permanent place in this world for ugly mathematics.
A Mathematician's Apology, London, Cambridge University Press, 1941.

A Pureza de Ideais de Hilbert

Mathematics knows no races or geographic boundaries; for mathematics, the cultural world is one country.
In H. Eves Mathematical Circles Squared, Boston: Prindle, Weber and Schmidt, 1972.

O Humor de Leonard Euler

[upon losing the use of his right eye]
Now I will have less distraction.
In H. Eves In Mathematical Circles, Boston: Prindle, Weber and Schmidt, 1969.

Monday, November 12, 2007

Les Amants d'Un Jour, chanson de Piaf

Moi j'essuie les verres
Au fond du café
J'ai bien trop à faire
Pour pouvoir rêver
Mais dans ce décor
Banal à pleurer
Il me semble encore
Les voir arriver...

Ils sont arrivés
Se tenant par la main
L'air émerveillé
De deux chérubins
Portant le soleil
Ils ont demandé
D'une voix tranquille
Un toit pour s'aimer
Au coeur de la ville
Et je me rappelle
Qu'ils ont regardé
D'un air attendri
La chambre d'hôtel
Au papier jauni
Et quand j'ai fermé
La porte sur eux
Y'avait tant de soleil
Au fond de leurs yeux
Que ça m'a fait mal,
Que ça m'a fait mal...

Moi, j'essuie les verres
Au fond du café
J'ai bien trop à faire
Pour pouvoir rêver
Mais dans ce décor
Banal à pleurer
C'est corps contre corps
Qu'on les a trouvés...

On les a trouvés
Se tenant par la main
Les yeux fermés
Vers d'autres matins
Remplis de soleil
On les a couchés
Unis et tranquilles
Dans un lit creusé
Au coeur de la ville
Et je me rappelle
Avoir refermé
Dans le petit jour
La chambre d'hôtel
Des amants d'un jour
Mais ils m'ont planté
Tout au fond du cour
Un goût de leur soleil
Et tant de couleurs
Que ça m'a fait mal,
Que ça m'a fait mal...

Moi j'essuie les verres
Au fond du café
J'ai bien trop à faire
Pour pouvoir rêver
Mais dans ce décor
Banal à pleurer
Y'a toujours dehors...
... La chambre à louer...

Sunday, November 11, 2007

Khalil Gibran

“When you work you are a flute through whose heart the whispering of the hours turns to music. Which of you would be a reed, dumb and silent, when all else sings together in unison?”

Thursday, November 01, 2007

Laranjeiras na Chuva

As Luzes de Laranjeiras Quando Chove


Deus lacrimeja suas pratas entorpecidas.

Sinto o perfume da rua das Laranjeiras
e as árvores que murmurejam cores e um verde-claro
que é pizzicato que é de semifusas infantis
crianças perfumadas de pérolas que brincam na fresca noite
de chuva e lua na rua que vai dar no Cosme Velho.

Crianças com asas brilhantes
com seus brancos peitos arfantes
e seus olhos errantes
negros do escuro e preenchidos de estrelas
Crianças pálidas, azuis, douradas, prata
que flutuam fadas trites na rua de carros anis

Crianças atrás dos véus que são as folhas das paineiras
Sob a condescendência do Cristo e minhas lágrimas
de mulher apaixonada e criança que a infância tardou

chuva de Laranjeiras
Ouro entre as folhas escuras
Prata em intervalos diminutos e tons maiores
entre as copas principescas das árvores altas.

Quando chove em Laranjeiras
Sinos pequeninos que giram no ar são ouvidos
com o ouvido dos sonhos
com o silenciar dos desejos
com o desprendimento da alma
dado pela leve tristeza sábia
conferida pelos anos de delicadeza
e uma idade avançada.

Quando chove em Laranjeiras
ouço o repicar, o tilintar, o fecundar das luzes verdes
que em árias soltas e frias soltam suas vozinhas.
Veja seus cabelos de Órion, e Betelgeuse casta
no solitário suave céu de Laranjeiras
Cosme Velho, onde minhas estrelas adormecem frias e amorosas.

Feliz Dia de Finados

Tuesday, October 30, 2007

Sonata "O instrumento do Diabo"

I.
Você é meu reinado de estultícies
A esfinge que soberba se ergue em meu país
O silêncio masculino que massacra a casta razão
Você é minha floresta de horrores inauditos e belas górgonas.

II.
Vinho, dá-me com tua palidez espumante, a leveza
Dá-me o desprendimento, dá-me paz.
Meu coração é uma montanha de inconsistência
e desejos insaciados pelo silêncio do homem que amei.

III.
Uma vez uma cigana me disse:
dedica-te aos mistérios do mundo.
Minha profissão, minha hora, meu reino
é o de te amar, e auscultar nuvens anis.

Monday, October 29, 2007

29 de outubro

29 de outubro

dia azul e os carros violam rios
dia claro que corta o desvario

dia de lembrar, recoradação e consciência
são doces irmãs fiéis que dançam na chuva

a canção que canto não me ensinaram
aprendi com as cigarras tristes os grilos irritados

não me ensinaram a amar, por isso me embriago
bebo meu drinque, e me ponho a correr pelas alamedas

dia do renascimento, sempre-viva a flor descrente
viva aqui estou, apenas gestos no espaço, um dia desvanecidos

cantos e palavras e gestos, somos a forma, o conteúdo é a linha
fina arte que representa, máscara que dança sem líquidos interiores

sem substância que não o vestido, os deuses caminham e dançam
a luz toca um alaúde que é uma miríade cromática, palheta andante

os carros cortam o desvario e bombardeiam espíritos
covas profundas esperam pelas almas dos poetas e das libélulas

enquanto jovens, jogamos facilmente com as formas emotivas
e as luzes cegam o entardecer que poderia ser sombrio

mais uma madrugada de bruxas e luzes incandescentes
tenho medo, e escrevo para que elas não me devorem

temo tudo, e adormeço num carrossel de lembranças
e inconsciência é a ordem da noite, e dos dias, e dos crepúsculos

adormeço com meu amor no coração, e a morte nos olhos
e água nos cabelos, e fogo nos olhos, e ar nos sonhos

espero um despertar de hortelãs e passacaglias
e rondós e calmas luzes, onde estarei de branco, e uma viola.

O mundo é um palco - Shakespeare

All the world's a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms.
And then the whining school-boy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lined,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper'd pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side,
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank; and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

Friday, October 26, 2007

Anoushka

Uma gigante negra borboleta
dançou atormentada à minha janela
enquanto as cigarras vadias
entoavam as velhas madrigais
e monstruosas estrelas tensas
nasciam no céu de outubro.

A música que ouço não é deste mundo.
E tocas, divina Anoushka,
tocas tua cítara, e bebo meus anis.

O doce feminino toca
os fios da teia feminina.
Uma flor no verão
alimentada pela chuva-madre
que desce a encosta sem alarde.
A inteligência da lince
encontra a leveza do beija-flor.

Divina Anoushka,
toca a infinitude para o meu coração.

Sunday, October 21, 2007

Tagore e Lalla


Lalla, poetisa sufi

Let them jeer or cheer me;
Let anybody say what he likes;
Let good persons worship me with flowers;
What can any one of them gain I being pure?


If the world talks ill of me
My heart shall harbour no ill-will:
If am a true worshipper of God
Can ashes leave a stain on a mirror?

Rabindranath Tagore, poeta indiano

BEAUTY

Beauty is truth's smile
when she beholds her own face in
a perfect mirror.


Beauty is truth's smile
when she beholds her own face in a perfect mirror.


Beauty is in the ideal of perfect harmony
which is in the universal being;
truth the perfect comprehension of the universal mind.

Friday, October 12, 2007

Quando eu morrer leiam no meu velório

Shall I Compare Thee To A Summer's Day?

by William Shakespeare (1564-1616)


Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date.
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature's changing course untrimm'd;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

Thursday, October 11, 2007

Wednesday, October 10, 2007

La verité

Um martini seco
e um adeus
Um espumante
e um louvadeus
Cerveja de trigo
e uma bicicleta que passa
esquecendo o tempo antigo
Fico com o gelo
no martini
e os livros de Álgebra
que zombam das bebidas
sobre a mesa.
Muita solidão divina
ri da covardia
fresca em 18% de álcool.

Tuesday, August 21, 2007

Conjectura bastarda

Isso lhe dói
ao olhar no espelho
a plena constatação
da idiotice de sair
da própria natureza
à caça de ilusão.

Seria ela tão plana?,
pergunta-se, e não sei
se a resposta existe
pois não é claro
que a pergunta esteja
bem formulada.
Os problemas em aberto
são com freqüência
apenas questões
propostas por crianças
matematicamente
mal alfabetizadas.

Se as roupas não fossem
o que outros débeis gostos houvessem decidido
sua natureza estaria satisfeita
com longos andrajos
de rainha destronada
pois parece-me que é isto
que sua natureza determina.
Daqui em diante não mais
andará à cata dos sorrisos
e aplausos da pobre e ignara multidão.

Antes ser rainha nua no deserto
tórridas areias neves febris
que ser objeto de elucubrações mal formuladas
e assunto mal compreendido mal comentado
mal amado malquisto, mas elogiado por autistas
retardadas vis desatentas mentes lentas
famintos, ou antes gulosos, corações
sensuais e temíveis mesmo nos profundos
corredores da Academia – prefira
a indiferença gigante da silenciosa montanha
dos claros e frios lagos, dos quentes vulcões
dos altos mares – deuses, deuses esbeltos
deuses fatais: tenham piedade de vossa humilde
devota, pássaro perdido na minúscula sala
na fumegante cozinha dos risonhos e anuviados.

Seus sapatos são de folhas
Seu vestido é de sonatas.

Love love love

choro inteira
sofro por toda a humanidade
transparente, um copo d'água
transbordo e na chuva ninguém vê
a transparência sufocada de amor
a película túrgida e límpida de dor

sofro sem esforço
gratuita e livremente
com a fronte coroada de estrelas tristonhas
como uma rainha derrotada

uma flor azul desabrocho no frio
oferecendo aos transeuntes
e ao vento minha florescência dolorida
meu desabrochar de lágrimas fáceis
como oferece ao mundo graciosamente
a roseira suas ainda macias pétalas moribundas
e a paineira no outono suas folhas ressequidas

ofereço a vocês todos
minha tristeza em taças
e minha paixão insólita
ofereço meu pranto
como uma espada
que o vencido
estende ao vencedor
leve menear de cabeça
e um sorriso de muitas eras
ofereço a todos
e adormeço possuída
amorosamente
por um desqualificado vinho.

Dança

só existe o amor
o amante já se desfez
só existe o caminhar
não o caminhante
só há o comer
e não o que come
só pode haver o movimento
mas não o rio em si

há apenas o cantar
não pode haver cantor
quando existe, somente a música
não o músico, atrás da luz
como o sol atrás de seu brilho
só existe a dança
não o dançarino

estes fatos
são evidentes
por si próprios
quem não pode ver?

só pode haver o amar
não existe alguém que ame
só pode har o estender-se
e não a mão que se entrega
só existe o correr
mas não pode existit um corredor

quem não vê estas coisas
ainda não entendeu
que só existem as ondas
o vento e o cair de chuvas
e movimento no mundo
não há aquilo que se move
por si mesmo

sou o beber essa taça
sou o sonhar com montanhas
sou o escrever e o chorar
sou o querer e o cantar
não há qualquer ator em cena

portanto ao descerem as cortinas
silêncio em meu funeral, saiam do teatro
graciosamente com a consciência
de nunca ninguém terem visto.

Tuesday, August 07, 2007

July

See the cold and loveless
that blackbird
on the very edge
of the highest branch
early in the winter
morning light?

Feel the cold, frozen skin
sweet handkerchief
on a fiery broken heart
beneath the cold
moonlit satin water
down the frozen lake
terrifying monsters
gladly swim awake

Hear the cold and high
the loveless wind
unmercifully blows the stones
off the wall of the hills
far in the lonely field
hidden in a dark green
valley of oaks and vineyards
there the blackbird
no singing, and the wind is blown

Notice the cold cold and fiery arms
cold eyes of crying hard
far music from cold mermaids
cold sea, bright morning light
like a blade cuts the long day.

Kaos poem - for scientists

Kaos
Wir werden wissen. – David Hilbert

See? This foggy mess
dances around my neck
all the sounds from the wood
driving me mad
all these green and silver lights
silently making me blind

as a scientist
I'm supposed to keep track
of the monsters, humanize the ghosts
civilize into ideas
the wildest scents, the scary mermaid chants
into a theory, on the score

there is no survival
in the middle of hysterical flowers
among the colorful birds
in the smoke of herbal cigarettes
the freedom of wine and night
in the deep madness of love

It is a choice given
by terrible but compassionate gods
living above the misty eternity:
being eternal with the oceans
or calm peasants plowing
taming the lions, but not attached
to these small understandings.

Gracefully writing in the sand
but surrendering our books
to the white foam of waves.

Singing,
but playing as dolphins.
Princes in the monstrous
kingdom of blue.

Wednesday, April 04, 2007

Bilhete Para o Lado de Lá

Não te desvia
nem para ver flores
não vira tua cabeça
para ouvir a música
que alicia as crianças

Bebe teu café
enche tua garrafa
e calça teus sapatos
lá fora só há noite
e o dia é longo

Não sorri aos palhaços
nem senta nas trilhas
não desvia teus olhos
para ver como falam
os outros homens.

Lá fora tudo é breu
na rua o dia é longo
a turba se agita
e os ventos transitam.

Pai Nosso em Álgebra Associativa

Pai Nosso que, estando em todo lugar, em particular está no Céu: santificado seja, para todo k que pertence a N, Vosso k-ésimo nome. Seja feita Vossa n-ésima vontade para n em N, na Terra e analogamente no Céu. Considerai Di o conjunto dos dias terrenos da vida de um indivíduo fixo i, P o conjunto dos pães, que a função Φ: P→ Di seja sobrejetiva. Como fingimos perdoar a quem nos tenha ofendido qtp, perdoai isomorficamente nossas ofensas no lugar daqueles a quem ofendemos. Não nos deixeis cair em tentação e se M é a classe de equivalência dos males, seja que o conjunto Eid dos eventos em um dia d de um indivíduo i e M tenham interseção 0, já que ambos são anéis. De fato se m e n estão em M, m+n é a ocorrência de ambos os males em paralelo num mesmo disco de raio r,onde r é o fator de percepção da passagem do tempo, que é dependente de i. O produto é definido como a ocorrência em série destes males. É um exercício mostrar a comutatividade da soma e a asociatividade do produto. O elemento simétrico é um bem, pois é fácil ver que o conjunto dos bens está contido em M. Ver no Journal of Lollipops and Karamels num artigo em colaboração com X, vol y, pp k-t, que o elemento neutro de M pode ser identificado com o elemento neutro de Eid. Qed. Amén.

Indução

Indução ao Álcool

Para n0, vale o vinho.
Estamos feitos – redemoinho.
Tome k < n copos
teor crescente de álcool arisco
cerveja, aguardente e pisco.
Bebe mais uma taça de whisky ou licor
pêssego, laranja num copo de dor
Derrama nos k copos esse pronto horror
Pela hipótese de indução já és bêbado
Assim na n-ésima dose idólatra
prova-te alcoólatra.

Friday, March 30, 2007

tempo & tempo

É o tempo da vinha
É o tempo do silêncio
Guardem seus tesouros
e adormeçam nos braços
de seus amores.
É o tempo de estender a vela.
Trombetas de anjos impiedosos
ouço nas montanhas.
É o tempo das caças,
a hibernação finda.
É o tempo do verão
e dos barcos da Rainha.
É o tempo da vinha.

Saturday, March 10, 2007

Cosme Velho, poema de chegada

 Cosme Velho

Hoje amplo vento
Ontem um tormento.

Pão e leite que adormecem
quentes à nossa mesa.
No céu estrelas giram lentas
- e loucas, nadam em escuro.

Hoje, a selvagem calma.
Hoje, guargem seus tesouros
- pois o mundo é maligno.
Guardem seus tesouros
- há neblina e intriga.

Na rua, a divindade caminha.
No ar, pisa o pé bailarino
Na água, flutua o embrião
da ingenuidade e da solidão.

Guardem seus tesouros
e não se envergonhem de sua nudez
- pois eles se esconderam
e o anjo lhes apontou a saída do Éden
- nus e tristes.

Guardem seus tesouros
O anjo vingador está embaixo
na orla dos homens maus.
Não temam seus amores
Abençoados serão os puros
Eleitos serão os intolerantes.

- Guardem-se sob o céu negro
e estrelas entoarão seus mantras.
Sorvam apenas a última essência
o mais fino tanino
e adormeçam num silêncio
de altar e orem
em sonhos de gardênias nuas.

Wednesday, January 31, 2007

Os Elementos

1. Terra

mergulha o corpo
nos gomos da água
que, maduras, as flores
cantarão seus hinos agridoces.

2. Fogo

voam nos céus de janeiro
os pássaros da revolução
A cada manhã, um destino
A cada noite, uma canção

3. Água

estamos soltos no meio do Nada
e em caixas de chuva, giramos lentos.
Entretanto, os peixes no claro oceano
são as folhas soltas do pensamento.

4. Ar

os espíritos estão à volta
orações ouvidas no nevoeiro
Nada muda neste universo inteiro
pois bebo café no fresco janeiro.

Wednesday, January 03, 2007

Ipanema

Afinal, sou uma feiticeira
que produz poções fatais.
Mas duendes e flores brancas
que já não passam de espuma.

Tua presença nas folhas
de alegre deus no vento
não era mais do que
minha própria divindade
espraiada no mundo.
Eu mesma era quem dançava
nas gotas frescas de chuva.

Espuma, luz de crepúsculo,
cascas de nozes e taças vazias.
Pobre musa, que envelhece
e vira bruma...
Agora de teu corpo
quero apenas os de outros,
e outros frutos,
e sementes roxas
de romãs tensas de água.
Quero as tardes alheias.

Sou o perigo do Deus criador.
Sou Brahma que explode cogumelos
tingidos no meio do vale
e Shiva que pisa no vinho mortal.
Sou a dança destruidora.

Musa, te deixo na estrada.
Encontrarás quem te ame
os pés inchados e o ventre infame.
Só amo os belos.
Só amo os imortais.
Musa, da onda da minha paixão
és agora inerte e fria espuma.

Os Cem Dias

Após cem dias
vejo a luz
O círculo antártico
morre em anagramas
de gelo maligno.
Após cem dias
o cárcere se afasta
Cem dias passei inerte
no escuro solene
em agonia ardente
Cem dias revolvi
a grama seca
as cascas de nozes, vazias
Cem dias suguei
o leite triste e dúbio
das esferas desérticas.
Cem dias procurando
pelo caixeiro-viajante
e suas caixas de amoras
e uvas vermelhas.
Cem dias de uivos
Cem dias de brancura.
Após a longa expiação
surge a estrela
alta na manhã dourada.
Surge a primeira
razão alta na madrugada.
Após cem dias
estou livre
e eis o mar.