Monday, September 01, 2008

Sunday, August 24, 2008

A Noite - Ciranda

Se é silêncio, sonhamos com chuvas.
Se é de tormento, encolhemos no leito
e imploramos pelo licor do amor.
Se é insone, estamos alertas e vive o pesadelo.
Se é silêncio novamente, desce o fluxo do rio
fresco sob as flores noite adentro.

Friday, July 11, 2008

The Most Valuable Thing




Sozan, a Chinese Zen master, was asked by a student: "What is the most valuable thing in the world?"

The master replied: "The head of a dead cat."

"Why is the head of a dead cat the most valuable thing in the world?" inquired the student.

Sozan replied: "Because no one can name its price."

Sunday, June 08, 2008

Os Pássaros e Truffaut






Abrimos as janelas e os azuis revoam.

A cidade está agora embriagada em calmo frio
Num abraço sinto teu coração sobressaltado
de névoa cintilante qua as gaivotas deixam para trás.
Sonho que toco tuas mãos e as penas das aves
entre folhas de árvores espargem luzes ao Tempo.
E o Sol num instante acorda e toma seu cetro,
e desperta teu olhar que em tímido verde-escuro
passeia e percebe o silencioso movimento
de cenas e nossos amores desenhados em nanquim
Estes caminham pela sala, sentam-se e põem flores
nos vasos.

A cidade está imersa em seus desdéns.
Nós nos perdemos do Tempo, e isso nos dá direito
ao canto
como aos poetas cegos de outrora
era dada uma nova e profunda visão.
O céu nos responde com uma cantiga ao piano
que ingenuamente reverbera no azul, pálido
e este mar é somente meu e teu, os tolos se
esconderam.

As cenas, a corrida na ponte, o chalé no vale,
o turbilhão da vida, diante deles nos rimos
mas temo o Tempo por um instante, que temeroso
de nossa displiscência, nos tome e nos devore
como seus legítimos filhos, que ameaçam seu trono.
O tempo detesta as crianças, o Bastardo.

Eu te abraço e teu calor me conta
a história de um filme e bicicletas
e de crianças que também reinventam
seus amores e libertam pássaros
nas manhãs sem sol debruçados sobre o mar.

Lullaby, by W. H. Auden






Lay your sleeping head, my love,

Human on my faithless arm;

Time and fevers burn away

Individual beauty from

Thoughtful children, and the grave

Proves the child ephemeral:

But in my arms till break of day

Let the living creature lie,

Mortal, guilty, but to me

The entirely beautiful.



Soul and body have no bounds:

To lovers as they lie upon

Her tolerant enchanted slope

In their ordinary swoon,

Grave the vision Venus sends

Of supernatural sympathy,

Universal love and hope;

While an abstract insight wakes

Among the glaciers and the rocks

The hermit's carnal ecstasy.



Certainty, fidelity

On the stroke of midnight pass

Like vibrations of a bell

And fashionable madmen raise

Their pedantic boring cry:

Every farthing of the cost,

All the dreaded cards foretell,

Shall be paid, but from this night

Not a whisper, not a thought,

Not a kiss nor look be lost.



Beauty, midnight, vision dies:

Let the winds of dawn that blow

Softly round your dreaming head

Such a day of welcome show

Eye and knocking heart may bless,

Find our mortal world enough;

Noons of dryness find you fed

By the involuntary powers,

Nights of insult let you pass

Watched by every human love.

Thursday, May 08, 2008

Poema circunstancial

para N

Olhei em meus papéis em baús e guardados
sem importância, sem cuidados especiais,
e percebi que tenho negligenciado os símbolos
das coisas que passam como fantasmas suaves
entre árvores, com claras vestes e mantas,
com olhos semicerrados e sorrisos contidos.
Mas hoje não, hoje cuidarei deles
porque você me inspira, estendendo às minhas mãos
a taça com água límpida e pedras verdes no fundo do vidro.

Nos olhos uma ternura que sempre esteve na roda de ciranda
que estava na janela semi-aberta, no vaso de crisântemos
na lâmpada queimada, na xícara de cerâmica, no algodão da roupa.

Aquieto-me e olho teu rosto na meia-luz. Não estranho o verde
nem o perfil de quem me esperava no cais, desde que parti
não lembro mais quando. Há muitos anos, parece-me.

Nesse silêncio não procuro os caminhos mais complicados
como era de se esperar de alguém cujo coração
teme sua própria crosta vermelha e seus músculos brutos.

Fica aqui em meu colo o arranjo de plantas amorosas.
Fica também o adormecimento que sorri nos barcos de quem pesca
numa tarde como essa, num lago entre montes verdes, e dormita
e pesca e dormita e cantarola, e aspira e vê libélulas
que põem seus ovos sobre a face limpa da água violeta, e que se vão
antes que eu tenha tempo de edificar um pensamento sóbrio
para ordenar não no tempo, mas num espaço próprio, olhos, boca,
perfume, palavras, presença, sonhos instantâneos.

A lagoa e as libélulas, o perfume e o pequenos cantos entre lábios.
É esta a voz que me traz um sonho que tive em menina
e do qual lembro-me agora que as libélulas dançam no espelho.



Tuesday, April 29, 2008

H.D. Thoreau

"I once had a sparrow alight upon my shoulder for a moment, while I was hoeing in a village garden, and I felt that I was more distinguished by that circumstance that I should have been by any epaulet I could have worn."

Joni Mitchell - Woodstock

Sunday, April 27, 2008

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade)

Monday, April 14, 2008

Exit Music - Brad Mehldau Trio



Poema para o Fim de Um Filme

No breu enquadrado dizem adeus
o amor, os cantos, os carros,
Passamos e adormeceremos.
Desperta estarei para ver todos
os que acenam do cais para mim
E eu lhes acenarei
Até que a morte nos separe.

Thursday, April 10, 2008

Coeur qui soupire n'a pas ce qu'il désire


É, é ele mesmo.

As Ninfas



Mas entrar por um momento no reino que me é destinado
por natureza e adequação, o feminino branco e rosado
Atender à graciosa sinuosidade, à reservada afetação
ao gesto nu e musical que perfuma o espaço
com véus e cores suaves, e vozes moduladas

Queria pisar com os pés finos na relva fresca
do eterno desapego e dos sorrisos infantis
levemente tocado por uma divina sensualidade altiva
e livre, cantando os poemas mais arredios e colhendo flores
mal falando, apenas para libertar a verdade
de nossos corpos com canções inauditas.

Como as dançarinas de art-nouveau
e a bela Salomé, apaixonada e lancinante
ter razão sem precisar inclinar-me à vulgar
e masculina argumentação, ao palavrório
sem recorrer à Lei, à Lógica adolescente
à Ordem dos Sacerdotes descrentes, os homens
e seu eterno reino de sons bárbaros e gargalhadas atrozes
e negociatas e certezas de segunda classe
Um mundo emprestado de nós mesmos.

A fonte é fina e fria
O regato nos espera
As flores recurvam-se ao vento
Os sorrisos silenciosos no vento
O pão da eternidade sob
as cores e sabores das teias
de arte, volúpia e oração.

Wednesday, April 02, 2008

Musgo

O líquen cresce no tempo
Tempo que adormeceu nas pedras no alto da montanha
que olha para baixo anuviada, cheia de tédio
como se houvesse bebido Martini seco
O tempo é uma harmonia fundamental que se soergue
somente vez por outra quando as aves despertam
e as cigarras anunciam a vinda do calor sobre o rio.
O tempo não tem ganas
O tempo lê, compõe a canta.
As pedras em seus leitos amanhecem e morrem
O silêncio das gargantas e dos córregos dentro das grutas
As flores inevitáveis pelos caminhos
Aos sobreviventes, à sinfonia dos entes nos bosques úmidos
que espalham seus ramos e as praias que cedem femininas
às súplicas do eterno oceano
Uma cantiga de ninar.


Aristocracia legítima a dos salgueiros, ipês, mangueiras
a dos insetos, dos seres brutos que nascem e soçobram
na antiga morada, o deserto tomado por reis
famintos, reis inocentes
O deserto, a terra inteira de flores, amarílis, rosas, petúnias
e malignas orquídeas, bruxas inertes, e seus príncipes
acorrentados, os beija-flores furta-cor.
O gato se deita onde é barão
O pássaro perscruta onde é delfim
O rio avança onde é soberano.

A Visão

Como um gato
deitei-me e olhei para a escada
No nível da terra
é que se enxerga o mundo
o mundaréu como ele é
Como uma ave migratória
flutuei bem alto, e alto
nos céus das andorinhas doidas
é que enxerguei o mundaréu de doidos
e fogo, água e fumaça


De pé no chão não se enxerga
coisa alguma que valha pois
a vista fica embaçada pela névoa suja


Como um gato espreitei
a verde grama tão perfumada
Como abutre contemplei
de cima os cemitérios humanos


Só os sons guardei comigo
nas alturas fechei os sons da terra
no meu coração que entorna saudade


Grudada ao chão pus o ouvido
no seio do mundo e auscultei os trabalhos
no ventre do esquecimento.

Sunday, March 30, 2008

Pôr-do-sol eterno

Clique no título.
O sol de fato nunca se põe. Pode-se viver constantemente sob crepúsculos. Ah, bela vida a do crepúsculo. Assim deve ser a vida após a morte. Ela existe, e é um constante viver arrebóis.

Friday, March 28, 2008

Silence




(Thomas Hood)

There is a silence where hath been no sound,
There is a silence where no sound may be,
In the cold grave--under the deep, deep, sea,
Or in wide desert where no life is found,
Which hath been mute, and still must sleep profound;
No voice is hushed--no life treads silently,
But clouds and cloudy shadows wander free,
That never spoke, over the idle ground:
But in green ruins, in the desolate walls
Of antique palaces, where Man hath been,
Though the dun fox, or wild hyena, calls,
And owls, that flit continually between,
Shriek to the echo, and the low winds moan,
There the true Silence is, self-conscious and alone.

Convento

Nestes dias monásticos
de acalentar orações e cânticos
bebo licores de uva escondida
da Madre Superiora.

Nesta pobreza eremita
na pedra esquecida
aqueço na pequena bolsa de pano
os sons daquele que, escondida, amo.

Nos jardins noturnos
atrás do muro exterior
me posto em febre a ouvir
escondida, as cadenzas e grilos sob a lua.

Durante os rosários de mil dias
teço suspiros, escondida, em agonia
aos teus cabelos e olhos cheios de luz
mas a Madre pensa que é para o Menino Jesus.

Sunday, March 16, 2008

Mario Quintana - O Tempo

O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós,
[para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho
[paralítico a tocar a campainha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!


Porque elas, simplesmente, o ignoram...

Saturday, March 01, 2008

Pássaro que Fica ou Vai




Pássaro que fica ou vai
A dança permanece
Nos teus braços imaginários adormeço
sob asas delgadas eu esqueço

Você eu amarei sempre. A cada manhã
que as lâmpadas dos postes se apagarem
a cada entardecer em que as cigarras cantem
Não fujo, minha sina é ouvir teu solitário lamento

O som do riacho é a eternidade.
Sonhar teus cabelos minha canção.
A ave levanta seu vôo na verde escuridão
e deixa ilesas as nuvens apaixonadas.

Antes a morte levará minhas lembranças
e a velhice tomará do meu corpo a tensão do amor
mas isso nada leva embora, a poesia e a música
que tuas finas mãos lançaram a mim
como um falso casto véu púrpura perfumado de estupor.