Tuesday, November 18, 2008

Quarteto para o Fim dos Tempos


"Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", A. Dürer


Para o abismo deslizamos todos lentos.
Entre nós, um licor viscoso amargo
Ódio e esqueletos de devorados pássaros
O desprezo que nos arrasta muito largo.

Para o sepulcro a torrente leva todos,
as crianças mórbidas, os monstros podres vivos
de ignorância e as baratas que espreitam.
Os leões fogem empalidecidos.

Ah quanto se perde! Quantas horas
Quanto vazio entre sangue e espadas
Tanto desfazer, tanta água em torno
da barca sozinha entre harpias aladas.

Entre restos de carantonhas vazias no tempo
de desafeto e armaduras no longo desalento
Decompõe-se a lápis esgares e mãos partidas
enquanto nascem crianças tortas desvalidas.

Friday, November 14, 2008

Bourgogne



para vocês-sabem-quem

Somente no bojo largo
da taça da noite
é que explode
o seu delgado buquê

Nem grande tanino,
nem minerais nem terra.
Você é alternadamente
ácido e tânico
e só no largo útero da noite
é que revela seus reflexos
rubi-alaranjados
e suas tonalidades harmônicas
mas também as dissonâncias
que espreitam tímidas
nos olhos negros nos cabelos
no seu corpo e no corpo da noite.

A noite é seu trono de ambrosias
e pães ricos, águas azuis, grãos macios
E é seu reinado de venenos anidros
A noite é o bojo largo
em que explodem os seus aromas

Minhas sensações enlouquecidas
esperam impacientes a total libertação
das novas flores, dos frutos amargos,
dos doces escondidos
por trás da tua ampla presença
na boca, no olfato, nos ouvidos
do meu corpo ensandecido
de rica e floral degustação
No grande seio da taça da noite
é que mostras o teu leque
de um definido e jovem buquê.

Sunday, November 09, 2008

A Grande Música

"Melancholia", A. Dürer




canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a sobriedade


Aquele maldito russo com seu piano assombrado

de mares negros e árvores mortas

implanta em meus olhos a floresta ampla

que alastra os vales dos teus olhos


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a serenidade


Alaga os quartos este trio elegíaco

onde habita um violino que já se dissolve

na persistência do desejo sobre a matéria


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a saciedade


Uma doente travestida sob uma camisola antiga

espalha esgares descomedidos no corredor

buscando no som dos braços que rasgam o ar

um padrão que fixe em madeira e aço

todos os sorrisos, os movimentos, os ecos de tua presença


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a senilidade


Agora me rendo à ferocidade da vontade

Agora me rendo ao perfume espectral de flores tirânicas

Entrego-me à doçura desesperada dos sentidos

Arderei na sagração do tanino de um beijo mantido

no tonel construído por um luthier envelhecido


canto a constância dos ciclones

não ouvir música é possuir a sanidade.

Friday, November 07, 2008

Eu te amo

Na Floresta da Tijuca.


Acho que estou doente. Algo dos pulmões.
E no coração só uma sensação de abrasamento
como se estivessem a marcar com ferro quente
por toda a extensão do miocárdio.
É preciso toda a memória para resolver em palavras
as querelas quando se bebeu meia garrafa de vinho.
Amor é tão lugar comum, diz uma canção
e sento-me de madrugada entre morcegos
para chorar pesadelos e lamentar ânsias de vazios futuros.
Nada se sabe e ninguém sabe, os ouvidos e as narinas entupidos.
Mas os perfumes e as echarpes que uso são divinos
e isso basta para receber olhares de admiração.
Ao fim da noite entretanto, soluço, e asfixio, poções de bruxas.
Sinto teus cabelos entre minhas mãos, e lembro-me de campos
de ervas suaves, e crianças e gatos, e penso em mim chorando.
E choro. Atriz, ou pitonisa.
Mas será isto amor, ou teatro, ou auto-compadecimento?
Inteligente e refinada demais para o lamento público
mas sensível e ultra-romântica, patética, para a urbe que assoma
pelas letras e elétrons através da janela.
Canto e sou triste em minha alegria, e prefiro
dez ferrões de abelhas e dentes de serpentes inesperadas
que sobrevêm ao teu beijo, à morbidez do engano,
da subcultura e do mal-gosto que suportei antes de ontem.
Prefiro a guilhotina, dou-me o pescoço, os seios e a mente
à lâmina última e altiva, mas recuso a nuvem de calor do meio-dia.
Confesso, e sofro, mas não peço esmolas.

En passant

Noite de novembro. O Cosme Velho cheira a rosas e não há água na torneira. Bebo vinho e ouço Don Giovanni seduzindo Zerlina, a mais enxerida das personagens operísticas.

Thursday, November 06, 2008

Felipe

Reproduzido da graphic novel "V for Vendetta", de A. Moore.


Um Éden sem Deus
é a casa em que habita
o Adão sem maçã nem pecado
nem história, nem anjo Gabriel.
Não adianta – ainda tens um poema
um poema a mais
após a eclosão do fim.
O vinho sobre a mesa
harmoniza-se sob a luz
lunar espalhada pelos cantos.
Mesmo triste, o vinho
é harmonia com teu corpo.
Outros tentarão tirá-lo de ti
Outros tentarão imitá-lo.
És música – perfume afora
verde-escuro, e rosa, floresta.
O Jardim do Éden sem Deus
e os cantos do outono à capela.
És, Felipe, o anjo sem oração,
sem asas, sem perdão.

Sunday, November 02, 2008

Cantilena de Amor no Escuro


"Maria Madalena", Georges De La Tour



Acabou-se a luz
Da lâmpada elétrica
Escrevi patética
Uma ilha de luz.

Compondo no escuro
Cegueira e grafite
Desenhei no sulfite
Teus olhos de escuro.

Envolvida em breu
Núcleo quente da vela
Cultivo com ela
Teus cabelos de breu.

No espaço sem fim
A ilha dourada
Ampara a esplanada
De saudade sem fim.

De dentro do escuro
Palpita o pardal quente
Do desejo urgente
De vôo no escuro.

Thursday, October 30, 2008

Matadouro







P. Picasso, "Minotauro"




Ando displicente.
Estas minhas cantigas estão decadentes
mas dos teus braços tomo o manto
do torpor e quedo entre orquídeas.

Anjos malignos sopraram em meus ouvidos
uma solução bruta mas conveniente:

com esta caneta te imolo sem compaixão
despejo tua beleza repartida a faca
em meu poema, e te ofereço a
deuses exigentes.

No altar destes versos te sacrifico
e rezo sobre o sonho dos teus olhos escuros.

Monday, October 27, 2008

Batalha de Escorpiões



"Orchid", de R. Mapplethorpe



Já não sei o que fazer

com este pavor

Não sei o que fazer

deste calor

Onde pôr

estas flores vermelhas

Não sei como ouvir

essa música de bruxas

que desperta leões

na madrugada.

E o demônio que dança

às gargalhadas

Que fazer deste estupor?

Como calar estes tons

que perpetram asas escuras

nos lençóis que balançam

nos varais virgens?

O anjo me tortura

dia e noite

com olhos escurecidos

de taninos e aladas

foices de prata.

O anjo me retém

sob o escudo sangrento

de seu terror

de rosas e cantos.

Está declarada

a batalha no deserto

e em alto-mar.

Estou a postos.

Friday, October 24, 2008

Sphinx

"A Virgem", Gustav Klimt

Para FP

Houve a noite da esfinge.

A esfinge reina soberana
e meu coração impaciente
voa aflito com aflições
de pombo desértico
Eu, criança, diante da porta
Do corpo da esfinge soberana.

Na boca da esfinge
O lagarto colheu dardos
De doces intumescências
No repentino verão
De noturnas florescências.

A esfinge sorri na areia.

Tempestades estrangeiras
Trouxeram os olores
Transparentes ervas úmidas
Com a bela silhueta escura
Da esfinge marinha.

Na noite da esfinge
Eu, nômade, bebi de anis
Em cálice tomado de dores
Risonhas e chuvas frescas.
A esfinge, bela na noite,
Reina soberana na areia.

O instrumento do demônio
Canta na garganta de cerejas amargas.

A esfinge reina soberana.

Sunday, October 19, 2008

Ars Erotica

"Ophelia", de Millais



“Amo a floresta. Ruim é a vida nas cidades: há ali demasiados libidinosos.”
Nietzsche

I.Ciganos e suas rabecas

O amor expande violeta
a íris da consciência.
É o que dizem.

Cada um é só
com o corpo embargado de espírito.
Cada um é sozinho.

A imensa ânsia
para o que não habita em si
O eterno andarilho

Adormeço sob As Três Marias
Adormeço um pouco em ti.


II.Ressona a Grande Explosão

Sorrio de graça e em minha taça
descansa a roxa solidão de meu amor

Acredito na música que ressoa ao fundo
do mundo e desta poeira
Acredito na sinfonia que reverbera
por trás da dança das varejeiras

Quando acabar-se o mundo
Após uma explosão fraternal
Ranger de gritos apavorados
será possível ouvir gigante
um concerto para piano
mozartiano


III.Lascívia

Canto com as cigarras
Canto um pouco em ti.

Acariciar asas violetas se possível;
cantar o que não está perto.

Na brisa gélida que treme as últimas folhas
das mortas árvores de abril
dança uma valsa a bela Incerteza

Nenhuma flor marca meu jazigo
Meu espectro é dignamente pobre, e vive exonerado
exilado nos píncaros brancos
do desejo que lhe estica a alma
como a um manto de linho antigo.

O amor é uma libélula infernal
Asas; e que deixam rastros na água.


IV.Divertimento

Os deuses banham-se
em jardins de begônias
e, vê, as serpentes dependuradas
nas amoreiras emaranhadas
traçam na tepidez da primavera
mórbidas grades de galhos
cálidas ao olhar das feras

os deuses banham-se
em jardins de begônias

Num compasso crescendo
águas azuis no momento
em que um satírico vento
revolve as lupercais
dos teus olhos abissais.

Preenchem o escuro Vale das Máquinas
patéticas eletrificadas, gás, carvão e hulha
sublime kyrie disperso na poeira
flutuante espaço tenso em ostinato
doura os céus dos acontecimentos
um minuto antes de um divertimento

que ressoa para teus verdes sorrisos na rua
os quais contêm todos os sorrisos da lua

Tuesday, October 14, 2008

Poema do Escuro




Cheguei a pensar que não iria mais te escrever poemas nem coisas afins belas.
Porque pensava-me velha, pensava-me finda no círculo da hora na barca que dança,
fechada numa decisão de guirlandas carnívoras, e bastava-me a escravidão
da idéia, da mesma frase, da mesma ofensa, da mesma nagação da liberdade
mas agora na noite a erva e lua, a estrela a água se fazem senhoras
e nenhuma circunstância roubará teu corpo e a amálgama da essência de você.
Porque em nenhures estarei e não sinto a solidão, pois moro com a Lua
e durmo com o deus mais altivo e tenso de todos, o Sol
e o céu inteiro é minha casa, e você, música, minha porteira
E tua boca, topázio marinho no portão de entrada para o mundo
e neles habito... habito nos ares com as gaivotas e falcões
intimamente em grandes envergaduras.
Busco a estrela, e bebo a alvorada, e lá está, esse homem que se senta esguio
na última laje, no ducentésimo galho de jasmineiras -- alías orquídeas
Que te adoro rico em cores, que te quero desenhado em rosas e vermelhos e azuis
que te quero selvagem da masculinidade típica dos céus de outubro
e das peças magníficas para sopros e metal... com entradas particulares para as cordas.
Homem, nascemos para isso, para isso crescemos, para o cântico... alvoradas
luzes turvas da madrugada, e vinhos escuros, tons anis, desejos fulvos.
E caio num ninho de suaves lilases, que são lembranças de lábios e noites unidas em mi bemol.

Friday, October 10, 2008

Quote

Céu de Ouro Preto depois de chuva.

"Freedom lies in being bold."

Robert Frost


Sunday, October 05, 2008

Gosto de vinho.


Vinho e chama de vela
Vinho e jazz que se parte
entre os suspiros e silêncio - mais
um coração aturdido.

Vinho e cantiga das horas
Vinho e lembrança de amoras
Vinho e um libertário estertor
Vinho, de fino amoroso horror.

Saturday, October 04, 2008

Gosto de... continuação.



Para não dizerem que não falei de flores....

E não somente siciliano. Não sou assim tão fã de
trocadilhos óbvios, é que veio a calhar...

O perfume é único. Mas o tahiti é melhor, mais azedo, mais profundo, mais ácido, mais intenso.

Só falta o jazz.

Friday, October 03, 2008

Uma daquelas listas de coisas de que gostamos.

Ao contrário do que muitos pensarão, não foi inspirada em Amélie Poulain, mas sim num blog português muito belo que visitei recentemente (se vocês clicarem no título da postagem, que está em highlight, irão parar nesse dito endereço lusitano). Relembrei com ele um velho hábito de infância e adolescência, o de listar coisas de que gosto. Pode ser uma tentativa de poesia. Uma nova forma, a poesia-lista? Calma, é só uma piada.

Só para começar, as coisas mais óbvias. Muitas são clichês, mas fazer o quê? É que nem sexo, universalmente apreciado. Clichê dos bons.

Prometo escrever coisas mais sutis da próxima vez... sim, essa listinha continua.

Gosto de:

1. A letra csi do alfabeto grego. Tenho numa postagem antiga deste blog uma série de fotos de csis, para quem não lembra ou não sabe qual é. Aliás, especializei-me em desenhá-la. Merecia já um vale-doutorado só por ter aprendido a escrever direito, quando nos institutos de matemática há essa legião de professores e bons matemáticos quase que totalmente incapazes de escrevê-la, mesmo sendo tão requisitada.

2. Taças de vinho atrás de velas acesas, com bojo largo, de forma que possam refletir sutilmente, na sua convexidade elegante, a luz da chama.

3. Gatos.

4. Cheiro de livros bem novos e de livros bem velhos.

5. Tardes em que o vento é intenso porque choverá em breve.

6. Pedras redondas submersas em água cristalina.

7. A hora 11:11.

8. A poesia de Gabriela Mistral.

9. O cheiro de pão quente e a voz da mãe cantando de manhã enquanto faz café.

10. A sensação de pés descalços sobre a grama molhada de manhã cedo.

11. Ficar silenciosa numa mesa em que todas as pessoas conversam e fazem balbúrdia alegremente, deixando fluir através do corpo, como se não estivesse ali, como se já tivesse morrido, a enervação dos pensamentos e o calor da vida humana.

12. A cor lilás.

13. Árvores jasmineiras quando chove.

14. Caminhos, estradas, principalmente de madrugada. Olhar para o céu de dentro da janela do carro, ônibus, o que for, e ver o escuro salpicado da Via Láctea cedendo gentilmente a vez para uma ainda ingênua luz debutante.

15. Beijar a boca daquele por quem se está apaixonada tendo bebido água, e ele, vinho.

16. Lençóis e véus.

17. Mãos de pessoas idosas.

18. O espaço vazio e silencioso entre as estantes de alguma grande e rica biblioteca. fechar os olhos e respirar nesse momento, parada entre os livros.

19. Barcos.

20. Janelas.

Wednesday, October 01, 2008

The Lark Ascending - Again

"He rises and begins to round,
He drops the silver chain of sound,
Of many links without a break,
In chirrup, whistle, slur and shake.
For singing 'til his heaven fills,
'Tis love of earth that he instils,
And ever winging up and up,
Our valley is his golden cup,
And he the wine which overflows
To lift us with him as he goes
'Til lost on his aerial rings
In light, and then the fancy sings."

Excerto do poema de George Meredith que V. Williams ressaltou no início da partitura da belíssima peça homônima, sem o "again".

DICA: ouvir a gravação de Nigel Kennedy com a Royal Philarmonic Orchestra, sob regência de Simon Rattle.

Monday, September 29, 2008

Joni fala e eu falo



"I am on a lonely road and I am traveling
looking for the key to set me free
Oh the jealousy, the greed is the unraveling
It's the unraveling
and it undoes all the joy that could be..." - J. Mitchell, "All I Want"


Thursday, September 18, 2008

Eterno Retorno



para FP
E lá vem de novo o pássaro cambaleante
Nos meus pesadelos eróticos sublimes anímicos
Matemáticos sangüíneos marinhos perdidos
Música pra meus pulmões, lá vem você
Para me arrepiar na noite das bruxas entre árvores
Para me lembrar de que mentir é arma de crianças

Lá vem o marinheiro, lá vem a canção
Lá vem o barco nas sombras, lá vem o lobo da madrugada
Lá vem o desejo que me diz à nuca: "nunca -
- Mas aqui estou, e me amas.

E tens o mal gosto de mal citar o pobre Nietzsche,
enquanto me expões teus seios em sofrimento."