Sozinha na multidão
A folha seca
na floresta.





"Le concert", M. ChagallAbre o teu coração
para os olhares e suspiros do Universo que,
astuto, prepara a mesa, e a barca que te levará
se quiseres, até a beira da vida, até a roseira do mundo
até o poço de açoitamento de deuses
onde verás o sangue dos divinos jorrando
onde sentirás o perfume de mil acácias mortais e belas
Não fujas! Canta comigo e lança teus braços
o mar proclama, o amor reclama
os beijos de colombinas e valetes e outros saltimbancos
Não foge, ama-me, nada tens a perder.
Abre teu coração, teus olhos, teu corpo
ao suspiro imenso que a noite inventa
à luz desejada da manhã, dança comigo à tarde
e adormece à noite em meus braços fatigados
e ressona meu poema, com a cabeça sobre ele.

"Bride with Blue Face", M. Chagall
"Melancholia", A. Dürer
canto a constância dos ciclones
não ouvir música traz a sobriedade
Aquele maldito russo com seu piano assombrado
de mares negros e árvores mortas
implanta em meus olhos a floresta ampla
que alastra os vales dos teus olhos
canto a constância dos ciclones
não ouvir música traz a serenidade
Alaga os quartos este trio elegíaco
onde habita um violino que já se dissolve
na persistência do desejo sobre a matéria
canto a constância dos ciclones
não ouvir música traz a saciedade
Uma doente travestida sob uma camisola antiga
espalha esgares descomedidos no corredor
buscando no som dos braços que rasgam o ar
um padrão que fixe em madeira e aço
todos os sorrisos, os movimentos, os ecos de tua presença
canto a constância dos ciclones
não ouvir música traz a senilidade
Agora me rendo à ferocidade da vontade
Agora me rendo ao perfume espectral de flores tirânicas
Entrego-me à doçura desesperada dos sentidos
Arderei na sagração do tanino de um beijo mantido
no tonel construído por um luthier envelhecido
canto a constância dos ciclones
não ouvir música é possuir a sanidade.
Reproduzido da graphic novel "V for Vendetta", de A. Moore.


Já não sei o que fazer
com este pavor
Não sei o que fazer
deste calor
Onde pôr
estas flores vermelhas
Não sei como ouvir
essa música de bruxas
que desperta leões
na madrugada.
E o demônio que dança
às gargalhadas
Que fazer deste estupor?
Como calar estes tons
que perpetram asas escuras
nos lençóis que balançam
nos varais virgens?
O anjo me tortura
dia e noite
com olhos escurecidos
de taninos e aladas
foices de prata.
O anjo me retém
sob o escudo sangrento
de seu terror
de rosas e cantos.
Está declarada
a batalha no deserto
e em alto-mar.
Estou a postos.
"A Virgem", Gustav Klimt
"Ophelia", de Millais






