Sunday, February 22, 2009

II




Sozinha na multidão
A folha seca
na floresta.

Saturday, February 21, 2009

I




O artesão não trabalha pensando no repouso
e nem repousa com o trabalho nos sonhos.
Acorde, capitão.

Sequência Zen



Está assim inaugurada, em tempos de Carnaval nas ruas, a temporada Zen no Jazz e Suco de Limão.



"Tudo o que restou
dos sonhos dos guerreiros —
Capim de verão"


Bashô

Friday, February 13, 2009

O que não tem nome




Rua abaixo há uma estrela.
Rua abaixo há um gato na esquina.
No céu nuvens cor de cinza sobre o azul escuro.
Mais à frente o mar medonho e sereno. E anões fazem silêncio.
Depois da janela há pedras e fantasmas que descem pálpebras
e os pássaros fazem malabarismos de felicidade.
E são a prova de que o inominável está presente, nu.
O sol aquece minha pele e meu corpo já disse sim.
Meus olhos lêem cantos no verde das árvores.
Ainda que eu fosse a balconista daquela padaria
e só passasse as horas longas a servir pães quentes
saberia que o inominável está no entorno.
Em cima dos muros, entre os carros, no ar com cheiro de grama.

Seita mística é nada mais que ter sentidos, olhos grandes,
e principalmente ouvidos. Ouvidos na nuca.
Que a percepção maior da alegria e do silêncio
por trás das coisas sussurra e murmura na nuca,
debaixo dos pés, no couro cabeludo.

O gato saltou para a janela acima do precipício.
O piano começou uma peça em tom menor.
O rio desce a rua para o mar, para a baía.

Durmo já. E meu sorriso se abre no sonho
como as asas de uma borboleta quando nasce o sol,
e sobre o som do rio ali adiante com nenúfares e grilos mortos
na manhã criança, que nunca se esquece de nada.

Sunday, February 08, 2009

Um dia vou sumir dessas bandas



"Ode on Solitude", de Alexander Pope

Perdi minha paciência.
Esses racionalistas estúpidos de olhos enormes,
esses mesquinhos de grandes bocas, esses bobocas
essas dondocas, os cheios de si com suas panças
os que invejam outros e jogam pedras.

Por que diabos tenho que dividir o mundo com essas gentes?
Mas me digam... dou uma garrafa de chateaux-margaux a quem me convencer.
Se eu tivesse uma.

Achar o centro e ouvir a música no escuro
Isso eu quero ver quem me ensinará a fazer.
Está para nascer quem tenha coragem
de encarar essas carantonhas e ser puro,
e ao mesmo tempo sorria e continue cantando.

Precisaria ser novamente um pássaro
com a consciência plena de um buda,
ser uma árvore disponível e plena
mas com a clareza de perceção de um Mahavira.

Por isso vou pegar meus instrumentos musicais,
meu gatinho, vou gastar o cartão de crédito com bebidas
e ficar com o nome sujo na praça, embriagada.
Vou doar o resto dessas porcarias
e ir procurá-lo nas florestas,
nos vales rochosos, nas praias, nas ilhas
Vou sumir daqui em busca dele
e ninguém nunca mais vai saber de mim.

Tuesday, February 03, 2009

Corvo




inspirado após audição de "Black Crow", de Joni Mitchell

Desce do céu em rasante
Desce a rua radiante
Sobe num arranco de alegria
ao céu, a rua, em solidão brilhante.

Anda entre cogumelos
com a cabeça abaixada
para evitar os olhares - ah!
estes olhares tétricos amarelos
dos transeuntes, das donas de casa
que exigem seus direitos no mercado.
Sobe e desce presentindo os corpos
suas presenças vazias ou coloridas
- tanto faz. O olho do céu lhe guia.

Desenhando música e perpetrando ventanias
mesmo suaves, é de rapina, mas rebelde.
Recusa seu destino de bruto, de caçador
recusa-se a participar das touradas e dos jogos
esses sanguinolentos jogos de cartas - vejam como suam
e se incham seus papos de orgulho na disputa.
- O céu nublado lhe basta, rapina desgarrada.

Serpenteia, desce, empoleira-se nas árvores
nos jardins, nas praias - e vai-se
em busca daquilo outro, deste e daquela.
De sonhos verdes e pesadelos mascarados.

Ave calma, faz silêncio em sua gritaria.
Ave solitária, prevê destinos nas nuvens.
Ave à qual Deus, velho safado, negou o canto
mas ela se vinga tocando nos varais e nas cercas
a música do anseio no meio da noite,
palpitando de morte na vertigem plana do dia.

Thursday, January 29, 2009

Como ser um grande líder




Ocorre que temos de ser muito otimistas.
Sempre dizendo aos outros como vencer
e ser líderes e grandes chefes.
Ora, se todos forem chefes,
não sobrará quem se comande.
E assim começa a interminável demanda.

Deviam esses desocupados mandantes
irem aos cais verem crepúsculos
e andar descalços e esquecerem os outros.
Tomem um drinque - sei fazer um ótimo martini.

Eles se debatem em mal gosto,
em muitas horas de café, em muitos ofícios.
Também sei preparar uma divina caipivodka
e uma cuba libre de se tirar o chapéu.

Desocupados.

Love me like a river does



amor, quem te viu
andando nu pelas estradas?
quem conta este conto?
que pescador te viu em alto mar?

quem foi a criança
que tola, te viu na varanda
e gritou te denunciando à família
reunida na sala de estar
enquanto todos davam as costas?
-- ah, crianças de sete anos!

amor, quem escreveu teu nome
nas paredes dos templos
enquanto a fumaça das velas
infectava os bolsos e véus das gentes?

amor, quem te viu á beira-mar à noite curvo sobre as ondas?
quem te ouviu atrás do bosque com as loucas varridas?
que infeliz te flagrou no banho entre os peixes?
que sonhador esteve a crer na tua sombra por este mundo?

Tuesday, January 27, 2009

As Bruxas


The Joker, in "The Dark Knight", character played by Heath Ledger


Hoje é dia em que as bruxas apenas gargalham
Vão - falem de seus medos e assuntos os mais variados
Suas profundidades abissais, proponham suas metas e possibilidades
seus desvios para as crises, suas previsões medonhas,
seus planos inevitáveis, seus projetos merecedores de notas máximas.

As bruxas gargalham na floresta e na torre.

Crianças gordas prontas para o forno,
que decoraram suas falas e suas orações
precisamente como os mestres escolares mandaram
e cujas perguntas são as que os professores provocaram...
Crianças gordas como porquinhos quase assados, orem.

Mas as bruxas gargalham no quintal e no galinheiro.
Onde tu vais buscar a roupa que lavei e que já secou.

Gentes de perguntas e planos tão sérios e gigantes
Tão cheias de direitos e senscientes de seus deveres
gentes que não conhecem uma milonga nem uma suite para viola
dos tempos execráveis de meus execráveis tetravôs
gentes sérias corcundas de tantas seriedades mal-perfumadas das lojas

As bruxas gargalham no portão e no corredor que dá para o banheiro.
E tu vais até ali buscar o pente para mim.

Gente tola, gente infante, gente sistêmica
que precisam de um pai para lhes puxar o cabresto
e lhes ensinar a Grande Arte de Serem Vós mesmos
Ó

As bruxas gargalham em suas nucas gordas e em suas camas vazias.

ahan, ahan, ahan

Sunday, January 25, 2009

Os Cinco Elementos



Há enganos do senso comum.

Não há harmonia entre todos os Elementos,
nem todos podem se encontrar em proporções iguais.

A água e a terra são irmãs.
O fogo e o vento estão mancomunados.
Quando terra e fogo se encontram, o fogo a destrói.
Quando água e vento dialogam, brigam e debatem-se em tempestade.
O vento ajuda o fogo, apesar de sua sutileza.
O vento é a inteligência e o fogo é sua força.
O vento é maligno e espirituoso.
A água nutre a terra e a terra lhe dá sustento.
Água e terra formam um corpo e geram a vida.

Mas a terra cria os pássaros, que lhe deixam pelo vento.
Os pássaros procuram o inimigo sutil e indireto de sua mãe.
Pois o vento impulsiona o fogo que consome a terra.
A água aniquila o fogo, e este é o mais mortal encontro.
Por isso água e vento são opostos reais, pois uma aniquila e outro alimenta.
A água e o vento são os melhores inimigos que pode haver.
A eterna e interminável batalha - água e vento, pois não se aniquilam.

Enquanto isso, o Tempo, este não participa de coisa alguma.
Observa as batalhas e equilíbrios e amores entre os Elementos.
Labora as pequenas coisas, os seres, a poeira, a fuligem, a chuva.
O Tempo cria os restos mortais das lutas eternas.

Saturday, January 24, 2009

Tundra



No mais, apenas relva seca
No além, uma lagoa desabitada
Aqui, janelas cerradas
No entorno, carantonhas mortas.

E como beber nas festas dos mortos?
Como continuar a dançar no vazio
este, que é o companheiro dos que nascem
e o ninho constante até a hora do óbolo.

Aliás, deixem as mãos vazias
na hora final - nem na boca carreguem a moeda.
No máximo não permitirão a entrada no hades
e ficaremos entre mundos, velejando.

Quem será capaz de entender?
A maioria não diz senão asneiras
e o mercado está preenchido de doces
e lágrimas excessivas - e mãos lascivas
que querem tudo, não obtendo nem mesmo a névoa.

Tantas opiniões e folhetins, tanto pastiche
tanta obscenidade travestida de cetins e champanhe.
Tanta sujeira que mesmo a solidão dos cumes
está chocada com tamanha perdição.
Então, entre fornicar nas cozinhas vazias
e inspirar o ar verde das manhãs marinhas
mister é antes se acostumar a confrontar
o coração da noite, o fundo da treva, o lamento.

Descendo ao rio
Entrando no mar
Caindo no abismo
Cercando-se de anjos possuídos.

Monday, January 19, 2009

O mar




Masterclass do grande violoncelista Paul Tortelier sobre "La Mer", de Debussy, para 8 cellos.


E então! Cai a luz
em um grande salto
dourado para o alto
que era o fundo do azul

E vemos que temos
todo o tempo do mundo
Tudo esteve sempre
no fundo de estar aqui.

Na areia na beira a vaga
quebra e ouço que chia a espuma
tímida e criança mergulha chiando
no furos da areia velha - rápidos

O tempo inteiro para trás dormente
e para o futuro estão no presente
Sente - e os pés sorvem a maciez

e os olhos se enchem de espanto e gratidão
um acalanto da Morte que sorri na imensidão.

Estivemos sempre aqui -- não há pressa
Vê o azul esverdeado que pisca na onda,
o vento que canta em tons menores
antes de vir a Lua deusa sentar-se no breu.

Não te apresses -- não me apresses
Que o mar é senhor -- que o azul é breu
Que o silêncio é rei -- que a repetição na areia
nunca é igual nas ondas -- cada sereia
em sua teia -- cada compasso, um destino defronte
Eternidade, que serpenteia e canta
Eternidade, que silva ventando, deita-se mesmo
na enseada pequena que teme o Horizonte.

Sunday, January 18, 2009

"Elle est retrouveé - Quoi? L'Éternité"



Habito nas vinhas antigas.

Das profundezas, meu único desejo:
o silêncio do oceano, que o resto me aborrece.
A profundidade é escura, abafada e aborrecida
a menos do mar e seus animais bizarros que passam.

Não me cabem conselhos, deixem-me.
Como poderia receber conselhos
de quem acaricia destinos comuns?
Quero morrer no estômago de um cachalote
na virada do mar diante de um sol avermelhado.

Vivo nas estradas de céus esquecidos
e levo comigo o amor de todos os instrumentos musicais.
Minha religião, Música, meus ritos, meus cálices e relicários,
meus incensos e mantos sagrados - não cabem vossos conselhos.
Não me aborreçam com seus carros barulhentos e doces gordurosos.

Deito-me na barca ao sol à deriva
perigosamente exposta aos olhares e setas
de quem policia os que não querem policiar.
Deixo-vos, e me deixem - não quero suas profundezas
político-científicas, suas opiniões de segunda classe.
Querendo sempre concluir tudo, ter contra-propostas.
Tenho um cello, sonho guitarras, sob estrelas
só quero o fundo do mar.

Sunday, January 11, 2009

Gênio

Omar Khayam, "Rubayat"



Deve ser a covardia humana tão difundida
Tão elaborada, qual um bordado em cetim
Aproveito-me da tua covardia e vilania não calculada
da tua infantilidade, do teu medo sem alcance póstumo
para tecer um elogio à minha própria grandeza

Isso é mau. Isso é pequeno e vazio. É o fim das coisas
O fim dos tempos... que a inteligência se sirva
da simples meiguice do medo pleno de criança
que a malícia e maturidade se sirva da tua crendice
para enaltecer sua carcaça trabalhada pelo tempo
como as conchas do mar e as carapaças de longos crustáceos
para enaltecer o poder de visão estrito, mas maior que o teu

Isso é mau, mas me serve, me é útil. E vou-me
na estrada, diante do mar, ainda à caça da Raridade
ainda à caça da Beleza pura e da Vontade, e antes, da coragem da Beleza
Que a beleza covarde, que só pede desculpas, é uma beleza miúda e passageira
mais uma concha que parecia rara, mas está na coleção da mercearia

Mais uma, mais uma pedra, mais uma casa na rua
Mais uma pedraria comum e tola... meus olhos ardidos de desejo
pedem o brilho do diamante à custa de sangue
qual vampiros - não me faço de vítima, sim vampiro
e ao som do jazz da praça me finjo de displiscente - mas que sou alerta.

E vamos nós, e vou-me, sem retorno - mas não é que tudo retorna
no ventre da vida, dos objetos, do mundo, não apenas das impressões
e vou-me, sem esperar, que não tenho paciência!
Tenho o temperamento de tirana absoluta - c'est moi l'État!
sem paciência para covardes - somente para os caramujos
e para as estrelas há trilhões de anos tenho calma
Esperarei somente pelos delicados seres
de tempos esparsos e puros como lençóis d'água
somente para eles tenho todo o tempo que há.

Saturday, January 10, 2009

Hospitalidade

vista do Pão de Açúcar na base do Museu de Arte Contemporânea, em Niterói

Não sei de fato sobre o que quero sonhar
Mas sei o que desejo... e não compartilho. Não.
Não vou responder à tua pergunta de criança
Nem dar-te os meus secretos tesouros...
pois é privilégio somente de alguns, dos Poucos,
sorver essa lua amarela e cintilante como cerveja de trigo
no meio da madrugada sonhar com bicicletas e gatos
Violoncelos, vinhos, ventanias que sacodem cabelos
Azar o teu que és criança e tens muito que aprender
Não, não divido contigo essa minha taça, nem um gole

Não saberás nunca que se passa aqui
Nesta cidade dourada e verde, ah Rio de Janeiro
Quanta música e urina se misturam nessa maresia
Eu não divido... és forasteiro, e serás, criança linda
Serás estrangeiro na terra que é minha.
Afinal, como gostas de dizer, sou dona da cidade

É um privilégio dado a alguns essa arte
essa liberdade de silêncios e fugas
Quem foge sou eu... sou a dona da cidade
Essa revolução de cabelos e águas em canais, lá vem.
Essas nuvens que pressagiam espantos... lá vêm.
Não tenho medo, nasci de seus ventres brancos
Sou conterrânea da tempestade.
Nuvens estarão onde quer que eu vá: eu vos saúdo!

Não a todos é dado o canto, a visão
e a voz para o canto e o ouvir os trovões,
para as flores e caramujos que acontecem.
Não foi dado a ti - perceba apenas, resignado
que foi bendito o dia em que cruzamos teu caminho,
e que te concedemos honras, forasteiro,
um abrigo, flores, vinho e música para violoncelo.

Saturday, December 27, 2008

Aria Nova


Vou-me nas trilhas
Ando entre pedras
O perfume que a chuva
trouxe é de jasmins - eu sei


E destas flores brancas
coroas de anjos fiz
para a Novidade
o ninho da beleza
a casa em que habita
a felicidade em anil e prata


São castelos virgens
de luzes caídas de Escorpião
e Sagitário e Áries
são espadas anciãs
e trompas perdidas
nas estradas cegas


É a Novidade, na rua
na chuva e na estrada
na curva que dá para o Rio
no beco que dá para o Mar


Chuva, e estrela, cânticos
Canto o que há dentro do que haverá
E ânsias estelares pulsam
não como sóis jovens, mas como corpos celestes
poderosos há muitas distâncias de tempo
dentro do futuro imerso no passado.

Monday, December 22, 2008

Celebração



Vista do pôr-do-sol nas pedras do Arpoador.

Onde estão as vozes que eu ouvia?
Os espíritos que me guiavam, dos quais reclamava
Agora espeor ardente por cada um deles
loucos louros anjos com armas de crianças e flautas.

A uva Merlot na minha taça
O carrossel na minha cabeça
A coroa partida nos meus cabelos
A luz que quer ir embora da Madrugada

A festa eterna está presente neste farol
Estes unicórnios mudos à minha janela
As bocas das estrelas cantando trítonos
As asas dos caídos voejando nas sombras

A festa que me chama, como entro?
O vinho de frutas que mãos divinas colheram
desce à minha garganta, e qual o rei amaldiçoado
no mundo dos mortos, o Tântalo tristonho
procuro a seiva das horas mas verto-a incólume

E vêm lá os saltimbancos
Vêm lá os percussionistas
e as floristas e os cantores
Eles estiveram sempre aqui
Como eu não os vi?
Onde se esconderam?

Wednesday, December 10, 2008

Colecionando eventos




1. O casulo

Uma borboleta saiu da crisálida
e pousou nas folhas de maria-sem-vergonha.
Ela era aleijada, tinha uma asa menor do que a outra.
Apiedada, molhei meu dedo e pus açúcar na ponta
a borboleta então esticou lentamente a tromba
ainda não usada e lambeu o doce.
Não obstante, duas horas depois estava morta.
Pobre borboleta, virgem abandonada pela mãe Natureza.

2. O vôo

Uma pomba voou livre nos céus
mas veio de encontro ao vidro de um prédio
e caiu aos meus pés, moribunda
caiu numa terrível e fria linha reta
do vôo cego contra o vidro.
A quem culpar? Fatalidade
é um espasmo na pele do Universo.

Sunday, November 30, 2008

Chamado

"Le concert", M. Chagall



Abre o teu coração

para os olhares e suspiros do Universo que,

astuto, prepara a mesa, e a barca que te levará

se quiseres, até a beira da vida, até a roseira do mundo

até o poço de açoitamento de deuses

onde verás o sangue dos divinos jorrando

onde sentirás o perfume de mil acácias mortais e belas



Não fujas! Canta comigo e lança teus braços

o mar proclama, o amor reclama

os beijos de colombinas e valetes e outros saltimbancos

Não foge, ama-me, nada tens a perder.



Abre teu coração, teus olhos, teu corpo

ao suspiro imenso que a noite inventa

à luz desejada da manhã, dança comigo à tarde

e adormece à noite em meus braços fatigados

e ressona meu poema, com a cabeça sobre ele.


Saturday, November 22, 2008

Oração, ervas


"Les Saltimbanques Dans la Nuit", M. Chagall



A pedra.

Recorda-te:
a única árvore que não morrerá.
A tarde é azul
e a memória dança entre as folhas.

O templo.

Recorda-te e respira:
a luz dourada que repousa
transborda e mendiga.
O espaço é simetricamente
sobrenatural.

A estrada de terra.

Recorda-te, vive:
guarda no cantil, na mala
as maçãs da viagem
e as canções do crepúsculo.

A noite.

Em poucos minutos
a luz dissolveu-se nas paredes
e o céu amoroso e triste
como uma velha atriz
que fuma no camarim – e sorri.

O templo.

Recorda-te:
o amplo círculo do dia
gira e nunca teme.
O porvir carrega morcegos
e não teme a morte.
Recorda-te,
tira os sapatos.

Little Girl Mourning Shine

"Bride with Blue Face", M. Chagall


while the white cat
was falling asleep
the little sad song
began to crawl on the street

when the dragonfly
swept away in the wind
in the blink of an eye
little girl started to cry

in the meantime of two jokes
when two clouds dreamt away
I felt so lonesome in a sudden
quick move of two jacks of spade.

Tuesday, November 18, 2008

Quarteto para o Fim dos Tempos


"Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", A. Dürer


Para o abismo deslizamos todos lentos.
Entre nós, um licor viscoso amargo
Ódio e esqueletos de devorados pássaros
O desprezo que nos arrasta muito largo.

Para o sepulcro a torrente leva todos,
as crianças mórbidas, os monstros podres vivos
de ignorância e as baratas que espreitam.
Os leões fogem empalidecidos.

Ah quanto se perde! Quantas horas
Quanto vazio entre sangue e espadas
Tanto desfazer, tanta água em torno
da barca sozinha entre harpias aladas.

Entre restos de carantonhas vazias no tempo
de desafeto e armaduras no longo desalento
Decompõe-se a lápis esgares e mãos partidas
enquanto nascem crianças tortas desvalidas.

Friday, November 14, 2008

Bourgogne



para vocês-sabem-quem

Somente no bojo largo
da taça da noite
é que explode
o seu delgado buquê

Nem grande tanino,
nem minerais nem terra.
Você é alternadamente
ácido e tânico
e só no largo útero da noite
é que revela seus reflexos
rubi-alaranjados
e suas tonalidades harmônicas
mas também as dissonâncias
que espreitam tímidas
nos olhos negros nos cabelos
no seu corpo e no corpo da noite.

A noite é seu trono de ambrosias
e pães ricos, águas azuis, grãos macios
E é seu reinado de venenos anidros
A noite é o bojo largo
em que explodem os seus aromas

Minhas sensações enlouquecidas
esperam impacientes a total libertação
das novas flores, dos frutos amargos,
dos doces escondidos
por trás da tua ampla presença
na boca, no olfato, nos ouvidos
do meu corpo ensandecido
de rica e floral degustação
No grande seio da taça da noite
é que mostras o teu leque
de um definido e jovem buquê.

Sunday, November 09, 2008

A Grande Música

"Melancholia", A. Dürer




canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a sobriedade


Aquele maldito russo com seu piano assombrado

de mares negros e árvores mortas

implanta em meus olhos a floresta ampla

que alastra os vales dos teus olhos


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a serenidade


Alaga os quartos este trio elegíaco

onde habita um violino que já se dissolve

na persistência do desejo sobre a matéria


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a saciedade


Uma doente travestida sob uma camisola antiga

espalha esgares descomedidos no corredor

buscando no som dos braços que rasgam o ar

um padrão que fixe em madeira e aço

todos os sorrisos, os movimentos, os ecos de tua presença


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a senilidade


Agora me rendo à ferocidade da vontade

Agora me rendo ao perfume espectral de flores tirânicas

Entrego-me à doçura desesperada dos sentidos

Arderei na sagração do tanino de um beijo mantido

no tonel construído por um luthier envelhecido


canto a constância dos ciclones

não ouvir música é possuir a sanidade.

Friday, November 07, 2008

Eu te amo

Na Floresta da Tijuca.


Acho que estou doente. Algo dos pulmões.
E no coração só uma sensação de abrasamento
como se estivessem a marcar com ferro quente
por toda a extensão do miocárdio.
É preciso toda a memória para resolver em palavras
as querelas quando se bebeu meia garrafa de vinho.
Amor é tão lugar comum, diz uma canção
e sento-me de madrugada entre morcegos
para chorar pesadelos e lamentar ânsias de vazios futuros.
Nada se sabe e ninguém sabe, os ouvidos e as narinas entupidos.
Mas os perfumes e as echarpes que uso são divinos
e isso basta para receber olhares de admiração.
Ao fim da noite entretanto, soluço, e asfixio, poções de bruxas.
Sinto teus cabelos entre minhas mãos, e lembro-me de campos
de ervas suaves, e crianças e gatos, e penso em mim chorando.
E choro. Atriz, ou pitonisa.
Mas será isto amor, ou teatro, ou auto-compadecimento?
Inteligente e refinada demais para o lamento público
mas sensível e ultra-romântica, patética, para a urbe que assoma
pelas letras e elétrons através da janela.
Canto e sou triste em minha alegria, e prefiro
dez ferrões de abelhas e dentes de serpentes inesperadas
que sobrevêm ao teu beijo, à morbidez do engano,
da subcultura e do mal-gosto que suportei antes de ontem.
Prefiro a guilhotina, dou-me o pescoço, os seios e a mente
à lâmina última e altiva, mas recuso a nuvem de calor do meio-dia.
Confesso, e sofro, mas não peço esmolas.

En passant

Noite de novembro. O Cosme Velho cheira a rosas e não há água na torneira. Bebo vinho e ouço Don Giovanni seduzindo Zerlina, a mais enxerida das personagens operísticas.

Thursday, November 06, 2008

Felipe

Reproduzido da graphic novel "V for Vendetta", de A. Moore.


Um Éden sem Deus
é a casa em que habita
o Adão sem maçã nem pecado
nem história, nem anjo Gabriel.
Não adianta – ainda tens um poema
um poema a mais
após a eclosão do fim.
O vinho sobre a mesa
harmoniza-se sob a luz
lunar espalhada pelos cantos.
Mesmo triste, o vinho
é harmonia com teu corpo.
Outros tentarão tirá-lo de ti
Outros tentarão imitá-lo.
És música – perfume afora
verde-escuro, e rosa, floresta.
O Jardim do Éden sem Deus
e os cantos do outono à capela.
És, Felipe, o anjo sem oração,
sem asas, sem perdão.

Sunday, November 02, 2008

Cantilena de Amor no Escuro


"Maria Madalena", Georges De La Tour



Acabou-se a luz
Da lâmpada elétrica
Escrevi patética
Uma ilha de luz.

Compondo no escuro
Cegueira e grafite
Desenhei no sulfite
Teus olhos de escuro.

Envolvida em breu
Núcleo quente da vela
Cultivo com ela
Teus cabelos de breu.

No espaço sem fim
A ilha dourada
Ampara a esplanada
De saudade sem fim.

De dentro do escuro
Palpita o pardal quente
Do desejo urgente
De vôo no escuro.

Thursday, October 30, 2008

Matadouro







P. Picasso, "Minotauro"




Ando displicente.
Estas minhas cantigas estão decadentes
mas dos teus braços tomo o manto
do torpor e quedo entre orquídeas.

Anjos malignos sopraram em meus ouvidos
uma solução bruta mas conveniente:

com esta caneta te imolo sem compaixão
despejo tua beleza repartida a faca
em meu poema, e te ofereço a
deuses exigentes.

No altar destes versos te sacrifico
e rezo sobre o sonho dos teus olhos escuros.

Monday, October 27, 2008

Batalha de Escorpiões



"Orchid", de R. Mapplethorpe



Já não sei o que fazer

com este pavor

Não sei o que fazer

deste calor

Onde pôr

estas flores vermelhas

Não sei como ouvir

essa música de bruxas

que desperta leões

na madrugada.

E o demônio que dança

às gargalhadas

Que fazer deste estupor?

Como calar estes tons

que perpetram asas escuras

nos lençóis que balançam

nos varais virgens?

O anjo me tortura

dia e noite

com olhos escurecidos

de taninos e aladas

foices de prata.

O anjo me retém

sob o escudo sangrento

de seu terror

de rosas e cantos.

Está declarada

a batalha no deserto

e em alto-mar.

Estou a postos.

Friday, October 24, 2008

Sphinx

"A Virgem", Gustav Klimt

Para FP

Houve a noite da esfinge.

A esfinge reina soberana
e meu coração impaciente
voa aflito com aflições
de pombo desértico
Eu, criança, diante da porta
Do corpo da esfinge soberana.

Na boca da esfinge
O lagarto colheu dardos
De doces intumescências
No repentino verão
De noturnas florescências.

A esfinge sorri na areia.

Tempestades estrangeiras
Trouxeram os olores
Transparentes ervas úmidas
Com a bela silhueta escura
Da esfinge marinha.

Na noite da esfinge
Eu, nômade, bebi de anis
Em cálice tomado de dores
Risonhas e chuvas frescas.
A esfinge, bela na noite,
Reina soberana na areia.

O instrumento do demônio
Canta na garganta de cerejas amargas.

A esfinge reina soberana.

Sunday, October 19, 2008

Ars Erotica

"Ophelia", de Millais



“Amo a floresta. Ruim é a vida nas cidades: há ali demasiados libidinosos.”
Nietzsche

I.Ciganos e suas rabecas

O amor expande violeta
a íris da consciência.
É o que dizem.

Cada um é só
com o corpo embargado de espírito.
Cada um é sozinho.

A imensa ânsia
para o que não habita em si
O eterno andarilho

Adormeço sob As Três Marias
Adormeço um pouco em ti.


II.Ressona a Grande Explosão

Sorrio de graça e em minha taça
descansa a roxa solidão de meu amor

Acredito na música que ressoa ao fundo
do mundo e desta poeira
Acredito na sinfonia que reverbera
por trás da dança das varejeiras

Quando acabar-se o mundo
Após uma explosão fraternal
Ranger de gritos apavorados
será possível ouvir gigante
um concerto para piano
mozartiano


III.Lascívia

Canto com as cigarras
Canto um pouco em ti.

Acariciar asas violetas se possível;
cantar o que não está perto.

Na brisa gélida que treme as últimas folhas
das mortas árvores de abril
dança uma valsa a bela Incerteza

Nenhuma flor marca meu jazigo
Meu espectro é dignamente pobre, e vive exonerado
exilado nos píncaros brancos
do desejo que lhe estica a alma
como a um manto de linho antigo.

O amor é uma libélula infernal
Asas; e que deixam rastros na água.


IV.Divertimento

Os deuses banham-se
em jardins de begônias
e, vê, as serpentes dependuradas
nas amoreiras emaranhadas
traçam na tepidez da primavera
mórbidas grades de galhos
cálidas ao olhar das feras

os deuses banham-se
em jardins de begônias

Num compasso crescendo
águas azuis no momento
em que um satírico vento
revolve as lupercais
dos teus olhos abissais.

Preenchem o escuro Vale das Máquinas
patéticas eletrificadas, gás, carvão e hulha
sublime kyrie disperso na poeira
flutuante espaço tenso em ostinato
doura os céus dos acontecimentos
um minuto antes de um divertimento

que ressoa para teus verdes sorrisos na rua
os quais contêm todos os sorrisos da lua

Tuesday, October 14, 2008

Poema do Escuro




Cheguei a pensar que não iria mais te escrever poemas nem coisas afins belas.
Porque pensava-me velha, pensava-me finda no círculo da hora na barca que dança,
fechada numa decisão de guirlandas carnívoras, e bastava-me a escravidão
da idéia, da mesma frase, da mesma ofensa, da mesma nagação da liberdade
mas agora na noite a erva e lua, a estrela a água se fazem senhoras
e nenhuma circunstância roubará teu corpo e a amálgama da essência de você.
Porque em nenhures estarei e não sinto a solidão, pois moro com a Lua
e durmo com o deus mais altivo e tenso de todos, o Sol
e o céu inteiro é minha casa, e você, música, minha porteira
E tua boca, topázio marinho no portão de entrada para o mundo
e neles habito... habito nos ares com as gaivotas e falcões
intimamente em grandes envergaduras.
Busco a estrela, e bebo a alvorada, e lá está, esse homem que se senta esguio
na última laje, no ducentésimo galho de jasmineiras -- alías orquídeas
Que te adoro rico em cores, que te quero desenhado em rosas e vermelhos e azuis
que te quero selvagem da masculinidade típica dos céus de outubro
e das peças magníficas para sopros e metal... com entradas particulares para as cordas.
Homem, nascemos para isso, para isso crescemos, para o cântico... alvoradas
luzes turvas da madrugada, e vinhos escuros, tons anis, desejos fulvos.
E caio num ninho de suaves lilases, que são lembranças de lábios e noites unidas em mi bemol.

Friday, October 10, 2008

Quote

Céu de Ouro Preto depois de chuva.

"Freedom lies in being bold."

Robert Frost


Sunday, October 05, 2008

Gosto de vinho.


Vinho e chama de vela
Vinho e jazz que se parte
entre os suspiros e silêncio - mais
um coração aturdido.

Vinho e cantiga das horas
Vinho e lembrança de amoras
Vinho e um libertário estertor
Vinho, de fino amoroso horror.

Saturday, October 04, 2008

Gosto de... continuação.



Para não dizerem que não falei de flores....

E não somente siciliano. Não sou assim tão fã de
trocadilhos óbvios, é que veio a calhar...

O perfume é único. Mas o tahiti é melhor, mais azedo, mais profundo, mais ácido, mais intenso.

Só falta o jazz.

Friday, October 03, 2008

Uma daquelas listas de coisas de que gostamos.

Ao contrário do que muitos pensarão, não foi inspirada em Amélie Poulain, mas sim num blog português muito belo que visitei recentemente (se vocês clicarem no título da postagem, que está em highlight, irão parar nesse dito endereço lusitano). Relembrei com ele um velho hábito de infância e adolescência, o de listar coisas de que gosto. Pode ser uma tentativa de poesia. Uma nova forma, a poesia-lista? Calma, é só uma piada.

Só para começar, as coisas mais óbvias. Muitas são clichês, mas fazer o quê? É que nem sexo, universalmente apreciado. Clichê dos bons.

Prometo escrever coisas mais sutis da próxima vez... sim, essa listinha continua.

Gosto de:

1. A letra csi do alfabeto grego. Tenho numa postagem antiga deste blog uma série de fotos de csis, para quem não lembra ou não sabe qual é. Aliás, especializei-me em desenhá-la. Merecia já um vale-doutorado só por ter aprendido a escrever direito, quando nos institutos de matemática há essa legião de professores e bons matemáticos quase que totalmente incapazes de escrevê-la, mesmo sendo tão requisitada.

2. Taças de vinho atrás de velas acesas, com bojo largo, de forma que possam refletir sutilmente, na sua convexidade elegante, a luz da chama.

3. Gatos.

4. Cheiro de livros bem novos e de livros bem velhos.

5. Tardes em que o vento é intenso porque choverá em breve.

6. Pedras redondas submersas em água cristalina.

7. A hora 11:11.

8. A poesia de Gabriela Mistral.

9. O cheiro de pão quente e a voz da mãe cantando de manhã enquanto faz café.

10. A sensação de pés descalços sobre a grama molhada de manhã cedo.

11. Ficar silenciosa numa mesa em que todas as pessoas conversam e fazem balbúrdia alegremente, deixando fluir através do corpo, como se não estivesse ali, como se já tivesse morrido, a enervação dos pensamentos e o calor da vida humana.

12. A cor lilás.

13. Árvores jasmineiras quando chove.

14. Caminhos, estradas, principalmente de madrugada. Olhar para o céu de dentro da janela do carro, ônibus, o que for, e ver o escuro salpicado da Via Láctea cedendo gentilmente a vez para uma ainda ingênua luz debutante.

15. Beijar a boca daquele por quem se está apaixonada tendo bebido água, e ele, vinho.

16. Lençóis e véus.

17. Mãos de pessoas idosas.

18. O espaço vazio e silencioso entre as estantes de alguma grande e rica biblioteca. fechar os olhos e respirar nesse momento, parada entre os livros.

19. Barcos.

20. Janelas.

Wednesday, October 01, 2008

The Lark Ascending - Again

"He rises and begins to round,
He drops the silver chain of sound,
Of many links without a break,
In chirrup, whistle, slur and shake.
For singing 'til his heaven fills,
'Tis love of earth that he instils,
And ever winging up and up,
Our valley is his golden cup,
And he the wine which overflows
To lift us with him as he goes
'Til lost on his aerial rings
In light, and then the fancy sings."

Excerto do poema de George Meredith que V. Williams ressaltou no início da partitura da belíssima peça homônima, sem o "again".

DICA: ouvir a gravação de Nigel Kennedy com a Royal Philarmonic Orchestra, sob regência de Simon Rattle.

Monday, September 29, 2008

Joni fala e eu falo



"I am on a lonely road and I am traveling
looking for the key to set me free
Oh the jealousy, the greed is the unraveling
It's the unraveling
and it undoes all the joy that could be..." - J. Mitchell, "All I Want"


Thursday, September 18, 2008

Eterno Retorno



para FP
E lá vem de novo o pássaro cambaleante
Nos meus pesadelos eróticos sublimes anímicos
Matemáticos sangüíneos marinhos perdidos
Música pra meus pulmões, lá vem você
Para me arrepiar na noite das bruxas entre árvores
Para me lembrar de que mentir é arma de crianças

Lá vem o marinheiro, lá vem a canção
Lá vem o barco nas sombras, lá vem o lobo da madrugada
Lá vem o desejo que me diz à nuca: "nunca -
- Mas aqui estou, e me amas.

E tens o mal gosto de mal citar o pobre Nietzsche,
enquanto me expões teus seios em sofrimento."

Sunday, August 24, 2008

A Noite - Ciranda

Se é silêncio, sonhamos com chuvas.
Se é de tormento, encolhemos no leito
e imploramos pelo licor do amor.
Se é insone, estamos alertas e vive o pesadelo.
Se é silêncio novamente, desce o fluxo do rio
fresco sob as flores noite adentro.

Friday, July 11, 2008

The Most Valuable Thing




Sozan, a Chinese Zen master, was asked by a student: "What is the most valuable thing in the world?"

The master replied: "The head of a dead cat."

"Why is the head of a dead cat the most valuable thing in the world?" inquired the student.

Sozan replied: "Because no one can name its price."

Sunday, June 08, 2008

Os Pássaros e Truffaut






Abrimos as janelas e os azuis revoam.

A cidade está agora embriagada em calmo frio
Num abraço sinto teu coração sobressaltado
de névoa cintilante qua as gaivotas deixam para trás.
Sonho que toco tuas mãos e as penas das aves
entre folhas de árvores espargem luzes ao Tempo.
E o Sol num instante acorda e toma seu cetro,
e desperta teu olhar que em tímido verde-escuro
passeia e percebe o silencioso movimento
de cenas e nossos amores desenhados em nanquim
Estes caminham pela sala, sentam-se e põem flores
nos vasos.

A cidade está imersa em seus desdéns.
Nós nos perdemos do Tempo, e isso nos dá direito
ao canto
como aos poetas cegos de outrora
era dada uma nova e profunda visão.
O céu nos responde com uma cantiga ao piano
que ingenuamente reverbera no azul, pálido
e este mar é somente meu e teu, os tolos se
esconderam.

As cenas, a corrida na ponte, o chalé no vale,
o turbilhão da vida, diante deles nos rimos
mas temo o Tempo por um instante, que temeroso
de nossa displiscência, nos tome e nos devore
como seus legítimos filhos, que ameaçam seu trono.
O tempo detesta as crianças, o Bastardo.

Eu te abraço e teu calor me conta
a história de um filme e bicicletas
e de crianças que também reinventam
seus amores e libertam pássaros
nas manhãs sem sol debruçados sobre o mar.

Lullaby, by W. H. Auden






Lay your sleeping head, my love,

Human on my faithless arm;

Time and fevers burn away

Individual beauty from

Thoughtful children, and the grave

Proves the child ephemeral:

But in my arms till break of day

Let the living creature lie,

Mortal, guilty, but to me

The entirely beautiful.



Soul and body have no bounds:

To lovers as they lie upon

Her tolerant enchanted slope

In their ordinary swoon,

Grave the vision Venus sends

Of supernatural sympathy,

Universal love and hope;

While an abstract insight wakes

Among the glaciers and the rocks

The hermit's carnal ecstasy.



Certainty, fidelity

On the stroke of midnight pass

Like vibrations of a bell

And fashionable madmen raise

Their pedantic boring cry:

Every farthing of the cost,

All the dreaded cards foretell,

Shall be paid, but from this night

Not a whisper, not a thought,

Not a kiss nor look be lost.



Beauty, midnight, vision dies:

Let the winds of dawn that blow

Softly round your dreaming head

Such a day of welcome show

Eye and knocking heart may bless,

Find our mortal world enough;

Noons of dryness find you fed

By the involuntary powers,

Nights of insult let you pass

Watched by every human love.

Thursday, May 08, 2008

Poema circunstancial

para N

Olhei em meus papéis em baús e guardados
sem importância, sem cuidados especiais,
e percebi que tenho negligenciado os símbolos
das coisas que passam como fantasmas suaves
entre árvores, com claras vestes e mantas,
com olhos semicerrados e sorrisos contidos.
Mas hoje não, hoje cuidarei deles
porque você me inspira, estendendo às minhas mãos
a taça com água límpida e pedras verdes no fundo do vidro.

Nos olhos uma ternura que sempre esteve na roda de ciranda
que estava na janela semi-aberta, no vaso de crisântemos
na lâmpada queimada, na xícara de cerâmica, no algodão da roupa.

Aquieto-me e olho teu rosto na meia-luz. Não estranho o verde
nem o perfil de quem me esperava no cais, desde que parti
não lembro mais quando. Há muitos anos, parece-me.

Nesse silêncio não procuro os caminhos mais complicados
como era de se esperar de alguém cujo coração
teme sua própria crosta vermelha e seus músculos brutos.

Fica aqui em meu colo o arranjo de plantas amorosas.
Fica também o adormecimento que sorri nos barcos de quem pesca
numa tarde como essa, num lago entre montes verdes, e dormita
e pesca e dormita e cantarola, e aspira e vê libélulas
que põem seus ovos sobre a face limpa da água violeta, e que se vão
antes que eu tenha tempo de edificar um pensamento sóbrio
para ordenar não no tempo, mas num espaço próprio, olhos, boca,
perfume, palavras, presença, sonhos instantâneos.

A lagoa e as libélulas, o perfume e o pequenos cantos entre lábios.
É esta a voz que me traz um sonho que tive em menina
e do qual lembro-me agora que as libélulas dançam no espelho.



Tuesday, April 29, 2008

H.D. Thoreau

"I once had a sparrow alight upon my shoulder for a moment, while I was hoeing in a village garden, and I felt that I was more distinguished by that circumstance that I should have been by any epaulet I could have worn."

Joni Mitchell - Woodstock

Sunday, April 27, 2008

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade)

Monday, April 14, 2008

Exit Music - Brad Mehldau Trio



Poema para o Fim de Um Filme

No breu enquadrado dizem adeus
o amor, os cantos, os carros,
Passamos e adormeceremos.
Desperta estarei para ver todos
os que acenam do cais para mim
E eu lhes acenarei
Até que a morte nos separe.

Thursday, April 10, 2008

Coeur qui soupire n'a pas ce qu'il désire


É, é ele mesmo.

As Ninfas



Mas entrar por um momento no reino que me é destinado
por natureza e adequação, o feminino branco e rosado
Atender à graciosa sinuosidade, à reservada afetação
ao gesto nu e musical que perfuma o espaço
com véus e cores suaves, e vozes moduladas

Queria pisar com os pés finos na relva fresca
do eterno desapego e dos sorrisos infantis
levemente tocado por uma divina sensualidade altiva
e livre, cantando os poemas mais arredios e colhendo flores
mal falando, apenas para libertar a verdade
de nossos corpos com canções inauditas.

Como as dançarinas de art-nouveau
e a bela Salomé, apaixonada e lancinante
ter razão sem precisar inclinar-me à vulgar
e masculina argumentação, ao palavrório
sem recorrer à Lei, à Lógica adolescente
à Ordem dos Sacerdotes descrentes, os homens
e seu eterno reino de sons bárbaros e gargalhadas atrozes
e negociatas e certezas de segunda classe
Um mundo emprestado de nós mesmos.

A fonte é fina e fria
O regato nos espera
As flores recurvam-se ao vento
Os sorrisos silenciosos no vento
O pão da eternidade sob
as cores e sabores das teias
de arte, volúpia e oração.

Wednesday, April 02, 2008

Musgo

O líquen cresce no tempo
Tempo que adormeceu nas pedras no alto da montanha
que olha para baixo anuviada, cheia de tédio
como se houvesse bebido Martini seco
O tempo é uma harmonia fundamental que se soergue
somente vez por outra quando as aves despertam
e as cigarras anunciam a vinda do calor sobre o rio.
O tempo não tem ganas
O tempo lê, compõe a canta.
As pedras em seus leitos amanhecem e morrem
O silêncio das gargantas e dos córregos dentro das grutas
As flores inevitáveis pelos caminhos
Aos sobreviventes, à sinfonia dos entes nos bosques úmidos
que espalham seus ramos e as praias que cedem femininas
às súplicas do eterno oceano
Uma cantiga de ninar.


Aristocracia legítima a dos salgueiros, ipês, mangueiras
a dos insetos, dos seres brutos que nascem e soçobram
na antiga morada, o deserto tomado por reis
famintos, reis inocentes
O deserto, a terra inteira de flores, amarílis, rosas, petúnias
e malignas orquídeas, bruxas inertes, e seus príncipes
acorrentados, os beija-flores furta-cor.
O gato se deita onde é barão
O pássaro perscruta onde é delfim
O rio avança onde é soberano.

A Visão

Como um gato
deitei-me e olhei para a escada
No nível da terra
é que se enxerga o mundo
o mundaréu como ele é
Como uma ave migratória
flutuei bem alto, e alto
nos céus das andorinhas doidas
é que enxerguei o mundaréu de doidos
e fogo, água e fumaça


De pé no chão não se enxerga
coisa alguma que valha pois
a vista fica embaçada pela névoa suja


Como um gato espreitei
a verde grama tão perfumada
Como abutre contemplei
de cima os cemitérios humanos


Só os sons guardei comigo
nas alturas fechei os sons da terra
no meu coração que entorna saudade


Grudada ao chão pus o ouvido
no seio do mundo e auscultei os trabalhos
no ventre do esquecimento.

Sunday, March 30, 2008

Pôr-do-sol eterno

Clique no título.
O sol de fato nunca se põe. Pode-se viver constantemente sob crepúsculos. Ah, bela vida a do crepúsculo. Assim deve ser a vida após a morte. Ela existe, e é um constante viver arrebóis.

Friday, March 28, 2008

Silence




(Thomas Hood)

There is a silence where hath been no sound,
There is a silence where no sound may be,
In the cold grave--under the deep, deep, sea,
Or in wide desert where no life is found,
Which hath been mute, and still must sleep profound;
No voice is hushed--no life treads silently,
But clouds and cloudy shadows wander free,
That never spoke, over the idle ground:
But in green ruins, in the desolate walls
Of antique palaces, where Man hath been,
Though the dun fox, or wild hyena, calls,
And owls, that flit continually between,
Shriek to the echo, and the low winds moan,
There the true Silence is, self-conscious and alone.

Convento

Nestes dias monásticos
de acalentar orações e cânticos
bebo licores de uva escondida
da Madre Superiora.

Nesta pobreza eremita
na pedra esquecida
aqueço na pequena bolsa de pano
os sons daquele que, escondida, amo.

Nos jardins noturnos
atrás do muro exterior
me posto em febre a ouvir
escondida, as cadenzas e grilos sob a lua.

Durante os rosários de mil dias
teço suspiros, escondida, em agonia
aos teus cabelos e olhos cheios de luz
mas a Madre pensa que é para o Menino Jesus.

Sunday, March 16, 2008

Mario Quintana - O Tempo

O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós,
[para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho
[paralítico a tocar a campainha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!


Porque elas, simplesmente, o ignoram...

Saturday, March 01, 2008

Pássaro que Fica ou Vai




Pássaro que fica ou vai
A dança permanece
Nos teus braços imaginários adormeço
sob asas delgadas eu esqueço

Você eu amarei sempre. A cada manhã
que as lâmpadas dos postes se apagarem
a cada entardecer em que as cigarras cantem
Não fujo, minha sina é ouvir teu solitário lamento

O som do riacho é a eternidade.
Sonhar teus cabelos minha canção.
A ave levanta seu vôo na verde escuridão
e deixa ilesas as nuvens apaixonadas.

Antes a morte levará minhas lembranças
e a velhice tomará do meu corpo a tensão do amor
mas isso nada leva embora, a poesia e a música
que tuas finas mãos lançaram a mim
como um falso casto véu púrpura perfumado de estupor.