Saturday, May 16, 2009

Hoje escreverei o melhor poema da minha vida




Fui acoradada pelo lilás chuvoso da manhã
após uma noite afogada em nenúfares e ventos
Levantei-me decidida a retirar-me do pântano, levando minhas armas
deixado as pedras fumegantes, e cinzas fedidas
onde não tive, entretanto, direito ao pão.

Escreveram num muro do subúrbio:
"Vivos, somos presos, torturados, esquecidos
Mortos, só deixamos saudade."
Escreveram na esquina às 6 da manhã.

Hoje acordei decidida a calçar botas longas
e subir o rochedo, pois meus pés pisaram no cascalho
em em espinhos finíssimos brancos.
Encontrei arqueiros à distância,
ensinaram-me a arte da defesa.
Enquanto no fim da tarde de ontem
ouvi vozes de feiticeiras no crepúsculo que,
como os felinos, adormecem e banqueteiam-se sobre a solidão.
Suas vozes nos aconselham sobre a madrugada
e contra-feitiços que evitassem os gemidos
dos atropelados e mortos-vivos da estrada.

Levo minhas armas, carrego meu fumo,
minha garrafa azul, meu livro de memórias.
Com a espada, arranco páginas do livro.
Com a garrafa, adormeço e mancho páginas.
Com o fumo, escrevo novos poemas.
Fecho-o, e percebo que já é manhã,
entre mantras que a terra sussurra aos céus.

Hoje percebi que é chegado o dia
da noite em que escreverei meu melhor poema.
Poema sem adeuses, nem vãs esperanças
sem cantigas de roda, sem auspícios de cartas
sem grandes paixões nem lágrimas.
Será um poema sem vitórias de heróis
em campos abertos diante de muradas e passadiços.
Será um poema sem lamentos pelos perdedores.
Um poema sem carinhos e desejos de orquídeas negras,
sem alfazemas, sem vinho, sem estrelas.
O melhor poema, sem maldições, sem violações.

Será um poema que não foi jamais escrito.

Friday, May 15, 2009

Hora na rodovia





E na madrugada, entre pequenos morros
que parecem não pertencer a este mundo
Chega a hora em que nem os felinos estão à espreita
pois ainda é cedo, sombras de fantasmas
aterrorizam os mais sutis instintos.
É a hora em que a rodovia parece mais longa e sem acostamentos.
E parece que ouço uns gemidos de tristeza à beira dela
e uns vultos de atropelados que foram abandonados
parecem arrastar-se e tentar agarrar as rodas do carro.

A hora em que a água está escura, e não há ventos.
É a hora em que um drink numa espelunca seria um consolo
e quem sabe uma caneta e papel, pois conversas seriam fortuna
entre túmulos e esqueletos recostados nas capelas.

Hora em que o silêncio é asfixiante
como uma serpente que se enrosca à volta do tempo
e sentimos seu aperto em nossas nucas
Hora em que morremos, hora em que lutamos corajosos
contra o pueril adormecimento.

Poetas





Poetas gostam de sal
Poetas gostam de cigarro e álcool
gostam de flores e insetos que se escondem
entre rachaduras nas paredes
Será que poetas realmente amam?

Poetas têm cores favoritas?
Seguem seriados e novelas com ansiedade infantil deixando de atender o telefone?
Poetas jogam videogame e dançam ao som de heavy metal sacudindo os cabelos?
Poetas caminham pelo shopping contando dinheiro
e sonhando em gastar seu limite de crédito em roupas
para darem a impressão de serem elegantes pessoas
alheias blasés e cheias de sex-appeal pervertido?


Poetas gostam também de chuva e bancos de praças e gatos de rua.
Poetas dormem com as nuvens nos olhos e as luzes do subúrbio de madrugada.
No entando, aposto como também choram de coração partido contra a parede
ouvindo uma música com acordes previsíveis em tons menores
que surgem na hora exata do pensamento triste em alguma rádio decadente.

Poetas gostam de velas e luzes fracas, e ver seus reflexos
nos vidros das taças de vinho e copos de whiskey sem gelo.
Poetas gostam de ventos e carros na estrada, e também
de pin-ups dirigindo conversíveis e samurais com espadas em riste.

Poetas têm cores favoritas e travesseiros favoritos
Poetas cantam para todos desde que eles os abandonem
Desde que não os amemos, os poetas abrem asas e tomam céus vazios.

Wednesday, May 13, 2009

Perguntaram-me desde quando sou outsider






Desde que eu tinha uns 5 anos e entrei no jardim... tudo o que eu fazia era diferente. Além de ser nerd e tímida, o que já me jogava numa ingrata posição entre a garotada. Cresci assim. Aos 16, descobri certas perspectivas que mudaram a minha maneira de escrever poesia. Isolei-me ainda mais. Enveredei para a matemática, mas sempre apaixonada por música diferente, gostos diferentes para tudo. Nomeu primeiro ano de graduação, eu andava pelo campus da Universidade com uma calça super larga de tecido que parecia linho e bolsos atrás... era do meu pai. Um dia, uma menina super "prafrentex" que se dizia alternativa pensou que eu tb tava querendo me exibir pra mostrar o quanto eu era alternativa e me falou: pô, amei essa sua calça... tem bolso atrás, muito diferente! Eu falei que era do meu pai e eu usava porque tava sem grana e a calça era maneira. Ela deve ter pensado que eu era lésbica ou algo assim...:P
Hoje sou vegetariana, curto Joni Mitchell, leio Thoreau e estou começando a estudar o cello... tudo me joga pro escanteio social. Mas eu gosto assim.

Monday, May 11, 2009

Canção ao Cigano








Deliram as carnívoras urtigas
E zune no corpo o sopro do vento
- Errante, dedica-me uma oração,
que ciciando na pele ausente
vibra o vermelho cobre do amor.

E essa chuva, que traz ao mundo
Um sonho de ovo afogado,
Essa chuva que nina os demônios
Atormentadores sem pudor
- Viajante, recita meu nome
uma só vez em teus estribilhos.

Sou uma corda muito esticada
Ao frio do inverno exposta.
Malditas cravelhas impiedosas.
- Belo cigano, toca-me uma romanza
Que te dou estas romãs
Na chuva recém-colhidas.
Bem aventurados os que
Se sentam na chuva, esperando.

Friday, April 17, 2009

Felinos





É madrugada e está frio - o gato na janela
e outro gato na rua entre portões, e salta entre muros
Silêncio do rio no portão, silêncio da mata adiante
Silêncio na noite fria de inverno que se esgueira
O gato ausculta a madrugada na janela.
O gato caminha entre ervas na rua e entre dejetos
caminha digno e silencioso.
Os felinos tramam em silêncio a Queda.

Na noite de sexta-feira, raiar de sábado
ainda incerto, em que o sol ainda nem se lembra
de que despontará e suas luzes adormecerão os animais
caçadores, os noturnos que enxergam infravermelhos.
Os felinos erguem espadas esguias de dentro dos olhos claros
na madrugada acendem chamas fluorescentes.

O rio canta, a margem espanta insetos
As torrentes espargem sinfonias brutais
e pequenos seres viventes morrem antes da alvorada.
Os felinos lutam batalhas em silêncio entre si na noite
Os felinos saltam por entre muradas e grades
mudos, suaves, finos, cheios de si.
Não sentem fome nem sede, sentem somente
a noite que se mostra infinita sem estrelas.

Saturday, April 11, 2009

O nome





Só sei dizer em poesia
porque sou covarde - só sei dizer em verso.
Mas virou a madrugada do dia
em que te reconheci, mar que quero ver todo dia
Sol que desejo toda noite, estrela que está velada
Falei com o escuro, e ele me disse teu nome

Disse o que disse a cabala e o que cantou o tarot
no meio da sujeira dos dias, nos arbustos das noites.
Disse encarnado em deus bêbado, em pitonisa por entre vapores
Disse-me que adormecesse, e aguardasse, e respirasse
E disse-me teu nome, disse por entre livros mofados.

Meu ventre contém névoas e luas que não conheço.
Somente agora vejo e ouço o que a sacerdotisa escondida,
por trás de todas as resoluções e chuvas, tem sussurrado.
Porque deuses sussurram sempre.

Desta vez ouvi o escuro e as estrelas de Aquário
soprarem suavemente e as chamas nas montanhas
e as aranhas urdirem em teias, e os melros anunciarem
O que o escuro disse, no frio e pleno entre pedras e o mar do Arpoador
Disse teu nome, o nome que quero para toda a vida.

Thursday, April 09, 2009

Toada para a noite



cena de "O Rosto", de Ingmar Bergman




Somente eu ouço o teu coração
à distância entre o palco e a platéia
Somente eu estou dentro dos teus olhos fechados
vendo as notas e as lágrimas... sou tua irmã
Estamos viajando em mares que se ligam por rios
Estamos juntos na chuva que encharca a estrada
de lama negra, que enevoa o horizonte
que entristece as manhãs difíceis de despertar.

Estamos de mãos dadas no escuro, na poeira
e cada um numa gruta, num passadiço sobre riachos
profundos, riachos perdidos de estrelas vazias
Estamos de mãos dadas nas noites envelhecidas.

Eu te amo. E no silêncio, uma oração te componho
para que leves na estrada de terra apinhada
de faces rudes, de carantonhas grotescas,
de vilões bêbados armados, de mulheres lascivas
por entre a estupidez e a perversidade
vais caminhar ileso, a salvo, no ninho da minha canção.

Canta, que eu te seguirei.

Friday, March 27, 2009

Canção dos Escorpiões






O corpo no tempo, o corpo no espaço
pede mais, e pede flores e música.
No vento, no alento, seus cabelos pretos de madrugada
nas minhas mãos febris. Ferrão sim,
mas preciso sempre dele pro meu canto.
Se você mora na música, eu moro na sua letra.

Eu sou sua, você é meu. Não pode ver?

Orvalho e veneno se espalham no verde escuro
por trás do azul laminado da Lagoa.
Meu coração pulando desde o entardecer.
Sua respiração sobre a minha, campo uníssono.

Eu sou sua, você é meu. Não pode ver?

Na corda de metal eu caminho em cada noite
desde a primeira ferroada. Veneno que não se foi
com o tempo, com os eventos, com rostos e asas no ar.

Mas sou bravia, como mares calmos à noite
que levantam tempestades nos amanheceres.
Estou armada, estou a postos.

Eu sou sua, você é meu. Quem não pode ver?

Tuesday, March 17, 2009

Amanhã



"Chronos devorando um de seus filhos", Goya

Amanhã é dia de matadouro
Amanhã é dia de sacrifício
Criança que vai ao encontro
do demônio que lhe sopra
nos ouvidos as cantigas macabras
de todas as negras noites.
Amanhã vai ao cemitério
Amanhã vai à estrada que dá muito longe.
Amanhã, amanhã, amanhã
amanhã tenho medo
amanhã vem essa luz de felicidade
à qual meus olhos negam boas-vindas.
Por que será? Têm sexto sentido
Têm visão de cego
no matadouro vêem no escuro.

Wednesday, March 11, 2009

Jazz... afinal



Brad Mehldau Trio.

Sem mais, na noite, na dispersão, no calor das estrelas, no desvario... o gato dorme na janela, e sonhamos sob as folhas das trepadeiras. Dias mais claros, noites mais escuras.

Saturday, February 28, 2009

IX






Idéias na alvorada.
Tocar um instrumento
Ouvir os passarinhos.

VIII






Um longo caminho
para a simplicidade -
Ninho no galho da amoreira.

VII




A lamparina no escuro
Noite fria sem vento
Folha seca toca o solo.

Friday, February 27, 2009

VI




O gato se deita
na beirada da janela.
O rio entra na noite.

Tuesday, February 24, 2009

V




O diapasão de pé
sobre a madeira lisa
O vento é alto.

Monday, February 23, 2009

IV

foto: John Tsui


A noite começa
alívio no verão
e as cigarras meditam.

III




Uma flauta no escuro
Não vejo ninguém
Eis o som do mar.

Sunday, February 22, 2009

II




Sozinha na multidão
A folha seca
na floresta.

Saturday, February 21, 2009

I




O artesão não trabalha pensando no repouso
e nem repousa com o trabalho nos sonhos.
Acorde, capitão.

Sequência Zen



Está assim inaugurada, em tempos de Carnaval nas ruas, a temporada Zen no Jazz e Suco de Limão.



"Tudo o que restou
dos sonhos dos guerreiros —
Capim de verão"


Bashô

Friday, February 13, 2009

O que não tem nome




Rua abaixo há uma estrela.
Rua abaixo há um gato na esquina.
No céu nuvens cor de cinza sobre o azul escuro.
Mais à frente o mar medonho e sereno. E anões fazem silêncio.
Depois da janela há pedras e fantasmas que descem pálpebras
e os pássaros fazem malabarismos de felicidade.
E são a prova de que o inominável está presente, nu.
O sol aquece minha pele e meu corpo já disse sim.
Meus olhos lêem cantos no verde das árvores.
Ainda que eu fosse a balconista daquela padaria
e só passasse as horas longas a servir pães quentes
saberia que o inominável está no entorno.
Em cima dos muros, entre os carros, no ar com cheiro de grama.

Seita mística é nada mais que ter sentidos, olhos grandes,
e principalmente ouvidos. Ouvidos na nuca.
Que a percepção maior da alegria e do silêncio
por trás das coisas sussurra e murmura na nuca,
debaixo dos pés, no couro cabeludo.

O gato saltou para a janela acima do precipício.
O piano começou uma peça em tom menor.
O rio desce a rua para o mar, para a baía.

Durmo já. E meu sorriso se abre no sonho
como as asas de uma borboleta quando nasce o sol,
e sobre o som do rio ali adiante com nenúfares e grilos mortos
na manhã criança, que nunca se esquece de nada.

Sunday, February 08, 2009

Um dia vou sumir dessas bandas



"Ode on Solitude", de Alexander Pope

Perdi minha paciência.
Esses racionalistas estúpidos de olhos enormes,
esses mesquinhos de grandes bocas, esses bobocas
essas dondocas, os cheios de si com suas panças
os que invejam outros e jogam pedras.

Por que diabos tenho que dividir o mundo com essas gentes?
Mas me digam... dou uma garrafa de chateaux-margaux a quem me convencer.
Se eu tivesse uma.

Achar o centro e ouvir a música no escuro
Isso eu quero ver quem me ensinará a fazer.
Está para nascer quem tenha coragem
de encarar essas carantonhas e ser puro,
e ao mesmo tempo sorria e continue cantando.

Precisaria ser novamente um pássaro
com a consciência plena de um buda,
ser uma árvore disponível e plena
mas com a clareza de perceção de um Mahavira.

Por isso vou pegar meus instrumentos musicais,
meu gatinho, vou gastar o cartão de crédito com bebidas
e ficar com o nome sujo na praça, embriagada.
Vou doar o resto dessas porcarias
e ir procurá-lo nas florestas,
nos vales rochosos, nas praias, nas ilhas
Vou sumir daqui em busca dele
e ninguém nunca mais vai saber de mim.

Tuesday, February 03, 2009

Corvo




inspirado após audição de "Black Crow", de Joni Mitchell

Desce do céu em rasante
Desce a rua radiante
Sobe num arranco de alegria
ao céu, a rua, em solidão brilhante.

Anda entre cogumelos
com a cabeça abaixada
para evitar os olhares - ah!
estes olhares tétricos amarelos
dos transeuntes, das donas de casa
que exigem seus direitos no mercado.
Sobe e desce presentindo os corpos
suas presenças vazias ou coloridas
- tanto faz. O olho do céu lhe guia.

Desenhando música e perpetrando ventanias
mesmo suaves, é de rapina, mas rebelde.
Recusa seu destino de bruto, de caçador
recusa-se a participar das touradas e dos jogos
esses sanguinolentos jogos de cartas - vejam como suam
e se incham seus papos de orgulho na disputa.
- O céu nublado lhe basta, rapina desgarrada.

Serpenteia, desce, empoleira-se nas árvores
nos jardins, nas praias - e vai-se
em busca daquilo outro, deste e daquela.
De sonhos verdes e pesadelos mascarados.

Ave calma, faz silêncio em sua gritaria.
Ave solitária, prevê destinos nas nuvens.
Ave à qual Deus, velho safado, negou o canto
mas ela se vinga tocando nos varais e nas cercas
a música do anseio no meio da noite,
palpitando de morte na vertigem plana do dia.

Thursday, January 29, 2009

Como ser um grande líder




Ocorre que temos de ser muito otimistas.
Sempre dizendo aos outros como vencer
e ser líderes e grandes chefes.
Ora, se todos forem chefes,
não sobrará quem se comande.
E assim começa a interminável demanda.

Deviam esses desocupados mandantes
irem aos cais verem crepúsculos
e andar descalços e esquecerem os outros.
Tomem um drinque - sei fazer um ótimo martini.

Eles se debatem em mal gosto,
em muitas horas de café, em muitos ofícios.
Também sei preparar uma divina caipivodka
e uma cuba libre de se tirar o chapéu.

Desocupados.

Love me like a river does



amor, quem te viu
andando nu pelas estradas?
quem conta este conto?
que pescador te viu em alto mar?

quem foi a criança
que tola, te viu na varanda
e gritou te denunciando à família
reunida na sala de estar
enquanto todos davam as costas?
-- ah, crianças de sete anos!

amor, quem escreveu teu nome
nas paredes dos templos
enquanto a fumaça das velas
infectava os bolsos e véus das gentes?

amor, quem te viu á beira-mar à noite curvo sobre as ondas?
quem te ouviu atrás do bosque com as loucas varridas?
que infeliz te flagrou no banho entre os peixes?
que sonhador esteve a crer na tua sombra por este mundo?

Tuesday, January 27, 2009

As Bruxas


The Joker, in "The Dark Knight", character played by Heath Ledger


Hoje é dia em que as bruxas apenas gargalham
Vão - falem de seus medos e assuntos os mais variados
Suas profundidades abissais, proponham suas metas e possibilidades
seus desvios para as crises, suas previsões medonhas,
seus planos inevitáveis, seus projetos merecedores de notas máximas.

As bruxas gargalham na floresta e na torre.

Crianças gordas prontas para o forno,
que decoraram suas falas e suas orações
precisamente como os mestres escolares mandaram
e cujas perguntas são as que os professores provocaram...
Crianças gordas como porquinhos quase assados, orem.

Mas as bruxas gargalham no quintal e no galinheiro.
Onde tu vais buscar a roupa que lavei e que já secou.

Gentes de perguntas e planos tão sérios e gigantes
Tão cheias de direitos e senscientes de seus deveres
gentes que não conhecem uma milonga nem uma suite para viola
dos tempos execráveis de meus execráveis tetravôs
gentes sérias corcundas de tantas seriedades mal-perfumadas das lojas

As bruxas gargalham no portão e no corredor que dá para o banheiro.
E tu vais até ali buscar o pente para mim.

Gente tola, gente infante, gente sistêmica
que precisam de um pai para lhes puxar o cabresto
e lhes ensinar a Grande Arte de Serem Vós mesmos
Ó

As bruxas gargalham em suas nucas gordas e em suas camas vazias.

ahan, ahan, ahan

Sunday, January 25, 2009

Os Cinco Elementos



Há enganos do senso comum.

Não há harmonia entre todos os Elementos,
nem todos podem se encontrar em proporções iguais.

A água e a terra são irmãs.
O fogo e o vento estão mancomunados.
Quando terra e fogo se encontram, o fogo a destrói.
Quando água e vento dialogam, brigam e debatem-se em tempestade.
O vento ajuda o fogo, apesar de sua sutileza.
O vento é a inteligência e o fogo é sua força.
O vento é maligno e espirituoso.
A água nutre a terra e a terra lhe dá sustento.
Água e terra formam um corpo e geram a vida.

Mas a terra cria os pássaros, que lhe deixam pelo vento.
Os pássaros procuram o inimigo sutil e indireto de sua mãe.
Pois o vento impulsiona o fogo que consome a terra.
A água aniquila o fogo, e este é o mais mortal encontro.
Por isso água e vento são opostos reais, pois uma aniquila e outro alimenta.
A água e o vento são os melhores inimigos que pode haver.
A eterna e interminável batalha - água e vento, pois não se aniquilam.

Enquanto isso, o Tempo, este não participa de coisa alguma.
Observa as batalhas e equilíbrios e amores entre os Elementos.
Labora as pequenas coisas, os seres, a poeira, a fuligem, a chuva.
O Tempo cria os restos mortais das lutas eternas.

Saturday, January 24, 2009

Tundra



No mais, apenas relva seca
No além, uma lagoa desabitada
Aqui, janelas cerradas
No entorno, carantonhas mortas.

E como beber nas festas dos mortos?
Como continuar a dançar no vazio
este, que é o companheiro dos que nascem
e o ninho constante até a hora do óbolo.

Aliás, deixem as mãos vazias
na hora final - nem na boca carreguem a moeda.
No máximo não permitirão a entrada no hades
e ficaremos entre mundos, velejando.

Quem será capaz de entender?
A maioria não diz senão asneiras
e o mercado está preenchido de doces
e lágrimas excessivas - e mãos lascivas
que querem tudo, não obtendo nem mesmo a névoa.

Tantas opiniões e folhetins, tanto pastiche
tanta obscenidade travestida de cetins e champanhe.
Tanta sujeira que mesmo a solidão dos cumes
está chocada com tamanha perdição.
Então, entre fornicar nas cozinhas vazias
e inspirar o ar verde das manhãs marinhas
mister é antes se acostumar a confrontar
o coração da noite, o fundo da treva, o lamento.

Descendo ao rio
Entrando no mar
Caindo no abismo
Cercando-se de anjos possuídos.

Monday, January 19, 2009

O mar




Masterclass do grande violoncelista Paul Tortelier sobre "La Mer", de Debussy, para 8 cellos.


E então! Cai a luz
em um grande salto
dourado para o alto
que era o fundo do azul

E vemos que temos
todo o tempo do mundo
Tudo esteve sempre
no fundo de estar aqui.

Na areia na beira a vaga
quebra e ouço que chia a espuma
tímida e criança mergulha chiando
no furos da areia velha - rápidos

O tempo inteiro para trás dormente
e para o futuro estão no presente
Sente - e os pés sorvem a maciez

e os olhos se enchem de espanto e gratidão
um acalanto da Morte que sorri na imensidão.

Estivemos sempre aqui -- não há pressa
Vê o azul esverdeado que pisca na onda,
o vento que canta em tons menores
antes de vir a Lua deusa sentar-se no breu.

Não te apresses -- não me apresses
Que o mar é senhor -- que o azul é breu
Que o silêncio é rei -- que a repetição na areia
nunca é igual nas ondas -- cada sereia
em sua teia -- cada compasso, um destino defronte
Eternidade, que serpenteia e canta
Eternidade, que silva ventando, deita-se mesmo
na enseada pequena que teme o Horizonte.

Sunday, January 18, 2009

"Elle est retrouveé - Quoi? L'Éternité"



Habito nas vinhas antigas.

Das profundezas, meu único desejo:
o silêncio do oceano, que o resto me aborrece.
A profundidade é escura, abafada e aborrecida
a menos do mar e seus animais bizarros que passam.

Não me cabem conselhos, deixem-me.
Como poderia receber conselhos
de quem acaricia destinos comuns?
Quero morrer no estômago de um cachalote
na virada do mar diante de um sol avermelhado.

Vivo nas estradas de céus esquecidos
e levo comigo o amor de todos os instrumentos musicais.
Minha religião, Música, meus ritos, meus cálices e relicários,
meus incensos e mantos sagrados - não cabem vossos conselhos.
Não me aborreçam com seus carros barulhentos e doces gordurosos.

Deito-me na barca ao sol à deriva
perigosamente exposta aos olhares e setas
de quem policia os que não querem policiar.
Deixo-vos, e me deixem - não quero suas profundezas
político-científicas, suas opiniões de segunda classe.
Querendo sempre concluir tudo, ter contra-propostas.
Tenho um cello, sonho guitarras, sob estrelas
só quero o fundo do mar.

Sunday, January 11, 2009

Gênio

Omar Khayam, "Rubayat"



Deve ser a covardia humana tão difundida
Tão elaborada, qual um bordado em cetim
Aproveito-me da tua covardia e vilania não calculada
da tua infantilidade, do teu medo sem alcance póstumo
para tecer um elogio à minha própria grandeza

Isso é mau. Isso é pequeno e vazio. É o fim das coisas
O fim dos tempos... que a inteligência se sirva
da simples meiguice do medo pleno de criança
que a malícia e maturidade se sirva da tua crendice
para enaltecer sua carcaça trabalhada pelo tempo
como as conchas do mar e as carapaças de longos crustáceos
para enaltecer o poder de visão estrito, mas maior que o teu

Isso é mau, mas me serve, me é útil. E vou-me
na estrada, diante do mar, ainda à caça da Raridade
ainda à caça da Beleza pura e da Vontade, e antes, da coragem da Beleza
Que a beleza covarde, que só pede desculpas, é uma beleza miúda e passageira
mais uma concha que parecia rara, mas está na coleção da mercearia

Mais uma, mais uma pedra, mais uma casa na rua
Mais uma pedraria comum e tola... meus olhos ardidos de desejo
pedem o brilho do diamante à custa de sangue
qual vampiros - não me faço de vítima, sim vampiro
e ao som do jazz da praça me finjo de displiscente - mas que sou alerta.

E vamos nós, e vou-me, sem retorno - mas não é que tudo retorna
no ventre da vida, dos objetos, do mundo, não apenas das impressões
e vou-me, sem esperar, que não tenho paciência!
Tenho o temperamento de tirana absoluta - c'est moi l'État!
sem paciência para covardes - somente para os caramujos
e para as estrelas há trilhões de anos tenho calma
Esperarei somente pelos delicados seres
de tempos esparsos e puros como lençóis d'água
somente para eles tenho todo o tempo que há.

Saturday, January 10, 2009

Hospitalidade

vista do Pão de Açúcar na base do Museu de Arte Contemporânea, em Niterói

Não sei de fato sobre o que quero sonhar
Mas sei o que desejo... e não compartilho. Não.
Não vou responder à tua pergunta de criança
Nem dar-te os meus secretos tesouros...
pois é privilégio somente de alguns, dos Poucos,
sorver essa lua amarela e cintilante como cerveja de trigo
no meio da madrugada sonhar com bicicletas e gatos
Violoncelos, vinhos, ventanias que sacodem cabelos
Azar o teu que és criança e tens muito que aprender
Não, não divido contigo essa minha taça, nem um gole

Não saberás nunca que se passa aqui
Nesta cidade dourada e verde, ah Rio de Janeiro
Quanta música e urina se misturam nessa maresia
Eu não divido... és forasteiro, e serás, criança linda
Serás estrangeiro na terra que é minha.
Afinal, como gostas de dizer, sou dona da cidade

É um privilégio dado a alguns essa arte
essa liberdade de silêncios e fugas
Quem foge sou eu... sou a dona da cidade
Essa revolução de cabelos e águas em canais, lá vem.
Essas nuvens que pressagiam espantos... lá vêm.
Não tenho medo, nasci de seus ventres brancos
Sou conterrânea da tempestade.
Nuvens estarão onde quer que eu vá: eu vos saúdo!

Não a todos é dado o canto, a visão
e a voz para o canto e o ouvir os trovões,
para as flores e caramujos que acontecem.
Não foi dado a ti - perceba apenas, resignado
que foi bendito o dia em que cruzamos teu caminho,
e que te concedemos honras, forasteiro,
um abrigo, flores, vinho e música para violoncelo.

Saturday, December 27, 2008

Aria Nova


Vou-me nas trilhas
Ando entre pedras
O perfume que a chuva
trouxe é de jasmins - eu sei


E destas flores brancas
coroas de anjos fiz
para a Novidade
o ninho da beleza
a casa em que habita
a felicidade em anil e prata


São castelos virgens
de luzes caídas de Escorpião
e Sagitário e Áries
são espadas anciãs
e trompas perdidas
nas estradas cegas


É a Novidade, na rua
na chuva e na estrada
na curva que dá para o Rio
no beco que dá para o Mar


Chuva, e estrela, cânticos
Canto o que há dentro do que haverá
E ânsias estelares pulsam
não como sóis jovens, mas como corpos celestes
poderosos há muitas distâncias de tempo
dentro do futuro imerso no passado.

Monday, December 22, 2008

Celebração



Vista do pôr-do-sol nas pedras do Arpoador.

Onde estão as vozes que eu ouvia?
Os espíritos que me guiavam, dos quais reclamava
Agora espeor ardente por cada um deles
loucos louros anjos com armas de crianças e flautas.

A uva Merlot na minha taça
O carrossel na minha cabeça
A coroa partida nos meus cabelos
A luz que quer ir embora da Madrugada

A festa eterna está presente neste farol
Estes unicórnios mudos à minha janela
As bocas das estrelas cantando trítonos
As asas dos caídos voejando nas sombras

A festa que me chama, como entro?
O vinho de frutas que mãos divinas colheram
desce à minha garganta, e qual o rei amaldiçoado
no mundo dos mortos, o Tântalo tristonho
procuro a seiva das horas mas verto-a incólume

E vêm lá os saltimbancos
Vêm lá os percussionistas
e as floristas e os cantores
Eles estiveram sempre aqui
Como eu não os vi?
Onde se esconderam?

Wednesday, December 10, 2008

Colecionando eventos




1. O casulo

Uma borboleta saiu da crisálida
e pousou nas folhas de maria-sem-vergonha.
Ela era aleijada, tinha uma asa menor do que a outra.
Apiedada, molhei meu dedo e pus açúcar na ponta
a borboleta então esticou lentamente a tromba
ainda não usada e lambeu o doce.
Não obstante, duas horas depois estava morta.
Pobre borboleta, virgem abandonada pela mãe Natureza.

2. O vôo

Uma pomba voou livre nos céus
mas veio de encontro ao vidro de um prédio
e caiu aos meus pés, moribunda
caiu numa terrível e fria linha reta
do vôo cego contra o vidro.
A quem culpar? Fatalidade
é um espasmo na pele do Universo.

Sunday, November 30, 2008

Chamado

"Le concert", M. Chagall



Abre o teu coração

para os olhares e suspiros do Universo que,

astuto, prepara a mesa, e a barca que te levará

se quiseres, até a beira da vida, até a roseira do mundo

até o poço de açoitamento de deuses

onde verás o sangue dos divinos jorrando

onde sentirás o perfume de mil acácias mortais e belas



Não fujas! Canta comigo e lança teus braços

o mar proclama, o amor reclama

os beijos de colombinas e valetes e outros saltimbancos

Não foge, ama-me, nada tens a perder.



Abre teu coração, teus olhos, teu corpo

ao suspiro imenso que a noite inventa

à luz desejada da manhã, dança comigo à tarde

e adormece à noite em meus braços fatigados

e ressona meu poema, com a cabeça sobre ele.


Saturday, November 22, 2008

Oração, ervas


"Les Saltimbanques Dans la Nuit", M. Chagall



A pedra.

Recorda-te:
a única árvore que não morrerá.
A tarde é azul
e a memória dança entre as folhas.

O templo.

Recorda-te e respira:
a luz dourada que repousa
transborda e mendiga.
O espaço é simetricamente
sobrenatural.

A estrada de terra.

Recorda-te, vive:
guarda no cantil, na mala
as maçãs da viagem
e as canções do crepúsculo.

A noite.

Em poucos minutos
a luz dissolveu-se nas paredes
e o céu amoroso e triste
como uma velha atriz
que fuma no camarim – e sorri.

O templo.

Recorda-te:
o amplo círculo do dia
gira e nunca teme.
O porvir carrega morcegos
e não teme a morte.
Recorda-te,
tira os sapatos.

Little Girl Mourning Shine

"Bride with Blue Face", M. Chagall


while the white cat
was falling asleep
the little sad song
began to crawl on the street

when the dragonfly
swept away in the wind
in the blink of an eye
little girl started to cry

in the meantime of two jokes
when two clouds dreamt away
I felt so lonesome in a sudden
quick move of two jacks of spade.

Tuesday, November 18, 2008

Quarteto para o Fim dos Tempos


"Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", A. Dürer


Para o abismo deslizamos todos lentos.
Entre nós, um licor viscoso amargo
Ódio e esqueletos de devorados pássaros
O desprezo que nos arrasta muito largo.

Para o sepulcro a torrente leva todos,
as crianças mórbidas, os monstros podres vivos
de ignorância e as baratas que espreitam.
Os leões fogem empalidecidos.

Ah quanto se perde! Quantas horas
Quanto vazio entre sangue e espadas
Tanto desfazer, tanta água em torno
da barca sozinha entre harpias aladas.

Entre restos de carantonhas vazias no tempo
de desafeto e armaduras no longo desalento
Decompõe-se a lápis esgares e mãos partidas
enquanto nascem crianças tortas desvalidas.

Friday, November 14, 2008

Bourgogne



para vocês-sabem-quem

Somente no bojo largo
da taça da noite
é que explode
o seu delgado buquê

Nem grande tanino,
nem minerais nem terra.
Você é alternadamente
ácido e tânico
e só no largo útero da noite
é que revela seus reflexos
rubi-alaranjados
e suas tonalidades harmônicas
mas também as dissonâncias
que espreitam tímidas
nos olhos negros nos cabelos
no seu corpo e no corpo da noite.

A noite é seu trono de ambrosias
e pães ricos, águas azuis, grãos macios
E é seu reinado de venenos anidros
A noite é o bojo largo
em que explodem os seus aromas

Minhas sensações enlouquecidas
esperam impacientes a total libertação
das novas flores, dos frutos amargos,
dos doces escondidos
por trás da tua ampla presença
na boca, no olfato, nos ouvidos
do meu corpo ensandecido
de rica e floral degustação
No grande seio da taça da noite
é que mostras o teu leque
de um definido e jovem buquê.

Sunday, November 09, 2008

A Grande Música

"Melancholia", A. Dürer




canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a sobriedade


Aquele maldito russo com seu piano assombrado

de mares negros e árvores mortas

implanta em meus olhos a floresta ampla

que alastra os vales dos teus olhos


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a serenidade


Alaga os quartos este trio elegíaco

onde habita um violino que já se dissolve

na persistência do desejo sobre a matéria


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a saciedade


Uma doente travestida sob uma camisola antiga

espalha esgares descomedidos no corredor

buscando no som dos braços que rasgam o ar

um padrão que fixe em madeira e aço

todos os sorrisos, os movimentos, os ecos de tua presença


canto a constância dos ciclones

não ouvir música traz a senilidade


Agora me rendo à ferocidade da vontade

Agora me rendo ao perfume espectral de flores tirânicas

Entrego-me à doçura desesperada dos sentidos

Arderei na sagração do tanino de um beijo mantido

no tonel construído por um luthier envelhecido


canto a constância dos ciclones

não ouvir música é possuir a sanidade.

Friday, November 07, 2008

Eu te amo

Na Floresta da Tijuca.


Acho que estou doente. Algo dos pulmões.
E no coração só uma sensação de abrasamento
como se estivessem a marcar com ferro quente
por toda a extensão do miocárdio.
É preciso toda a memória para resolver em palavras
as querelas quando se bebeu meia garrafa de vinho.
Amor é tão lugar comum, diz uma canção
e sento-me de madrugada entre morcegos
para chorar pesadelos e lamentar ânsias de vazios futuros.
Nada se sabe e ninguém sabe, os ouvidos e as narinas entupidos.
Mas os perfumes e as echarpes que uso são divinos
e isso basta para receber olhares de admiração.
Ao fim da noite entretanto, soluço, e asfixio, poções de bruxas.
Sinto teus cabelos entre minhas mãos, e lembro-me de campos
de ervas suaves, e crianças e gatos, e penso em mim chorando.
E choro. Atriz, ou pitonisa.
Mas será isto amor, ou teatro, ou auto-compadecimento?
Inteligente e refinada demais para o lamento público
mas sensível e ultra-romântica, patética, para a urbe que assoma
pelas letras e elétrons através da janela.
Canto e sou triste em minha alegria, e prefiro
dez ferrões de abelhas e dentes de serpentes inesperadas
que sobrevêm ao teu beijo, à morbidez do engano,
da subcultura e do mal-gosto que suportei antes de ontem.
Prefiro a guilhotina, dou-me o pescoço, os seios e a mente
à lâmina última e altiva, mas recuso a nuvem de calor do meio-dia.
Confesso, e sofro, mas não peço esmolas.

En passant

Noite de novembro. O Cosme Velho cheira a rosas e não há água na torneira. Bebo vinho e ouço Don Giovanni seduzindo Zerlina, a mais enxerida das personagens operísticas.

Thursday, November 06, 2008

Felipe

Reproduzido da graphic novel "V for Vendetta", de A. Moore.


Um Éden sem Deus
é a casa em que habita
o Adão sem maçã nem pecado
nem história, nem anjo Gabriel.
Não adianta – ainda tens um poema
um poema a mais
após a eclosão do fim.
O vinho sobre a mesa
harmoniza-se sob a luz
lunar espalhada pelos cantos.
Mesmo triste, o vinho
é harmonia com teu corpo.
Outros tentarão tirá-lo de ti
Outros tentarão imitá-lo.
És música – perfume afora
verde-escuro, e rosa, floresta.
O Jardim do Éden sem Deus
e os cantos do outono à capela.
És, Felipe, o anjo sem oração,
sem asas, sem perdão.

Sunday, November 02, 2008

Cantilena de Amor no Escuro


"Maria Madalena", Georges De La Tour



Acabou-se a luz
Da lâmpada elétrica
Escrevi patética
Uma ilha de luz.

Compondo no escuro
Cegueira e grafite
Desenhei no sulfite
Teus olhos de escuro.

Envolvida em breu
Núcleo quente da vela
Cultivo com ela
Teus cabelos de breu.

No espaço sem fim
A ilha dourada
Ampara a esplanada
De saudade sem fim.

De dentro do escuro
Palpita o pardal quente
Do desejo urgente
De vôo no escuro.

Thursday, October 30, 2008

Matadouro







P. Picasso, "Minotauro"




Ando displicente.
Estas minhas cantigas estão decadentes
mas dos teus braços tomo o manto
do torpor e quedo entre orquídeas.

Anjos malignos sopraram em meus ouvidos
uma solução bruta mas conveniente:

com esta caneta te imolo sem compaixão
despejo tua beleza repartida a faca
em meu poema, e te ofereço a
deuses exigentes.

No altar destes versos te sacrifico
e rezo sobre o sonho dos teus olhos escuros.

Monday, October 27, 2008

Batalha de Escorpiões



"Orchid", de R. Mapplethorpe



Já não sei o que fazer

com este pavor

Não sei o que fazer

deste calor

Onde pôr

estas flores vermelhas

Não sei como ouvir

essa música de bruxas

que desperta leões

na madrugada.

E o demônio que dança

às gargalhadas

Que fazer deste estupor?

Como calar estes tons

que perpetram asas escuras

nos lençóis que balançam

nos varais virgens?

O anjo me tortura

dia e noite

com olhos escurecidos

de taninos e aladas

foices de prata.

O anjo me retém

sob o escudo sangrento

de seu terror

de rosas e cantos.

Está declarada

a batalha no deserto

e em alto-mar.

Estou a postos.

Friday, October 24, 2008

Sphinx

"A Virgem", Gustav Klimt

Para FP

Houve a noite da esfinge.

A esfinge reina soberana
e meu coração impaciente
voa aflito com aflições
de pombo desértico
Eu, criança, diante da porta
Do corpo da esfinge soberana.

Na boca da esfinge
O lagarto colheu dardos
De doces intumescências
No repentino verão
De noturnas florescências.

A esfinge sorri na areia.

Tempestades estrangeiras
Trouxeram os olores
Transparentes ervas úmidas
Com a bela silhueta escura
Da esfinge marinha.

Na noite da esfinge
Eu, nômade, bebi de anis
Em cálice tomado de dores
Risonhas e chuvas frescas.
A esfinge, bela na noite,
Reina soberana na areia.

O instrumento do demônio
Canta na garganta de cerejas amargas.

A esfinge reina soberana.

Sunday, October 19, 2008

Ars Erotica

"Ophelia", de Millais



“Amo a floresta. Ruim é a vida nas cidades: há ali demasiados libidinosos.”
Nietzsche

I.Ciganos e suas rabecas

O amor expande violeta
a íris da consciência.
É o que dizem.

Cada um é só
com o corpo embargado de espírito.
Cada um é sozinho.

A imensa ânsia
para o que não habita em si
O eterno andarilho

Adormeço sob As Três Marias
Adormeço um pouco em ti.


II.Ressona a Grande Explosão

Sorrio de graça e em minha taça
descansa a roxa solidão de meu amor

Acredito na música que ressoa ao fundo
do mundo e desta poeira
Acredito na sinfonia que reverbera
por trás da dança das varejeiras

Quando acabar-se o mundo
Após uma explosão fraternal
Ranger de gritos apavorados
será possível ouvir gigante
um concerto para piano
mozartiano


III.Lascívia

Canto com as cigarras
Canto um pouco em ti.

Acariciar asas violetas se possível;
cantar o que não está perto.

Na brisa gélida que treme as últimas folhas
das mortas árvores de abril
dança uma valsa a bela Incerteza

Nenhuma flor marca meu jazigo
Meu espectro é dignamente pobre, e vive exonerado
exilado nos píncaros brancos
do desejo que lhe estica a alma
como a um manto de linho antigo.

O amor é uma libélula infernal
Asas; e que deixam rastros na água.


IV.Divertimento

Os deuses banham-se
em jardins de begônias
e, vê, as serpentes dependuradas
nas amoreiras emaranhadas
traçam na tepidez da primavera
mórbidas grades de galhos
cálidas ao olhar das feras

os deuses banham-se
em jardins de begônias

Num compasso crescendo
águas azuis no momento
em que um satírico vento
revolve as lupercais
dos teus olhos abissais.

Preenchem o escuro Vale das Máquinas
patéticas eletrificadas, gás, carvão e hulha
sublime kyrie disperso na poeira
flutuante espaço tenso em ostinato
doura os céus dos acontecimentos
um minuto antes de um divertimento

que ressoa para teus verdes sorrisos na rua
os quais contêm todos os sorrisos da lua

Tuesday, October 14, 2008

Poema do Escuro




Cheguei a pensar que não iria mais te escrever poemas nem coisas afins belas.
Porque pensava-me velha, pensava-me finda no círculo da hora na barca que dança,
fechada numa decisão de guirlandas carnívoras, e bastava-me a escravidão
da idéia, da mesma frase, da mesma ofensa, da mesma nagação da liberdade
mas agora na noite a erva e lua, a estrela a água se fazem senhoras
e nenhuma circunstância roubará teu corpo e a amálgama da essência de você.
Porque em nenhures estarei e não sinto a solidão, pois moro com a Lua
e durmo com o deus mais altivo e tenso de todos, o Sol
e o céu inteiro é minha casa, e você, música, minha porteira
E tua boca, topázio marinho no portão de entrada para o mundo
e neles habito... habito nos ares com as gaivotas e falcões
intimamente em grandes envergaduras.
Busco a estrela, e bebo a alvorada, e lá está, esse homem que se senta esguio
na última laje, no ducentésimo galho de jasmineiras -- alías orquídeas
Que te adoro rico em cores, que te quero desenhado em rosas e vermelhos e azuis
que te quero selvagem da masculinidade típica dos céus de outubro
e das peças magníficas para sopros e metal... com entradas particulares para as cordas.
Homem, nascemos para isso, para isso crescemos, para o cântico... alvoradas
luzes turvas da madrugada, e vinhos escuros, tons anis, desejos fulvos.
E caio num ninho de suaves lilases, que são lembranças de lábios e noites unidas em mi bemol.

Friday, October 10, 2008

Quote

Céu de Ouro Preto depois de chuva.

"Freedom lies in being bold."

Robert Frost


Sunday, October 05, 2008

Gosto de vinho.


Vinho e chama de vela
Vinho e jazz que se parte
entre os suspiros e silêncio - mais
um coração aturdido.

Vinho e cantiga das horas
Vinho e lembrança de amoras
Vinho e um libertário estertor
Vinho, de fino amoroso horror.

Saturday, October 04, 2008

Gosto de... continuação.



Para não dizerem que não falei de flores....

E não somente siciliano. Não sou assim tão fã de
trocadilhos óbvios, é que veio a calhar...

O perfume é único. Mas o tahiti é melhor, mais azedo, mais profundo, mais ácido, mais intenso.

Só falta o jazz.

Friday, October 03, 2008

Uma daquelas listas de coisas de que gostamos.

Ao contrário do que muitos pensarão, não foi inspirada em Amélie Poulain, mas sim num blog português muito belo que visitei recentemente (se vocês clicarem no título da postagem, que está em highlight, irão parar nesse dito endereço lusitano). Relembrei com ele um velho hábito de infância e adolescência, o de listar coisas de que gosto. Pode ser uma tentativa de poesia. Uma nova forma, a poesia-lista? Calma, é só uma piada.

Só para começar, as coisas mais óbvias. Muitas são clichês, mas fazer o quê? É que nem sexo, universalmente apreciado. Clichê dos bons.

Prometo escrever coisas mais sutis da próxima vez... sim, essa listinha continua.

Gosto de:

1. A letra csi do alfabeto grego. Tenho numa postagem antiga deste blog uma série de fotos de csis, para quem não lembra ou não sabe qual é. Aliás, especializei-me em desenhá-la. Merecia já um vale-doutorado só por ter aprendido a escrever direito, quando nos institutos de matemática há essa legião de professores e bons matemáticos quase que totalmente incapazes de escrevê-la, mesmo sendo tão requisitada.

2. Taças de vinho atrás de velas acesas, com bojo largo, de forma que possam refletir sutilmente, na sua convexidade elegante, a luz da chama.

3. Gatos.

4. Cheiro de livros bem novos e de livros bem velhos.

5. Tardes em que o vento é intenso porque choverá em breve.

6. Pedras redondas submersas em água cristalina.

7. A hora 11:11.

8. A poesia de Gabriela Mistral.

9. O cheiro de pão quente e a voz da mãe cantando de manhã enquanto faz café.

10. A sensação de pés descalços sobre a grama molhada de manhã cedo.

11. Ficar silenciosa numa mesa em que todas as pessoas conversam e fazem balbúrdia alegremente, deixando fluir através do corpo, como se não estivesse ali, como se já tivesse morrido, a enervação dos pensamentos e o calor da vida humana.

12. A cor lilás.

13. Árvores jasmineiras quando chove.

14. Caminhos, estradas, principalmente de madrugada. Olhar para o céu de dentro da janela do carro, ônibus, o que for, e ver o escuro salpicado da Via Láctea cedendo gentilmente a vez para uma ainda ingênua luz debutante.

15. Beijar a boca daquele por quem se está apaixonada tendo bebido água, e ele, vinho.

16. Lençóis e véus.

17. Mãos de pessoas idosas.

18. O espaço vazio e silencioso entre as estantes de alguma grande e rica biblioteca. fechar os olhos e respirar nesse momento, parada entre os livros.

19. Barcos.

20. Janelas.

Wednesday, October 01, 2008

The Lark Ascending - Again

"He rises and begins to round,
He drops the silver chain of sound,
Of many links without a break,
In chirrup, whistle, slur and shake.
For singing 'til his heaven fills,
'Tis love of earth that he instils,
And ever winging up and up,
Our valley is his golden cup,
And he the wine which overflows
To lift us with him as he goes
'Til lost on his aerial rings
In light, and then the fancy sings."

Excerto do poema de George Meredith que V. Williams ressaltou no início da partitura da belíssima peça homônima, sem o "again".

DICA: ouvir a gravação de Nigel Kennedy com a Royal Philarmonic Orchestra, sob regência de Simon Rattle.