Saturday, January 14, 2017

https://www.youtube.com/watch?v=v--IqqusnNQ


Homem memetiza mulher
amor da minha vida, David
sendo mulher que memetiza homem
vadia, que vagabunda, piranha
não tem vergonha de ser medíocre
e se vestir que nem homem
não serve nem pra artista de rua
não serve nem pra ser estuprada

Friday, November 11, 2016

Para Leonard



Faz um grande vazio no céu da minha cabeça
Mas não daqueles de noites sem estrelas
e sim um céu azul, gelado, banhado de um sol
de depois da chuva, em manhã de outono.

Uma despedida que não é de lágrimas
nem de adeuses prolongados, cansativos, doloridos.
É uma despedida que é riacho floresta abaixo,
gota de sereno adentrando o mar imenso,
poeta e guitarra decolando para um novo continente.

É a lua que, generosa e elegante, aceita a inexorável luz  dourada do dia.
É vento que traz e leva um perfume de jasmim no meio da rua.

Tuas palavras estão nos nossos ouvidos,
e nas mãozinhas das crianças, e nos ensaios da intelligentsia,
e nas velas que os monges acenderam para você.

Até mais, Leonard.
Em breve a noite chega, e a luz graciosamente aceita a escuridão.

Sunday, August 21, 2016

Vento, domingo



Amanheceu um dia de prata.
A chuva cantou, então se ausentou para descansar.
O sol desceu dentre as nuvens,
elegante, tímido, sonhador
e tingiu os prédios de uma luz envelhecida.

Manhã que debutou como se já fosse crepúsculo,
poesia que marejou meus olhos,
uma noite de verão beijou um dia de inverno.

E as nuvens roubaram, grávidas de água e vento,
a prata quase dourada da luz nos muros,
luz que se torna vítrea e azulada.
Uma tarde que é promessa de uma viagem, um amor,
um passado que faz as pazes com o futuro
cheio de folhas esvoaçantes, livros, caminhos, céus multicolores.

Delicadas são as forças do devir que agem no vento
Trôpega como crianças são as palavras que a eternidade canta.

O mar aqui ressoa, oração, espelho, calmaria,
enquanto a ventania traz uma hora cheia de rebeliões do tempo.

Entardece e converge o dia para o abraço silencioso,
e, como uma harmônica de vidro,
um deus sentado nas pedras desenha um mistério.

Friday, May 13, 2016

Altocumulus




Que triste é o verão;
que triste é a canção efusiva e repetitiva de um céu azul
e a extenuante umidade calorenta

Quão doloroso é o olhar sobre uma estrada
perfeitamente pavimentada,
em que há mortes durante a madrugada;
para uma lagoa calma azulada
que, ao entardecer, solta fogos-fátuos
e outros elementos podres e silenciosos.

A totalidade da cor e a falsa permanência
são veneno para a mente,
são o sufoco da alma escrava dos sorrisos e oprimida pelos afetos
são a anestesia para um coração já embolorado
e embalado em açúcar de amores, requisitos e bom-dias.

O céu sempre azul - efusividade autoritária
O calor pleno e o ar imutável - a angústia de Prometeus
eternamente bicado pela ave de rapina.

Chegam as hostes de nuvens - chuva
vento e revolução
água no rosto, cabelos ao vento
O tempo se liberta,
o corpo se torna fogo e ar
-Respiro! Algo vai acontecer

Algo acontecerá, anuncia o Sacerdote Altocumulus,
pois tive um sonho que trouxe presságios,
algo acontecerá.

Tuesday, September 01, 2015

Hoje é dia de poema




Porque hoje está chovendo
Hoje é dia de se perder e temer.
Hoje é dia da coroação da Senhora Liberdade
e seus duendes alados beberão sangue em taças de ferro,
fadas tirarão a virgindade
de secos e inférteis intelectuais no meio da madrugada.


A noite será longa, mas curta demais para poetas.
Os músicos tocarão seus alaúdes e suas alabardas
e sangue humano será derramado.
Pássaros silenciarão, mas haverá pardais
e pombos famintos de manhã
e crianças sujas dissonando da música com urros de leite.


Morreremos em breve, mas lobos serão nossos cavaleiros
libélulas nossas daminhas de honra e
gatas, nossas madrinhas excêntricas.

Despeço-me da vida com a chuva que envolve a lua
nua, com seu véu de seda aquático
E renasço amanhã com a memória macia
da música e do vago terror
de ser livre, puro e não ambíguo.

Sunday, July 12, 2015

Dança de vento e sal



Meus movimentos de asas se alimentam
de seus olhares de despeito vermelho
e de suas bocas inchadas de maledicência.

Minha pele é armadura como exoesqueleto de libélula
e meus olhos são os dos felinos à noite.
Conjure feitiços, e eu os cortarei
tal como a chuva dissipa a fumaça negra da morte.

Danço cada vez mais alto, e sobranceira
despeço-me de toda a gente ignóbil, as lagartas,
as comadres na janela e vadios de taverna
que um dia serviram ao meu lado, aos mesmos capitães.

A cada maldição, meu sopro de arte.
A cada flecha envenenada, meu passo de fanfarra.
A cada sussurro negro, minha canção em letras douradas.

Tal como Ariel, danço nas areias, no sal do tempo,
na luxúria do vento, no caminho da floresta imaculada.

Tuesday, April 14, 2015

O ogro na biblioteca




O ogro senta-se majestoso
sobre uma pilha de livros modernos,
descomunal, triunfal, grandiosa é sua pança de ar.
Flui em seu sangue fogo-fátuo
e seu suor expele pequenas águas-vivas.

O ogro sonha em ser um príncipe. Crê ser um diplomata.
Suas enormes mãos derrubam comida sobre os livros,
ele diz que não precisa mais deles para conjurar fórmulas e feitiços.

O ogro afasta as borboletas com seu hálito nauseante.
Esbraveja ao mundo que são as borboletas as débeis
doentias, vulneráveis, um gasto ineficiente da Natureza.

O ogro urra longos discursos intercalados
com sons de gases e frases estrangeiras.
"Whatever, dude", "ah bon? Mais oui."
O ogro reúne um séquito de bajuladores,
lagartas mal formadas e sapos coaxadores.

De volta à Planolândia


Encharcada até os ossos
do pálido drinque industrializado
comprado em módicas garrafas
no mercado da esquina.

Fadiga de gente que diz "bom dia".
Fadiga de gente que aceita qualquer almoço,
qualquer cama para dormir, e  se crêem barões.
Multidão que adora clichês como deuses em frascos,
e se crêem poetas cegos e pitonisas.
Fadiga de gente que é bastarda na alma,
e farta nos talões de cheque.

Cansada de gente que gosta de qualquer livro,
que adora qualquer música,
que se empolga com qualquer filme,
e toda expressão congelada é uma obra de arte.

Pequena  elite pequeno-burguesa, sem senso crítico.
Farta desses olhos amarelados
dentro de carros parados no engarrafamento.
Gente que ostenta o copo de café do Starbucks
ou a viagem à praia no fim de semana
como o banquete no Olimpo.

Farta de mediocridade das fanfictions,
da pobreza vocabular e de suas trivialidades grosseiras.
Hipsters que se tomam por trágicos dândis
e adolescentes que brincam de sarcasmo.
Farta de homenzinhos mentirosos e
falsos sedutores fedendo a artifícios,
nauseada de falsos amigos que sempre têm uma carta na manga.

Fadiga dos burguesinhos bastardos na alma
e obesos nos cartões de crédito.

Classe purulenta a da gente que aceita e aprecia tudo sem questionar
e se crê bem-sucedida em seus início-meio-fins.